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A dois dias de enterrarmos 2008 pra sempre na gaveta das coisas que nos assombram, descobri o melhor disco do ano… apesar da obra ser na verdade lá de 2007.
Sky Blue Sky, do Wilco, foi a melhor coisa que escutei neste ano que passou, depois de alguns atrapalhados esforços léxicos de Cecília.
O fato é que o disco me fez entender melhor o primeiro capítulo de um livro de 1988 – e vice-versa -, mas que pra mim também foi o melhor de 2008, Seis propostas para o próximo milênio, de Calvino.
“A gravidade sem peso de que falei a propósito de Cavalcanti reaflora na época de Cervantes e Shakespeare: é aquela relação particular entre melancolia e humor, que Klibanski, Paranofsky e Saxl estudaram em Saturn and Melancholy. Assim como a melancolia é a tristeza que se tornou leve, o humor é o cômico que perdeu peso corpóreo (…) e põe em dúvida o eu e o mundo, com toda a rede de relações que os constituem” (capítulo sobre Leveza)
A melancolia é a tristeza que se tornou leve… tristeza sem peso talvez seja algo como uma saudade, uma infância boa que volta e meia nos acomete com seu cheiro de café, sua pele de veludo arado pelo tempo no rosto de minha avó.
Antes de ler Calvino, eu diria que Sky Blue Sky é um disco triste, mas teria perdido muita coisa nessa transcrição das notas para as letras – muito mais do que o aceitável. Estaria deixando de fora a capacidade de redenção que essas harmonias arraigam em seus intervalos, uma tristeza que expurga, algo como aquelas cócegas no peito que parecem nos sufocar a caminho de um aguardado reencontro – para que se descreva uma dor como cócegas também é preciso tirar seu peso.