Uma manhã, um ideograma

O que devo pensar quando a rede balança sozinha, tufos de renda dedilhados e mudos nesse grande e inútil piano para o vento do oeste, ou para qualquer vento dessa grama fresca o zumbido não me alcança. Um velocípede rosa e seu pássaro no guidão, a coluna de tijolos polidos, quando acenderem as luzes de natal e for essa noite o que devo pensar?

Essa figura, esse mundo, essa paisagem que invento porque descubro, que crio porque entendo. Esse mundo está aí, como diria Cortázar, “da mesma forma como a água existe no oxigênio e no hidrogênio ou, ainda, como podemos encontrar nas páginas 78, 457, 3, 271, 688, 75 e 456 do Dicionário da Academia Espanhola tudo o que é necessário para escrever um certo undecassílabo de Garcilaso”.

O que devo pensar quando esses gritos e ralhos e coachos de bichos que não vejo se ocupam do vão da rede, das curvas e das tramas, e os arbustos de longe se desfazem numa revoada estrondosa de pássaros?

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