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Passando pelo centro de Juiz de Fora, vi um sebo vendendo seu acervo por peso. “Livro a Kilo!”, dizia o anúncio. Dependendo da estante, os preços variavam de nove a vinte reais por quilo de livro. Sem querer, achei uma edição de 1924 de um guia turístico de Paris, “Paris et ses Environs – Les Guides Bleus”, devidamente arrematado por R$ 18.

Há uma introdução com aspirações meio literárias, resgatando os primórdios do gênero, que remontam ao livro “Tableau de Paris”, uma obra em 12 volumes. Um guia turístico em DOZE VOLUMES! Por curiosidade, fui atrás do tal livro e o encontrei para baixar. Mas onde quero chegar com toda essa história?

Bem, na página 71 do primeiro volume, encontrei um capítulo dedicado aos “Portadores de Água”, pessoas que retiram água do rio para vender aos moradores da capital francesa, que até então possuía um sistema de distribuição de água muito deficiente. Bem, são 20 mil desses profissionais circulando o dia inteiro pela cidade – para atender à toda a demanda – vendendo uma água que, segundo o autor do guia, relaxa o estômago. Quando o rio está com “problemas”, entretanto, ele pede que o turista acrescente uma colherinha de um bom vinagre branco em cada balde, para evitar possíveis diarreias.

Paris. Ano? 1781 (sim, o tal do Tableau foi editado e publicado em MIL, SETECENTOS E OITENTA E UM).

Manaus, a Paris dos Trópicos, igualzinha. Mas… em que ano estamos?

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Não gosto dos artistas de rua que invadiram Manaus há um tempo, do circo mambembe aceso no semáforo, da cara de palhaço que não é trágico: apenas chato. Os equilibristas de olhos verdes, pele morena e dread locks exibem a mesma criatividade que antes ficava exposta apenas nas bijuterias na praça, na praia, na festa de reggae. São todas iguais, todas made in china, exatamente como todos esses libertários andarilhos, que não importa de onde venham, são todos peruanos.

Quantas vezes se pode ver o mesmo número das três ou quatro bolas revezando-se em duas mãos, ou cones, ou tochas acesas? Vejo de quatro a seis sessões por dia. Às vezes venço meu fascismo e acabo pagando. Acho que por conta da Copa do Mundo, Robério Braga deveria organizar melhor tudo isso, abrir editais para o que chamaríamos de “Espetáculos de Semáforo – um sinal verde para a arte”, esquetes de 30 segundos tendo como mote releituras do movimento hippie numa perspectiva da arte na era da reprodutibilidade estéril.

Os grupos de teatro da cidade teriam mais esse espaço para seguirem anônimos, e os hippies voltariam às festas que não frequento mais.

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**texto antigo**

Graças a Deus não estou trabalhando em nenhum jornal: primeiro esforço léxico do dia; oxalá não tivesse aula foi o segundo. E assim, com dois deuses invocados de manhã bem cedo, além de um gole de café, começou – para mim – a estréia do Brasil na Copa do Mundo 2006. Em alguns pedaços da minha rua, tirinhas verdes e amarelas amarradas a barbante como rabiolas disputavam irregularmente o espaço aéreo com fios elétricos clandestinos. Patriotismo e Malandragem a céu aberto; elementos que aliados ao sincretismo religioso que nos acomete sempre que chuteiras acetinadas feitas sob encomenda por grandes corporações passam a representar o que há de mais sagrado no pé de um moleque ralado em asfalto, cheio de ceroto e sede; formam a santíssima trindade de nosso futebol. Melhor dizendo, de quem torce por ele.

O dia tinha cara de jogo mesmo, de final de campeonato, bandeiras desde cedo, um sol de rachar, e uma sensação esquisita de domingo eterno em plena terça-feira, como uma terça-feira gorda que mesmo longe do Carnaval nos dá a licença para a putaria sem culpa, um País de Cocagne para cada esquina. Tudo pode; nada acaba. Nem essa bosta de aula, era preciso comprar gelo urgentemente, e Paulo Freire não poderia me ajudar. Parecia tarde, mas o professor dispensou a turma cedo. Às onze e pouco da manhã, a cidade já havia se transformado. O que antes era apenas o prenúncio de toda a desordem que se pode aceitar socialmente, agora acabava de se confirmar. Manaus, de cabo a rabo, parecia um único e imenso arredor do Olímpico de Berlim, que fica no país imaginário da Alemanha.

Trânsito completamente engarrafado do Centro para os bairros – mas isso acontece todo dia, oras! –. Tudo bem, é verdade, o trânsito é sempre uma confusão, mas e o festival de buzinas? – algum dia foi diferente disso? – Não, é sempre assim mesmo. Será que Manaus vive um eterno pré-jogo? Foi então que me veio o estalo, aquela iluminação das coisas óbvias. O futebol, que numa Copa do Mundo chega a seu ponto máximo de representatividade, é apenas a desculpa perfeita, inegável, irrepreensível, pra essa bagunça, e que pode ser compartilhada simultaneamente por todos, e talvez por isso ele seja tão importante para nós, bons e malandramente patrióticos brasileiros. Analisando bem, o que acontece num dia de jogo do Brasil em Copa do Mundo é o que acontece todos os dias do ano em qualquer lugar, apenas levado quase ao extremo: gente saindo mais cedo do trabalho (ou faltando), bebendo em horário comercial, fazendo churrasco na calçada, grafitando logradouros, gritando no meio da rua, escutando samba em alto volume, e por aí vai.

A diferença é que existe uma espécie de acordo tácito entre os homens que os faz revezar nesse esquema. Se hoje faltou o fulano; espero até semana que vem pela minha vez. Hoje, nessa rua, só as casas ímpares podem fazer festa; amanhã, as pares. Dia de jogo é alforria, todos juntos podemos largar os compromissos mais cedo, gritar pelas ruas, sacros e incuravelmente bêbados. No mais, ninguém dá bandeira pra não mostrar que o que realmente une a nação não é o ideal patriótico da chuteira, mas a capacidade de nos convencermos de que isso é verdade, algo como aquele truque do diabo fingir que não existe. Acho que não seria um exagero dizer que o brasileiro torce apaixonadamente mesmo é contra a Argentina, porque se ela acabar com a nossa hegemonia vai melar todo o esquema.

Finalmente cheguei na casa do Pablo. Oito caixas de cerveja e duas garrafas de vodka, churrasco, começamos os trabalhos logo. Faltavam três horas para o jogo, a grande estréia do Brasil contra a Croácia. No final das contas assisti ao único gol já no replay, mas tomei banho de mangueira na rua, gritei com todos os que passavam na frente da casa, xinguei o Parreira, e depois do jogo todos continuamos com a festa, depois de perder alguns minutos falando sobre como um a zero é muito pouco para essa seleção de grandes astros, enquanto rabiolas verde-amarelas balançavam sobre nossas cabeças, encobrindo o gato de energia que garantiu nossa transmissão do jogo, diretamente do país imaginário da Alemanha.

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Dizem que um mercado é a “alma” de uma cidade, um lugar onde se pode perceber as nuanças e idiossincrasias de um povo. Pois bem, fui até o Mercado Adolpho Lisboa, no centrão, em busca de alguma dica sobre o espírito manauara que deveria nos habitar, mas não havia inquilinos, apenas uma placa de aluga-se com urgência.

Se é verdade a constatação que abre o texto, Manaus é uma cidade esvaziada, em busca de um novo significado, de um novo discurso talvez. Conversando com alguns donos de estandes antigos do lugar, que trabalham no mercado há 30, 40 anos, percebi que a frequência de visitantes no local sofreu uma mudança significativa – mudança conceitual, não em termos de quantidade.

Explico: antes, o freguês era local, ia fazer feira do dia ou da semana, conhecia o feirante, tinha seu preferido e por aí vai. Hoje, a visita é turística, vem gente de todo o mundo, mas todos estão lá para passear. O mercado é esvaziado de seu significado original, e consequentemente, os produtos que ele vende também o são. Antes, o forte eram as frutas regionais, peixe, legumes, verduras, grãos, todos com sua função original de alimentar a população. Hoje, o artesanato é o carro-chefe, e o que é o artesanato senão uma ressignificação de objetos (esvaziamento e nova posse)? Vende-se arco e flecha e artigo para fazer farinha, mas ambos servirão de enfeite em alguma sala na Europa.

Manaus está se tornando um não-lugar, sem rosto, uma cidade pálida, meu cara pálida, e sem o orgulho que sua propaganda diz que ela tem.

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Manaus deve ter a elite mais burra do País, o que deve significar, muito provavelmente, a mais burra do mundo:

1. Não há livraria com mais do que lançamentos;

2. Não há cinema com mais do que Hollywood ou Daniel Filho, (mas vá lá, pelo menos não me aparece aqui nenhum iraniano);

3. O melhor restaurante pelo guia Veja há não sei quantos anos expressa toda a sua imensa criatividade num prato de picanha com arroz e farofa a 50 reais;

4. A melhor boate é uma franquia;

5. Os ditos grandes festivais de música só escalam bandas cover da cidade;

6. Fomos a primeira do Brasil a ter luz elétrica e a última do mundo a ter o modernismo;

7. Nossas rádios leem jornal;

8. Em toda a cidade, apenas nossas rádios leem jornal;

9. Amazonino é prefeito, mas isso é atestado de ignorância geral;

10. Ainda temos movimento estudantil, acho que ficou pendente só o negócio da meia passagem, porque o Bush já saiu e a Alca não entrou.

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