April 2009

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Via Ponto de Fuga

livro

Cada uma das obras mencionadas no livro, com link para quem quiser baixar. Podem sentar nesse pudim:

CLIQUE AQUI PARA VER A LISTA

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Eu faço coro com as exatas palavras de indignação do vice-prefeito Carlos Souza no vídeo abaixo:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=FaMfUrC99Ns&hl=en&fs=1]

Mas coloquem um pouco de tristeza no meu tom, e transfiram o sentimento de revolta contra o mandado de busca e apreensão, para o desmando dessa nossa esfera política.

resultado da operação na casa do irmão do vice: 250 mil reais, 15 mil dólares, munição para armamentos de uso exclusivo das forças armadas e uma lista com encomenda de armamentos. Depois desses dados, vamos repetir a frase de Carlos Souza e ver como ela soa: “Aqui tem um vice-prefeito, um deputado federal e um deputado estadual. Já chega, chega!”

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Se um cheiro ativa rapidamente uma memória; uma música imediatamente a distorce. Às vezes sei quais notas servem para ressaltar tais cores, que harmonia filtra cada detalhe, qual silêncio me garante uma sombra.

Qualquer passado depende.

Sei que um ré menor, por exemplo, coloca manchas úmidas de óleo quente no ponto da calçada onde ralei as mãos e por muito pouco não o rosto, após sentir a fragilidade de meus itinerários diante de um joelho ruim. E que qualquer madrugada perdida, qualquer volta pra casa antes do primeiro toque, beijo ou hálito no pescoço que seja, se unta de caramelos ao primeiro sinal de uma pentatônica.

Com essa aqui: [audio http://www.controlegabiru.com.br/audio/What_You_Want.mp3] minha adolescência de o gordo da classe ganha granulações de super-8, e um amarelado sujo nas paredes da sala.

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Clique e ouça (What‘s so funny ‘bout) Peace, Love and Understanding, na versão de Elvis Costello:

Ele se chamava Nassar, ou Hashid. Nos víamos pontualmente no pico de alguma canção esquecida acesa, numa daquelas terças ou quartas ou meias noites em que eu voltava carregado dos pequenos bastões do Châtelet. Havia sempre muitos americanos na pequena sala – também conhecida como armário, ou corredor da cozinha, ou meu quarto, dependendo da posição do sofá – do minúsculo apartamento na guisarde; e todos eles sempre falavam demais.

Toda madrugada havia aquele momento em que não se podia saber se todos gritavam porque a música estava alta, ou se a música estava alta porque todos gritavam. No prédio em “U”, as paredes tratavam de nos fazer ouvir irremediavelmente, um insulto a cada janela, rebatido, sempre subindo, subindo, amplificado, estragando sonos e manhãs seguintes. Éramos jovens e muitos.

Talvez ele não se chamasse Nassar, tampouco Hashid, mas é só o que me vem à cabeça quando me lembro do contador paquistanês que nos visitava cada vez mais irritado, e que recebíamos cada vez mais incontornáveis e bêbados e tarde, e a quem prometíamos o silêncio agradável das antigas noites de inverno do número 2 da rue guisarde, com seu portão azul e casais de velhinhos que congestionavam as apertadas escadas em espiral.

Nassar apareceu um dia de bom humor, com uma caneca de café com leite, a que acrescemos de stolichnaya depois de alguma insistência. Víramos O Grande Lebowski havia pouco, num cinema em que o lanterninha cobrava gorjeta apesar da sala possuir apenas umas dez fileiras de poltrona, e uma tela fixa na parede por pregos. Hashid, pois, nos proporcionara a primeira oportunidade de provar um white russian. Conheceríamos finalmente o tal do paquistanês, o tedioso, trabalhador esforçado e boa gente paquistanês.

Nassar só funcionava à distância, um estereótipo no andar de cima, à beira de chamar a polícia, batendo em nossa porta com seu roupão surrado e pensamentos bélicos, com suas olheiras, nariz e arrogância árabes, pele entre o negro e o vermelho. Nassar ou Hashid.

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Ladeira

Clique para: I Want You Tonight, dos New Orleans Feetwarmers

Subo a tua ladeira. Quero me cansar, chegar exausto ao pé da tua cama, afogado em respiração. De ti, quero taquicardia, garganta seca, os músculos ensopados em ácido, incomodando cada degrau.

Um dia, se estiveres em casa, quem sabe eu toque a campainha, leve uma flor de jardim e te agradeça pela convergência dos meus passos, pela fadiga confortável de quem se forjou um destino, pelo vale dos meus dias, enfim.

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Clique e ouça Cappo (No Age)

Primeiro foram os sapatos, converse desbotado, dedos desenhados de canetinha azul no bico de borracha branca, sangue preso na curva para a planta do pé. Eu quis saber se ela me acompanharia até a Strasnická. Entraríamos na mercearia do coreano filho da puta e levaríamos escondidas no casaco algumas barras de chocolate, pagaríamos apenas pelos cigarros e pelas Urquells. Meus braços cortejando suas costas, do ombro direito à esquerda das ancas. Meu polegar no buraco do cinto. Ela riria de minha inabilidade de contar piadas em inglês, o que funcionaria muito bem para o meu propósito de diverti-la.

Percorri a costura lateral de seu jeans, preto, liso de gasto aparentemente, como pele curtida à impermeabilidade pelo sol. Ali, sentada e distraída, João-bobo numa parábola de metrô, enquanto suas dobras pendiam sobre minha fantasia de uma bunda branca e farta a sobrar entre meus dedos, avermelhando-se todo o corpo, impregnando-se do rastro de brotoejas que desenharia de lábios, dentes e dedos… minha, apenas. Novos acidentes geográficos, novas fronteiras e atritos, meu exército já lhe faria a sombra.

O suéter verde pastel, algo de uma moda em tempos de comunismo; as pontas de cabelo, pinceladas azuis, ruivas, loiras, negras, tufos de queratina e de ilusões de personalidade. Na pele do pescoço, uma cortina de ferro. Enfim cheguei aos olhos azuis pálidos, ou talvez fossem pálidos apenas diante da exagerada linha negra que margeava as pálpebras, um borrado junkie, talvez; ou quem sabe apenas de um choro, da decepção que congela a noite e não amanhece.

Levaria o cigarro ao canto direito da boca, fecharia os olhos pra evitar a fumaça enquanto tragava, expiraria me encarando, seus olhos borrados, o azul sutil da íris e das veias ao redor dos seios, procuraria seu sutiã pelo carpete e pelo lençol… não me verá outra vez. Talvez algo que eu tenha dito.

A duas da Strasnická, ela desceu.

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Há uma camisa circulando pelo centrão do Rio, com a silhueta do saudoso Mussum, e, logo abaixo, a grafia “Obamis”. O Obama é nosso, assim como o maracanã, o petróleo, a Amazônia e Deus.

Obama (para Lula): That‘s my man!

Lula (para Obama): Nigga, please!

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Os estudantes de esquerda – existe outro tipo? –, dos países desenvolvidos de livre mercado – existe outro tipo? –, têm uma nova interpretação da luta de classes. Agora, o embate é entre a burguesia maligna e os vegetais indefesos, já que por lá os operários foram todos para a classe média de barriga cheia e filho na escola.

Pelo que li sobre o recente encontro do G-20, os protestos dos jovens – que lá em London, London, como  faz frio, não ficaram nus, mas cobriram os rostos com caixas de papelão, na vanguarda dos chiliques vazios – giravam em torno de aquecimento global e de como a natureza sofre com o capitalismo.

O Brasil, é claro, está na linha de frente dessa nova ideologia, enchendo índio improdutivo com a terra que daria arroz, dificultando as coisas para os barões nefastos da soja, embargando estradas negando licenças ambientais e por aí vai… ou melhor, e por aqui se fica.

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Outro dia, vi um socialista atravessando a rua lá de casa, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Olhou para um lado, depois olhou para o outro e foi, calmamente, coçando a cabeça e reclamando do calor. Fiquei assustado, olhando para todos os lados, aflito, pra ver se mais alguém o estava vendo… de repente, o perdi de vista entre todos os carros e buzinas e as coisas que se amontoavam no meu tato em busca da câmera digital dentro da mochila.

É um absurdo! Quer dizer que agora eles podem sair da UFAM e transitar livremente por aí? Onde é que esse mundo vai parar…

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