Procura-se quem nos habite

Dizem que um mercado é a “alma” de uma cidade, um lugar onde se pode perceber as nuanças e idiossincrasias de um povo. Pois bem, fui até o Mercado Adolpho Lisboa, no centrão, em busca de alguma dica sobre o espírito manauara que deveria nos habitar, mas não havia inquilinos, apenas uma placa de aluga-se com urgência.

Se é verdade a constatação que abre o texto, Manaus é uma cidade esvaziada, em busca de um novo significado, de um novo discurso talvez. Conversando com alguns donos de estandes antigos do lugar, que trabalham no mercado há 30, 40 anos, percebi que a frequência de visitantes no local sofreu uma mudança significativa – mudança conceitual, não em termos de quantidade.

Explico: antes, o freguês era local, ia fazer feira do dia ou da semana, conhecia o feirante, tinha seu preferido e por aí vai. Hoje, a visita é turística, vem gente de todo o mundo, mas todos estão lá para passear. O mercado é esvaziado de seu significado original, e consequentemente, os produtos que ele vende também o são. Antes, o forte eram as frutas regionais, peixe, legumes, verduras, grãos, todos com sua função original de alimentar a população. Hoje, o artesanato é o carro-chefe, e o que é o artesanato senão uma ressignificação de objetos (esvaziamento e nova posse)? Vende-se arco e flecha e artigo para fazer farinha, mas ambos servirão de enfeite em alguma sala na Europa.

Manaus está se tornando um não-lugar, sem rosto, uma cidade pálida, meu cara pálida, e sem o orgulho que sua propaganda diz que ela tem.

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