Tenho dois primos, professores universitários. Estávamos os três, ontem, no centro de Juiz de Fora, numa galeria de sebos, olhando besteiras como um manual de grafologia, e as edições de bolso da Martins Claret, cujas capas fazem tanto clássicos da literatura russa quanto poemas épicos gregos parecerem os mais recentes fascículos da coleção Sabrina, ou Priscila, ou sei lá o nome desses romances de banca.
Bem, o fato é que, num determinado momento, os dois discutiam se um deles deveria usar o Ética, de Spinoza, numa das classes de filosofia do semestre seguinte – que por conta da gripe suína vai começar lá pelo meio de agosto. O outro rebatia: vai adiantar, eles vão ler?
Mais tarde, à noite, aluguei o Entre os Muros da Escola, do francês Laurent Cantet, baseado no livro homônimo de François Bégaudeau. Numa das cenas, o professor de História chega para o de francês e afirma que está lecionando sobre o antigo regime em sua classe da sétima série, e queria saber se ele (o de francês) poderia usar alguma obra de Voltaire, Candide, Zadig, favorecendo um diálogo entre as disciplinas. Não. Seria murro em ponta de faca. Com dificuldade, usou o Diário de Anne Frank.
Entre os Muros da Escola não é um filme inovador em termos de linguagem (câmera mais solta, apelo documentarista, imagem digital são características já bem assimiladas pelo público), mas o é em termos de roteiro do subgênero em que se inscreve: o de conflito entre professor e alunos de classes menos favorecidas da sociedade.
Os americanos têm longa experiência no assunto, e repetem incansavelmente a história do professor diferenciado, pouco ortodoxo, que se vê diante de jovens sem rumo, cheios de conflitos psicológicos profundos e marcados pela discriminação racial, social ou econômica – o que os torna rebeldes e violentos. No fim, os jovens se redimem, mostrando que eles apenas precisam de um bom guia e de alguém disposto a escutá-los para “entrarem nos eixos”.
No filme de Cantet, os professores são comuns, não têm métodos mirabolantes para “ganhar” os jovens e estão sempre em vias da desistência; e os alunos são rebeldes apenas por que são rebeldes – a questão é biológica, química; não cultural. Digo isso porque todos os conflitos são superficiais, falam de raça ou de religião ou de burgueses como os rappers brasileiros falam do “sistema”.
O conflito é apenas uma desculpa para a violência – verbal ou física –, o estopim para a confusão. No fundo, não há nada. O aluno mais problemático da escola possui tatuado no braço dizeres do Corão: “se o que vais dizer não é mais importante que o silêncio, cala-te”. Duas representantes de classe ganham o direito de participar de reuniões entre professores e diretores, mas passam o tempo rindo e cochichando para depois iniciarem intrigas entre alunos e docentes.
Uma menina reclama que o professor sempre usa nomes como Bob ou Bill em exemplos de frase nas aulas, numa classe em que os nomes se diversificam como Khounda, Boubacar, Wey, Esmeralda, Souleymane, Rabah. Mas onde está sua noção de diversidade cultural quando ela mesma implica com um imigrante chinês que ainda não sabe falar francês direito?
Via de regra, jovens serão jovens: rasos como Bob ou Bill.