June 2009

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Passei seis anos trabalhando em redações de jornal. Aliás, quando estava para ser jubilado do curso de jornalismo na Ufam, essa foi a minha principal justificativa para o atraso no canudo. Depois larguei o trabalho para terminar o curso.

Não há – na verdade jamais houve – discussão sobre a exigência de diploma para o exercício da profissão. Há uma conversa fiada sobre liberdade de expressão, e a necessidade de se legalizar uma realidade prática de mercado.Vamos por partes:

1. Um cidadão comum – atualmente um sinônimo de jornalista – pode e deve tirar proveito de todos os meios para exercer sua liberdade de expressão. Microfones, megafones, quadros de aviso, cartazes em passeatas, seções de cartas de jornais e revistas, blogs e replies de blogs, comunidades e fóruns virtuais ou não, sites de Web 2.0 e por aí vai. Os meios estão aí – no mínimo na esquina de sua casa, na lan house mais próxima –, e eles não exigem mais do que seu tempo e seu interesse em se manifestar. Dizer, portanto, que a exigência de um curso superior específico para desenvolver uma atividade na área de Comunicação Social é um cerceamento do direito pleno à livre expressão é uma bobagem sem tamanho.

2. Por outro lado, há o caso dos comentaristas específicos sobre determinados temas como saúde e economia, por exemplo, que são formados em suas respectivas áreas mas que por conta de seus “dons comunicativos”, escrevem artigos ou colunas em jornais e revistas ou apresentam quadros especiais na televisão. Se eles são bons em seus artigos… ótimo para seus leitores! Isso jamais foi contestado por qualquer entidade de classe dos jornalistas, de modo que não foi para resguardar os direitos destes comentaristas que o diploma caiu. O único direito assegurado com a queda do diploma foi o das empresas de comunicação de continuar a contratar repórteres direto de cursos técnicos de locução e apresentação.

3. O problema está num mercado em decadência. Redações são caras, e o dinheiro vem do anunciante; não do leitor. Para publicar release e adaptar B.O. de delegacia, realmente o diploma é dispensável. Para jornalismo investigativo, o dossiê já vem pronto direto da maleta do amigo da vez do dono do jornal, então o diploma é mais uma vez dispensável.

E o grosso de qualquer jornal é isso mesmo.

ps.: E estudante de jornalismo, então, tem direito à meia passagem?

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No Age – Keechie

Há anos não se viam os olhos verdes de Arrozinho. Em seu apego pela garrafa, era um bilhete de náufrago com data e endereço borrados no meio de uma vasta indiferença. Com os pés quase inúteis, inchados em álcool crônico, era só com os olhos que agora podia ocupar um horizonte. E ia embora; deixando o corpo pequeno e desagradável pelas margens, com dois globos nublados sob as pálpebras inchadas. Foi ele quem me disse que tinha os olhos verdes.

O rio estava longe naquele começo de noite. Ponta Negra baixa, luzes querendo acender. Era uma mulher gorda de shortinho e camiseta quem trazia a cerveja, cuspindo caroço de alguma fruta interminável. Mais uma. Arrozinho apareceu do nada, concebido de areia, acompanhado de um cão malhado. Pediu um gole, demos um copo. Sentou-se e tomou uma garrafa.

Ele escrevia poemas ou nomes de gente em grãos de arroz. Era bom com as mulheres. Cultiva pus coçando os arredores da ferida na canela. Passei alguns dias pensando na deriva de Arrozinho, em seu bilhete borrado à espera de um resgate.

Depois de um tempo, só há o farol.

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Durante os anos de fome na antiga União Soviética, havia banquinhas de feira vendendo pedaços de crianças. Essas crianças – na maior parte do tempo órfãs, ou separadas de suas famílias pelas esquinas de guerras e revoluções – eram criadas soltas pelas ruas, entre brincadeiras e tropeços por conta das pernas mancas de tuberculose óssea.

A dieta básica consistia em grama das estepes misturada a um pouco de sal, para evitar o raquitismo; e às vezes, um pedaço de pão ou um tablete de açúcar, que conseguiam de algum soldado orelha, em troca de makhorka (resto de tabaco de bitucas de cigarro misturado a folhas secas) que elas mesmas preparavam.

O resultado era uma carne que, apesar de dura e pouca, resistente e fibrosa nas proximidades do osso, até que funcionava num bom guizado, com batatas e repolho.

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O negócio com o jornalismo é o seguinte: ruim com ele, pior sem ele. Sempre haverá espaço para abusos e manipulações – aliás, sempre haverá bem mais espaço para isso do que para qualquer outra coisa –, mas é difícil sustentar a idéia de que deva haver algum controle maior sobre a veiculação da informação. Basta cogitar essa possibilidade para o espectro da censura arrepiar a penugem de democracia que ainda nos roça a pele.

Agora, é preciso entender que um dos efeitos colaterais da imprensa é a realidade se tornar refém do simulacro. Na verdade, a questão não é nem a de que as reportagens têm mais valor que os fatos; a questão é que na maior parte do tempo só há a reportagem. Em suma: se só conhecemos os fatos através da imprensa, só conhecemos a reportagem.

O que a Petrobras fez, e que está causando um rebuliço imenso no meio, foi apenas tirar a exclusividade da informação das mãos dos veículos, publicando, num blog próprio, a íntegra das entrevistas que concedera nas últimas semanas aos principais jornais do País. Nada mais justo.

Se a moda pegar, ainda estaremos diante de mais um efeito colateral: os furos jornalísticos vão estar cada vez mais dependentes da presença forte dos veículos na Internet. Esperar até a edição seguinte para publicar uma informação que a própria fonte pode veicular na grande rede vai ficar cada vez mais arriscado.

Os jornais, de papel mesmo, vão ficar cada vez mais parecidos com revistas.

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Aos que gostam de culpar o CAPITAL pela falta de escrúpulos no trato com a informação pelos veículos vendidos de comunicação, aqui vão alguns exemplos em que o SOCIAL também arregaça as suas manguinhas:

Relato sobre a construção da Fábrica de Tratores de Kharkov (KhTZ), veiculado no jornal Em Tempo da então União Soviética:

“Pessoas vindas de todos os recantos da União Soviética, muitas respondendo ao apelo do partido e do Komsomol, a Liga da Juventude Comunista, eram gente apaixonadamente comprometida com sua tarefa. Entregavam-se a ela com toda a energia e entusiasmo. Formavam a coluna vertebral da construção, a linha de frente dos laboriosos lutadores pelo erguimento de um vigoroso alicerce da economia socialista.”

Na verdade, os “apaixonados pela causa” eram os exilados da Revolução, camponeses mortos de fome, expulsos de suas terras – que se tornariam propriedades coletivas –, que tiveram suas aldeias incendiadas, sua produção confiscada e que foram amontoados em vagões de gado em direção aos reassentamentos em grandes campos de trabalho forçado.

Outro excelente trecho, desta vez de um editorial lido por Ronaldo Tiradentes em seu programa matutino na CBN Kharkov:

“Quando bandos de andorinhas regressam das longínquas terras quentes, quando as cotovias começam a zunir nos ares e o solo se degela sob os raios de um sol brando, a estepe começa a reluzir de milhares de pás”

O texto de Ronaldo refere-se aos trabalhadores forçados a escavar a terra, e a arrastar toda aquela imensa quantidade de barro recém-escavado sobre trenós, porque até os cavalos já haviam morrido de inanição.

Fonte: A Herança de Stalin, de Owen Mathews.

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Ronaldo Tiradentes filosofa sobre o caso Wallace:

Não podemos acusar alguém só por conta de indícios.

Ontem, por outro lado, indícios – ou barrigas no jargão jornalístico – bastaram para descer o pau no ministro Alfredo Nascimento por conta de uma obra ilegal numa casa que nem era sua.

Escrevo curto por detestar defender, mesmo que indiretamente, um boa praça como o Nascimento.

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Parece que deu tempo do secretário de Estado da cultura, Robério Braga, ir ao banco pagar a prestação mensal da CBN, que já estava em atraso. Em vez da famosa cartinha de notificação, entretanto, o secretário recebeu a mensagem durante a própria programação da rádio, por volta das 8h: seu nome iria para o SPC da opinião pública. Ronaldo Tiradentes iria começar a falar sobre o escândalo da Fundação Amigos da Cultura, que recebeu do Estado, sem licitação, mais de 260 milhões de reais em seis anos.

Caso já tenha quitado seu débito, favor desconsiderar este aviso.

Agora, 9h30, Ronaldo Tiradentes disse apenas que está tentando entrar em contato – sem sucesso, obviamente – com a tal Fundação.

Nenhuma palavra sobre Robério, o manda-chuva de lá.

Favor desconsiderar este aviso.

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