August 2009

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Lá no Simão Pessoa, Aníbal está nu até onde se pode ver, e um pajé tukano com sua camisa de botão, e ambos estão mortos enquanto se tocam e se participam, porque a morte está amanhã e talvez eles saibam que há sempre uma maneira de esticar esse tempo, aproximar dois lugares e dois momentos e todos os lugares e todos os momentos porque o que define o tempo e o espaço deixa de ser o que se vê para ser o que se sente.

Então Aníbal com sua camisa de botão e o pajé tukano está nu e enquanto eles se tocam e se participam, há uma morte que os define e que ronda por todas as gentes que se desfazem e por todos os espaços que se sincronizam e por todos os tempos se sobrepõem. O pajé e o poeta, a imagem e a palavra: não a palavra que quer dizer a coisa, mas a palavra que É a coisa; não a imagem que representa um objeto, mas a imagem que É o objeto.

Enquanto eles estiverem mortos, pajé e poeta, 2006 esta madrugada.

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Assistir a esses escândalos requentados sobre a Igreja Universal me faz pensar naquela gente humilde e necessitada, no povo bondoso e ingênuo que é sempre enganado pelos pastores inescrupulosos das hordes de mercenários como o bispo Macedo… Corta, corta, vamos recomeçar!

Um camarada que acha que pagando mais para uma Igreja vai pra frente da fila de espera do milagre peca pela ganância apenas – quem garante que o pastor-despachante não o colocou, de fato, na frente da fila? –, e por crer numa imagem de Deus como brasileiro e chefe de repartição pública, de onde nenhum carimbo do mundo é garantia de serviço prestado. Não há ingenuidade por estas bandas, só espertezas – recompensadas ou não.

Se a minha noção do divino – conceito – e de Deus está ligada à noção de mercado, temos que olhar a coisa pela lógica econômica. A oferta de milagre está abundante, é verdade: houve um aumento significativo no número de postos de venda por se tratar de um produto (1) isento de impostos em todas as fases de seu trânsito entre as alfândegas e burocracias do Céu e da Terra,  (2) que não possui parâmetros de eficácia estabelecidos no Inmetro e (3) com direitos autorais, royalties e custo de produção de valor zero.

Mas isso pouco importa: a demanda por milagre é sempre infinitamente maior que sua oferta, porque está intimamente ligada – em proporção inversa – à distribuição de renda e às ofertas de emprego, de educação e de saúde. Por esse motivo, e como a demanda por milagre jamais será elástica na terra em que Deus for brasileiro e chefe de repartição pública, o preço só tende a aumentar.

Exigir que o pastor cobre barato é antidemocrático, contra as leis do livre mercado e, acima de tudo, uma babaquice paliativa. Não há saída para esse paradoxo: para se combater o preço abusivo do milagre, é preciso diminuir sua demanda com muito emprego, renda, educação e saúde, o que no caso do Brasil, é pedir por um milagre.

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Vencedores do prêmio multishow da música brasileira. Cá prá nós…

Cantor: Seu Jorge Achei que gostava de Seu Jorge, mas foi só impressão. Os grãos de coisa boa nele ficaram todos na Farofa Carioca.


Cantora: Marisa Monte Pegou o samba de raiz e enterrou-o bem, bem, mas bem fundo mesmo, até que quase não se escutou mais a batida.

CD: “Agora”, NX Zero. Foram eles mesmos que fizeram?


Clipe: “Ainda gosta dela”, Skank. Excelente banda, não tem medo de mudar e sabe experimentar outros sons sem largar mão desse pop grudento. Mas essa música é só legalzinha e o clipe não tem nada de interessante.

DVD de Música: “Infinito ao seu redor”, Marisa Monte Não vi.


Grupo: Fresno Não tem cabimento. Nem chega a ser engraçado.


Instrumentista: Débora Teicher, Scracho É reggae brasileiro? Fala de por do sol? Natureza, lua, mar e estrelas? Pelo menos só ganhou a baterista, que acho que não canta


Música: “Amado”, Vanessa da Mata A música é legal. Ela também.


Show: “Multishow ao vivo”, Capital Inicial Prêmio multishow de show vai pra multishow ao vivo. Nepotismo ou falta de opção… é pobreza de qualquer forma.


Revelação: Banda Cine Não tem cabimento, nem chega a ser engraçado.


TV Zé: “Dalila”, Ivete Sangalo Ah, cara… na boa… deixa pra lá.

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John Coltrane – My Favorite Things

vinha de longe e devia ser uma serpente e estava em todos os lugares às vezes a cada oitava de seus chocalhos em minúsculos semitons e curvas ao meu redor. Ela estava lá, onda de dedos e uma serpente que às vezes fica longe, atrás de uma rocha um acorde para todo o sempre até que a nota, essa mesma nota seus intervalos de veludo reiterados de vento e dos demais tecidos que a alargam pelo caminho, ela mesma, a coisa mesma sempre, e de repente ela estava bem aqui todo esse tempo, com seu chocalho e devia ser uma serpente dentro

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Tenho dois primos, professores universitários. Estávamos os três, ontem, no centro de Juiz de Fora, numa galeria de sebos, olhando besteiras como um manual de grafologia, e as edições de bolso da Martins Claret, cujas capas fazem tanto clássicos da literatura russa quanto poemas épicos gregos parecerem os mais recentes fascículos da coleção Sabrina, ou Priscila, ou sei lá o nome desses romances de banca.

Bem, o fato é que, num determinado momento, os dois discutiam se um deles deveria usar o Ética, de Spinoza, numa das classes de filosofia do semestre seguinte – que por conta da gripe suína vai começar lá pelo meio de agosto. O outro rebatia: vai adiantar, eles vão ler?

Mais tarde, à noite, aluguei o Entre os Muros da Escola, do francês Laurent Cantet, baseado no livro homônimo de François Bégaudeau. Numa das cenas, o professor de História chega para o de francês e afirma que está lecionando sobre o antigo regime em sua classe da sétima série, e queria saber se ele (o de francês) poderia usar alguma obra de Voltaire, Candide, Zadig, favorecendo um diálogo entre as disciplinas. Não. Seria murro em ponta de faca. Com dificuldade, usou o Diário de Anne Frank.

Entre os Muros da Escola não é um filme inovador em termos de linguagem (câmera mais solta, apelo documentarista, imagem digital são características já bem assimiladas pelo público), mas o é em termos de roteiro do subgênero em que se inscreve: o de conflito entre professor e alunos de classes menos favorecidas da sociedade.

Os americanos têm longa experiência no assunto, e repetem incansavelmente a história do professor diferenciado, pouco ortodoxo, que se vê diante de jovens sem rumo, cheios de conflitos psicológicos profundos e marcados pela discriminação racial, social ou econômica – o que os torna rebeldes e violentos. No fim, os jovens se redimem, mostrando que eles apenas precisam de um bom guia e de alguém disposto a escutá-los para “entrarem nos eixos”.

No filme de Cantet, os professores são comuns, não têm métodos mirabolantes para “ganhar” os jovens e estão sempre em vias da desistência; e os alunos são rebeldes apenas por que são rebeldes – a questão é biológica, química; não cultural. Digo isso porque todos os conflitos são superficiais, falam de raça ou de religião ou de burgueses como os rappers brasileiros falam do “sistema”.

O conflito é apenas uma desculpa para a violência – verbal ou física –, o estopim para a confusão. No fundo, não há nada. O aluno mais problemático da escola possui tatuado no braço dizeres do Corão: “se o que vais dizer não é mais importante que o silêncio, cala-te”. Duas representantes de classe ganham o direito de participar de reuniões entre professores e diretores, mas passam o tempo rindo e cochichando para depois iniciarem intrigas entre alunos e docentes.

Uma menina reclama que o professor sempre usa nomes como Bob ou Bill em exemplos de frase nas aulas, numa classe em que os nomes se diversificam como Khounda, Boubacar, Wey, Esmeralda, Souleymane, Rabah. Mas onde está sua noção de diversidade cultural quando ela mesma implica com um imigrante chinês que ainda não sabe falar francês direito?

Via de regra, jovens serão jovens: rasos como Bob ou Bill.

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