Não conhecia o pintor Pierre Soulage, mas ao ler uma pequena entrevista concedida a Philippe Dagen, no Le Monde (no. 3181), por conta de uma exposição em cartaz no Centre Pompidou até março, fui procurar seus trabalhos pela Internet.
Me interessei porque o cara vai direto ao ponto, sem as afetações e viagens características do povo ultramoderno e arrogante do mundinho das artes. Entrevistas com artistas normalmente são uma porcaria, especialmente em jornais impressos, primeiro porque não há muito espaço na página e segundo porque artistas raramente conseguem ser sintéticos quando o assunto são eles mesmos.
Traduzi dois trechos a seguir:
Enfocando as obras de 1946-1947, os curadores da exposição tornaram a singularidade desses trabalhos ainda mais evidente. Você poderia explicar essa singularidade hoje em dia?
Simplesmente, comecei a pintar por mim mesmo, com o que mais gostava, com a cor e os ritmos de que gostava, com a disposição das formas que me interessavam. É verdade que eu estava um tanto isolado; na França, fora Picabia, Pevsner, Hartung e Roberta Gonzales, não havia muito mais que interessasse ao que eu estava fazendo. Naquele momento, em 1946, a maior parte dos pintores experimentavam a pintura de suas emoções, uma forma de expressionismo. Eles queriam que houvesse um sentido para suas telas. Mas o sentido não é dado definitivamente: ele se faz e se desfaz… lembro-me de uma visita ao Louvre, naquele tempo. Uma obra mesopotâmica me fez parar; e me perguntei o por quê.
Que relação eu tinha com o homem que fez aquilo? Nenhuma. O que ela significava para os seus contemporâneos, em relação à cultura, religião ou ordem social de então? Não sabia. O sentido que ela possuía naquela época me é irrecuperável, e isso na verdade não tem importância. Então, o que acontece? Aquela escultura de basalto negro era uma coisa, e não um signo. Aquela escultura ia muito mais longe que um signo e mobilizava em mim, algo meu. Ela não era, portanto, redutível a um sentido ou a palavras. Uma obra… não são palavras: se queremos palavras, escrevemos, não pintamos. A pintura não está lá para dizer.
Nem para ser dita…
Não. Certo dia, Nathalie Sarraute me escreveu, numa carta, que as palavras não podem penetrar numa pintura. Concordo com ela. No mais, se a pintura for uma questão de sentido, quando esse sentido passar podemos jogá-la no lixo, não? Como um telegrama lido…
(…)

O senhor pendurou telas negras numa sala sem muita luminosidade…
Para mostrar que é preciso ver com os olhos, não com o que temos na cabeça. Para preparar os visitantes ao que eles verão em seguida. Para que eles sintam, como eu, que a luz é de uma riqueza inimaginável. A luz se fragmenta, se cadencia, se modifica. É incrível o que podemos fazer com ela, sempre surgem novas possibilidades.


