A BOCA

Daniel Valentim já escreveu em jornais, mas infelizmente formou-se.

Manifesto

Certa vez me mandaram pro Mauazinho. Pequena ladeira na boca do labirinto. Você vai, eu espero aqui com a porta aberta e o carro ligado, disse o motorista do jornal que me acompanhava. E o que era frase pra conforto me atiçou paúra.

Desci atrás de um tal sujeito, um rapaz, tinha lá seus dezessete, poucos quilos, mechas descoloridas no cabelo. Belo exemplar de instituições de recuperação. Aquele ceroto no pescoço sai; o sangue na mão também. O conhecia por foto e por feito. Procurado pela polícia por conta de assassinatos. Procurado por jornais por conta de manchetes de Matou por um real.

Desci atrás dele. Não dele mesmo, mas da idéia que os outros faziam dele. Carinhoso com a mãe? Joga bola com a molecada da rua? Compra fiado no mercado? Paga? Era isso o que o jornal queria. O perfil de um jovem assassino. Parece bonito, não?

Num dia: matou por um real, assassino frio, perigoso, e vai ser solto. No outro: carinhoso com a mãe, ajuda em casa, a meninada o adora. Parece estranho, mas é exatamente porque as duas reportagens são verdadeiras, que ambas me parecem erradas.

Jornais não são fascículos. Edições não dialogam; substituem-se. Série de reportagens só serve pra prêmio de jornalismo. Cada reportagem é sempre independente de todas as demais, ou não serve para um jornal.
Um jornal se faz de ganchos. Do gancho do dia. Não há contradição possível no reino aloprado das redações. Nesse mundo de lá, um dia não vem atrás de outro dia. Cada dia nasce, cresce e morre de contexto.

É por isso mesmo que tudo fica possível, todos os textos, todas as alianças que duram para sempre. Tudo pode ser dito, tudo pode ficar o dito pelo não dito.

É essa, a verdadeira LIBERDADE de imprensa.

Esse blog é pra falar de nós. Jornalistas. Até mesmo daqueles poucos diplomados.

Esse blog é pra falar mal de nós.