July 2009

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O que matou Narciso? As notícias chegam incompletas por aqui. Quer dizer que ele não está lendo?

Narciso era um cara anacrônico: lia – e isso já bastaria para classificá-lo como tal –, e gostava de pensar nas coisas, em todas as coisas se possível. Contra a especialização da modernidade, contra a ciência das coisas práticas e direcionadas, era um cara daquela philosofia clássica, a soma de tudo o que se pode saber até então… pode perguntar pra ele.

Ele não está lendo?

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jaboticaba1

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Texto bastante oportuno, retirado de “Matérias Plásticas”, do livro “Histórias de Cronópios e de Famas” (1962), do Cortázar:

…horrível confusão. Tudo caminhava perfeitamente e nunca houve problemas com os regulamentos. Agora, de repente, resolve-se reunir o Comitê Executivo em sessão extraordinária e começam as dificuldades, o senhor já verá que tipo de complicações inesperadas. Absoluta desorientação nas filas. Incerteza quanto ao futuro. Acontece que o Comitê se reúne e procede à eleição dos novos membros do órgão, em substituição aos seis titulares falecidos em trágicas circunstâncias, ao precipitar-se na água o helicóptero no qual sobrevoavam a paisagem, perecendo todos eles no hospital da região por ter-se enganado a enfermeira, aplicando-lhes injeções de sulfamida em doses inaceitáveis para o organismo humano. Reunido o comitê, composto pelo único titular sobrevivente (retido em seu domicílio no dia da catástrofe por causa de um resfriado) e de seis membros suplentes, procede-se à escolha dos candidatos propostos pelos diferentes estados associados da OCLUSIOM. É eleito por unanimidade o senhor Félix Voll (Palmas). É eleito por unanimidade o senhor Félix Romero (Palmas). Realiza-se uma nova votação, e em consequência é eleito por unanimidade o senhor Félix Lupescu (Surpresa). O presidente interino toma a palavra e faz uma observação jocosa sobre a coincidência dos nomes. Pede a palavra o delegado da Grécia, e declara que embora lhe pareça ligeiramente extraordinário, tem instruções de seu governo para propor como candidato o senhor Félix Paparemólogos. Vota-se, e ele é eleito por maioria. Passa-se à votação seguinte, e ganha o candidato do Paquistão, senhor Félix Abib. A essa altura estabelece-se grande confusão no comitê, que se apressa em celebrar a votação final, em que é eleito o candidato da Argentina, senhor Félix Camusso. Entre as palmas evidentemente encabuladas dos presentes, o decano titular do Comitê declara bem-vindos os seis novos membros, aos quais qualifica cordialmente de xarás (Estupefação). Lê-se a composição do Comitê, que fica constituído da seguinte forma: Presidente e membro mais antigo, sobrevivente da catástrofe, sr. Félix Smith. Membros, srs. Félix Voll, Félix romero, Félix Lupescu, Félix Paparemólogos, Félix Abib e Félix Camusso.

Ora, as consequências dessa eleição são cada vez mais comprometedoras para a OCLUSIOM. Os vespertinos reproduzem com comentários gaiatos e impertinentes a composição do Comitê Executivo. O ministro do Interior telefonou hoje de manhã para o diretor-geral. Este, à falta de coisa melhor, fez preparar uma nota informativa que contém curriculum vitae dos novos membros do Comitê, todos eles personalidades eminentes no campo das ciências econômicas.

O comitê deve realizar sua primeira sessão na próxima quinta-feira, mas comenta-se que os srs. Félix Camusso, Félix Voll e Félix Lupescu apresentarão suas renúncias nas últimas horas desta tarde. O sr. Camusso pediu instruções acerca da redação de sua renúncia; de fato, ele não tem motivo válido para retirar-se do Comitê e só o anima, como aos srs. Voll e Lupescu, o desejo de que o Comitê seja integrado por pessoas que não atendam pelo nome de Félix. Provavelmente as renúncias invocarão razões de saúde, e serão aceitas pelo diretor-geral.

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Há uma chuva tão fina que quase deixa de cair ao passar pelos galhos secos de um pé de caqui. Quase não vejo o morro atrás das copas. Hoje, o grão de todas as coisas parece gasto, prestes a se abster da pouca luz que ainda lhe cabe nessa manhã difusa.

Não tenho foto para mostrar, mas a paisagem é a mesma nessa obra-prima logo abaixo:

[audio http://www.controlegabiru.com.br/audio/06_Theme_For_Lester_Young.mp3]

A Theme For Lester Young (às vezes conhecida como Goodbye Pork Pie Hat, noutras versões)
Artista: Charles Mingus
Disco: Mingus Mingus Mingus Mingus Mingus

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Dylan – Life is hard

Primeiro, a barrigada de porco é imersa em sua própria banha, num fogo bem baixo para confitar. Depois derrama-se um pouco da gordura numa frigideira, deixa-se esquentar bem, e fritam-se os pedaços. O resultado é um torresmo irresistível, gordura quase líquida, derretida sob uma camada de pele crocante e um naco grande de carne de presente.

Nasci em Minas, mas isso fora praticamente tudo. Depois dos cinco primeiros anos de vida, repartidos entre Belo Horizonte e Juiz de Fora, morei em Vila Velha, Rio de Janeiro e, finalmente, cheguei em Manaus – aos sete e meio –, onde cresci, me reproduzi e talvez morra.

Sou mineiro, mas de Manaus. Se chego nas Gerais, é preciso que me lembrem das raízes, como a barrigada de porco ou a gramática velha que transforma, por exemplo, “o ônibus passou agorinha mesmo” em “uonspassô gurinhamês”. Voltar a Minas é como escutar histórias da adolescência dos pais e tios: embora não as tenha presenciado, tudo soa familiar demais, estranha e confortavelmente reconhecível.

Temos uma insuperável propensão a transformar toda terra estrangeira em barro de quintal. Apegar-se é viver. Talvez seja preciso apegar-se para viver.

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Volto à serra de Petrópolis. Ainda era cedo, pedra fria, musgos gigantescos; o vento frio roçava na fresta da janela faiscando um ronco monótono, hipnótico, que lentamente cosia meu isolamento numa espécie de surdez sonolenta. Seis e pouco da manhã, um pão com linguiça e um café no Alemão borram minha linha do tempo: minhas mãos de criança, os pelos de diferentes espessuras, depois a cicatriz na base do indicador esquerdo, as rugas que foram chegando e as que foram saindo, tudo sobreposto num mesmo pão quente, meu lieu de mémoire.

Desde criança faço as curvas daquela serra com o mesmo encantamento. Desde quando era preciso rodar a 30 por hora numa estrada fina de mão dupla, entre túneis  de sépia e fuligem e viadutos sobre um azul distante. Entre o Rio e Juiz de Fora, os mesmos vendedores de banana nanica, as mesmas fontes de água gelada, o mesmo Cristo e um cheiro que sempre imaginei de pinho e de chuva.

Na Serra de Petrópolis há uma nuvem habitada, entre a vigésima quinta e a trigésima nona curvas. Em sua ponta da ida, há um pequeno rabicho em forma de bico de chaleira, à esquerda, fácil de se ver em contraposição à imensa rocha escura que a emoldura e que daí a poucos metros será engolida, como tudo o que passa e tudo o que fica.

De repente, você está sob seu domínio, sob a luz mais devagar, e se pode encarar o sol diretamente, como se observa a uma lua qualquer. Todos vivem aparentemente sozinhos dentro da nuvem, desbotados, alheios à própria estrada que os atravessa; e eles não se podem guiar pelos arredores, posto que surgem a cada passo, de repente; tampouco podem voltar atrás, pois não há pegadas que sobrevivam a mais que alguns poucos metros. Acostumaram-se tanto à vida lá dentro que se foram despindo, gradativamente, de toda memória, até entrarem num estado pleno de desapego.

Apenas a nuvem os habita.

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