Num voo com 150 passageiros, na era do politicamente correto, não é exagero dizer que por volta de 100 pessoas podem exigir atendimento preferencial. Entre gente com problema de locomoção, velhos, operados, gestantes e pais com crianças de colo, não sobra muito espaço para essa pobre minoria relegada dos adultos com idade entre 18 e 50 que andam sozinhos e com desenvoltura, às vezes até mascando um chiclete com invejável displicência .
Os guichês de check-in da TAM, no Eduardo Gomes, são um ótimo exemplo disso. São sempre dois atendentes para dois voos com horários próximos. Se considerarmos que o procedimento de checar documentos e despachar bagagens leva quase 10 minutos, é razoável pensar que isso é tempo suficiente para o surgimento de pelo menos mais duas pessoas com atendimento preferencial garantido por lei. Mas isso não é tudo: normalmente os preferenciais andam em bandos, acompanhados por familiares e/ou amigos, que por sua vez também ganham o direito ao atendimento rápido por extensão de benefícios. O resultado é uma grande vingança contra os mascadores displicentes de chiclete: vocês podem andar sozinhos e com desenvoltura, mas suas filas jamais sairão do lugar.
Viajei um tanto desde Outubro, por conta de uns projetos, e pude presenciar alguns fatos inusitados nessas filas de check-in, mas o que mais me chamou a atenção foi uma briga exatamente na fila de atendimento preferencial. Esses tempos modernos sem Os Trapalhões na televisão geraram um inchaço insustentável das grandes conquistas sociais, o que desembocou num outro tipo de problema. Antes a pergunta era “quem tem preferência”. Hoje, como quase todos têm preferência, a pergunta é “quem tem mais preferência”.
Num dado momento, o primeiro da fila de atendimento preferencial era apenas um velho comum, apenas meio careca e meio trêmulo, ansioso por sua vez após o longo check-in da extensa comitiva da mãe, tias e primos de um garotinho com graves deformações nos membros inferiores e um óculos fora de moda no rosto. Antes que ele pudesse chegar ao guichê, entretanto, uma senhora avançou pelo lado com mais cara de sofrimento e ganhou a vez, sensibilizando o funcionário da TAM. O velho comum, visivelmente irritado – porque começou a tremer mais –, foi tomar satisfações com a velha comum, afinal de contas ele estava há mais tempo na fila – e talvez até mesmo há mais tempo nesse mundo. Não teve jeito: como ambos eram apenas velhos comuns, esse critério de preferência zerou o jogo, e o desempate veio com a recente cirurgia num dos seios da senhora, que lhe garantiu a vez.
Fiquei pensando que talvez surgisse uma outra velha comum também com uma recente cirurgia num dos seios, e que o desempate estaria, então, na função da cirurgia: a extirpação de um tumor benigno, por exemplo, teria preferência diante de uma implantação de silicone; mas perderia para a retirada total de um seio vítima de câncer.
Cada tempo tem as dúvidas que merece.