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Para o peito magro, o fio da faca. Restavam-lhe poucos pulsos, o suficiente para aquecer o metal encravado, e para mantê-lo acordado por mais alguns goles de aguardente. Morava com a avó e o irmão mais novo, todos nem muito brancos nem muito pretos. Não eram bonitos; feios, tampouco, parte daquela gente que não vemos passar enquanto seus corpos nos esbarram.

Abrira a garrafa ainda cedo pela manhã. Na pequena mesa da cozinha, bebia virando o copo de uma vez, adiantando-se para dentro dessa náusea de calor de todo dia. Seu irmão não quis um gole antes de sair, nem quis saber o que ele estava fazendo com uma garrafa de cachaça logo às seis, e uma lâmina de metal, polindo dois pedaços de madeira da largura de um punho.

Isso aqui, ele disse mesmo assim, é pra quem quiser se meter comigo. Facão pronto; e seu destino. Não se sabe como a briga começara, mas a avó já suava na margem amolada da faca pouco antes do almoço. Não, não, por favor, meu filho. Qualquer escorregão ou espirro e se iria o pescoço.

Chegando em casa o irmão mais novo correu para salvar a avó. Duelaram sob o peso de suas respirações, sob os gritos da velha, sob a televisão ligada na sala, sob os latidos do cachorro do vizinho, sob anúncios de abacaxi e de laranja do caminhão de frutas.

Não se ouviu o grito quando sua costela resistiu ao assalto primeiro do metal. Três, talvez mais quatro estocadas até que tudo esteja resolvido. Não se ouviu o grito, mas lá estava a faca plantada em seu peito magro. Aos poucos o sangue alagava seus contornos, encobria verrugas, cicatrizes, relevos de músculo, o umbigo.

Ainda teria tempo para mais um gole. Lambuzara seu último copo naquele sangue todo, diluíra um pouco em aguardente, e brindou-se. Naquele mesmo dia escrevi sua curta história numa matéria de rodapé, junto com um triângulo amoroso de idosos que terminara em tragédia. Manaus, Zona Leste, Caderno de Polícia.

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Montarroyos tinha os olhos estranhos. Circulados de pálpebras de hidrocor vermelho, excesso de ferro, falta de sono, saltados com seu gris central. Duas esferas de alvoroço querendo sobreviver àquela cama pálida de pele e carne velhas.

Montarroyos estava preso na Alvorada. Sua cela na Roubos e Furtos era um quartinho privado, delegado que era. Seu criado mudo, seu abajur, uma cadeirinha num canto do cômodo, televisão de 14 polegadas e uma cama que devia estalar… a cama e o biscoito branco, seco, salgado, que ele comia com uma tristeza que talvez eu jamais pudesse decifrar. Seu café com leite sobre o criado.

Assim o vi pela primeira e última vez, durante uma das rondas policiais para o marrom caderno nosso de cada dia. Tinham prendido uma quadrilha de assaltantes, havia um alvoroço, uma euforia estranha nos investigadores… podia ser a de um dever bem cumprido apenas, mas tenho a mania de sempre desconfiar de policiais, de modo que aquela catarse ainda me paira estranha.

O fotógrafo conseguiu uma foto de Montarroyos caminhando livremente pela delegacia – ele deve ter saído da “cela” pra ver o que era toda aquela confusão – então isso também acabou virando uma matéria. Montarroyos era acusado de ter mandado executar alguns adolescentes, depois que eles invadiram sua casa e violentaram sua filha porque não há paz por aqui.

Deixei a matéria escrita na minha pasta para o editor, que só chegaria daí a algumas horas ao jornal. A sugestão de título – uma brincadeira que jamais imaginaria publicada – saiu, no topo da página, exatamente como a deixei: “Bangue-bangue, peruca e café com leite”.

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Havia dias em que a ronda não dava nada. Uma tentativazinha de homicídio aqui, uma briga de bar ali, um afogamento no IML… nada que rendesse matéria. Em dias assim, junte todas essas informações e faça um pseudo-panorama da violência na cidade, fale como foi o dia na capital… o que pelo menos garante meia página. Ligue para alguém da polícia e peça estatísticas. Nós adoramos gráficos… e de repente, quem sabe, você tem a capa de Cidades.

Mas naquele dia não. Quando cheguei no 8º Distrito, na Compensa, farejei minha carniça, a poça de sangue que me escorregaria até a primeira página. A manchete seria: “Alfredo cabra macho – amante denuncia espancamento e cárcere privado”. A dita amante passara o dia na delegacia, após conseguir fugir da casa do então prefeito, e estava à espera de alguém que a ouvisse; e eu, jovem e ilegal estagiário de jornalista, no auge da inexperiência, estava disposto a tal.

Olha a maluquice que era a história: A mulher era amante de Alfredo e estava sofrendo maus tratos em sua “prisão” na própria casa do prefeito. Ela teve seu passaporte roubado para que não pudesse fugir do País e apanhava regularmente tanto de Alfredo quanto da filha dele… por quê? Simplesmente porque eles eram más pessoas – e não há motivo melhor do que esse no fim das contas. Mas a catarse ficou para o fim: ela tinha como provar tudo aquilo! Estava de posse de gravações em vídeo que comprovariam todas as acusações.

O fato é que o então prefeito não sabia que sua amante tinha um olho de vidro, que servia de lente para uma minúscula câmera posicionada na parte traseira da cavidade orbitária por seus amigos de outro planeta. À essa altura, os dois investigadores de polícia que me instigaram a conversar com a “vítima” estavam quase caindo de tanto rir no estacionamento da delegacia.

Voltei pra redação pra solicitar um gráfico.

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Um belo dia, escrevi matéria sobre o estupro de uma criança. O acusado era o padrasto. O interessante é notar como eu e o jornal podemos nos eximir de toda responsabilidade sobre qualquer coisa que escrevemos somente pela escolha de palavras. Estuprador não; ACUSADO. E lá vai a foto do indivíduo no topo da página.

É preciso ter muita cara de pau pra pagar de ético às custas de um detalhe semântico desses… pois no mundo aqui fora, acusados apanham como condenados. E invadem sua casa, e roubam suas coisas, e proíbem-no de voltar à vizinhança.

Caderno de polícia é versão marrom de uma coluna de fofocas.

Legendas das fotos:
1. Jônata Santos (25), vulgo Cascão, exibe nova tatuagem adquirida durante recente temporada na Anísio, em assalto a mão armada que abalou a noite manauara na última semana.

2. Cleto (32), de serrote na mão, e Sandra (28), desacordada na cama, coberta de sangue, em momento Snuff Movie antes da chegada da polícia.

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