March 2009

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Saiu no Le Monde há duas semanas: na França, há 37 mil carteiras de jornalistas, e algo entre 60 e 70 mil blogs. A discussão está séria por lá, pois se por um lado, é inegável a influência dos “jornalistas cidadãos” – como são às vezes chamados os blogueiros –, principalmente entre os jovens; também é fato que esses “jornalistas de pijama” – como são por outras vezes chamados os mesmos blogueiros – não obedecem aos preceitos da profissão no tratamento com as fontes e os fatos.

Para se ter uma idéia, para o recente encontro entre Sarkozy e Obama, foram cadastradas algumas dezenas de blogueiros. “O critério base continua a ser a carteira de jornalista, mas eu sou por abrir nossas portas aos blogueiros mais influentes, aos que possuem uma legitimidade em sua área de atuação, e cujos blogs são muito frequentados”, resumiu Franck Louvrier, assessor de comunicação da presidência.

A posição oficial da Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, obviamente, é a de que a idéia de todos poderem ser jornalistas acaba por desvalorizar a profissão, e ignorar o fato de que a boa informação exige um custo. Do outro lado, estão os blogueiros, que nem se consideram – tampouco querem se identificar com – jornalistas, e cuja prática possui, via de regra, uma crítica implícita ao jornalismo.

“O espaço público digital faz o papel de complemento, e é bastante lógico que ele seja de reação ou de correção. Eu mesmo não possuo uma abordagem profissional da informação, tenho minha própria hierarquização. O blog é um prazer, uma atividade anexa à minha vida”, nas palavras de Nicolas Vanbremeersh, que manteve seu blog político entre 2003 e 2008.

Bem, não adianta dar murro em ponta de faca. Exigir diploma de jornalista para blogueiro é ignorar completamente o conceito e as possibilidades da Internet.Complementando as palavras de Vanbremeersh, acho que os blogs preenchem as lacunas do jornalismo, que ainda não encontrou uma maneira economicamente viável de se inserir no meio digital, um espaço avesso por princípio à cobrança.

obs.: escrito com base na reportagem “Les blogs: info ou influence?”, página 3 do Le Monde – Sélection Hebdomadaire, de 14 de março, 2009.

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Trecho do capítulo 7 de As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino.

Kublai: Não sei quando você encontrou tempo de visitar todos os países que me descreve. A minha impressão é que você nunca saiu deste jardim.

Polo: Todas as coisas que vejo e faço ganham sentido num espaço da mente em que reina a mesma calma que existe aqui, a mesma penumbra, o mesmo silêncio percorrido pelo farfalhar das folhas. No momento em que me concentro para refletir, sempre me encontro nesse jardim, neste mesmo horário, em sua augusta presença, apesar de prosseguir sem um instante de pausa a subir um rio verde de crocodilos ou a contar os barris de peixe salgado postos na estiva.

Kublai: Eu também não tenho certeza de estar aqui, passeando em meio às fontes de pórfido, escutando o eco dos jorros de água, e não cavalgando embebido de suor e sangue à frente do meu exército, conquistando os países que você irá descrever, ou decepando os dedos dos agressores que escalam a muralha de uma fortaleza assediada.

Polo: Talvez este jardim só exista à sombra das nossas pálpebras cerradas e nunca tenhamos parado: você, de levantar poeira nos campos de batalha, e eu, de negociar sacas de pimenta em mercados distantes, mas, cada vez que fechamos os olhos no meio do alvoroço ou da multidão, podemos nos refugiar aqui vestidos com quimonos de seda para avaliar aquilo que estamos vivendo, fazer as contas, contemplar a distância.

Kublai: Talvez esse nosso diálogo se dê entre dois maltrapilhos apelidados Kublai Khan e Marco Polo que estão revolvendo um depósito de lixo, amontoando resíduos enferrujados, farrapos, papel, e, bêbados com poucos goles de vinho de má qualidade, veem resplender ao seu redor todos os tesouros do Oriente.

Polo: Talvez do mundo só reste um terreno baldio coberto de imundícies e o jardim suspenso do paço imperial do Grande Khan. São as nossas pálpebras que os separam, mas não se sabe qual está dentro e qual está fora.

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Talvez ele fosse mesmo um louco. Havia algo muito peculiar na maneira com que resumia o dia em seus negritos. Fosse qual fosse o nome do jornal, a equipe de repórteres, de editores e de fotógrafos, ou o jabá do dia; aquela primeira página teria sempre sua assinatura. Em seu gosto por polêmica, jamais temeu flertar com os limites estéticos entre o emotivo e o piegas, entre o engajado e o apelativo; e por isso mesmo, entre seus erros e seus acertos, Sebastião Reis exercitou a linguagem jornalística como um processo vivo, em aperfeiçoamento; não como o paradigma de cláusulas pétreas que engessa grande parte de nossa produção de textos.

Foi dele a idéia, por exemplo, de realizar uma série de matérias de jornalismo gonzo em que um repórter (Enock Nascimento) passava a morar, sob disfarce, numa invasão para contar o dia-a-dia de seus habitantes, que rendeu ótimos textos. Por outro lado, também foi dele a manchete de gosto duvidoso sobre um assassinato de mãe e filha dentro de um carro (o caso da pequena sereia), não me recordo em que ano: “Perdoai-os Senhor, eles não sabem o que fazem”. De qualquer forma, ambos são exemplos de um editor sem medo de correr riscos, algo muito raro por estas bandas.

Reis era um louco mesmo. No bar, ali, no canto daquela mesa, quando às vezes éramos como uma grande família desajustada e bêbada, tramando revoluções afetivas, escolhendo a próxima canção, anotando pautas em guardanapos irrecuperáveis, vivendo a vida que se podia entre as edições do periódico; ali, no canto daquela mesa, onde meu sangue era mais ralo e meus olhos, mais turvos, é que gosto de me lembrar do Reis, e do Marcelo, da Jacira, da Dulce, do Júnior Lima, do Fávero, da Lívia… e de quem chegasse mais tarde e de quem saísse mais cedo.

Acho que, no fim das contas, todos saímos cedo demais. Me despeço, pois, desse louco do Reis, e de todos os cantos de mesa onde tentamos ser imensos…

Este trago marca mais uma casa vazia. Um brinde…

Enrolava um West Virgínia numa sobra de sofá, o pouco pedaço de couro sintético a que tinha direito nesse vasto mundo sem abrigo. Ao redor, as vilas de conversas e seus fluxos migratórios. Fico espantado com essa gente que transita com desenvoltura por todos os papos, gente que tem sempre algo a dizer ou alguém pra citar.

Confesso que tentei, durante algum tempo, fazer parte dessa turma. Era muito cansativo acompanhar os marxismos de doutorandos bêbados e geniais, a sensibilidade de poetizas tão lindas e magrinhas, o deslumbramento das atrizes de teatro tão lindas e magrinhas com os marxismos de diretores bêbados e geniais, e as caras genuínas de interesse de todo o resto populacional plantado no ambiente como figuração e ouvido. Jamais obtive sucesso, nem no Jardim Botânico, nem na Consolação, nem no Eixample, nem no 12ème.

Gravado nas anotações fenotípicas de meu passaporte para colóquio, havia o veredito: timidez e barriga demais; vocabulário de menos. Bom apenas para saudações rápidas, frivolidades sobre o terceiro mundo e um ou outro chiste impróprio sobre judeus.

Clique no disco para ouvir

Clique no disco para ouvir

1.    Música Vazia de Rock And Roll – Aliases
2.    Formiga – Carroça
3.    Do You Love Your Fate – Seaside
4.    Balada da Saudade – Aliases
5.    O Nome das Coisas – Mezatrio
6.    Cinema – Carroça
7.    Clímax – Several
8.    Que Diferença Faz – ROODIE
9.    Sistole Lebrida – Ilharga
10.    Açúcar – Claws Kinky
11.    Desface – Mona Lisa Plug
12.    Shame On Gleydson – Oh, Amber!
13.    This Goes To Laura Palmer – Oh, Amber!

Das Tripas Diapasão
Uma Coletânea Ilegal de Bandas de Manaus

Diante dos palcos, pouca gente as tem ouvido. Aqui, de mão beijada, vai uma resistência.

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Mallu Magalhães me faz lembrar de matérias sobre projetos sociais públicos que envolvem música. Acho que aquele menininho pretinho, pobrezinho, tocando Carinhoso na flauta em algum teatro municipal também teria chance de fazer sucesso na televisão se pagasse o jabá que todo mundo diz que Mallu não pagou. Mallu Magalhães é um projeto social privado, e só por isso é tão mais eficiente.

Não há nada de especial em tocar Carinhoso, a menos que se seja pequeno, pobre e preto. Não há nada de especial em tocar violão e gaita como Bob Dylan, a menos que o Lúcio Ribeiro diga que há.

O que Mallu faz com Dylan é o que Chimarruts faz com Marley e o que pequenos, pobres e pretos de projetos sociais fazem com Pixinguinha.

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Manaus deve ter a elite mais burra do País, o que deve significar, muito provavelmente, a mais burra do mundo:

1. Não há livraria com mais do que lançamentos;

2. Não há cinema com mais do que Hollywood ou Daniel Filho, (mas vá lá, pelo menos não me aparece aqui nenhum iraniano);

3. O melhor restaurante pelo guia Veja há não sei quantos anos expressa toda a sua imensa criatividade num prato de picanha com arroz e farofa a 50 reais;

4. A melhor boate é uma franquia;

5. Os ditos grandes festivais de música só escalam bandas cover da cidade;

6. Fomos a primeira do Brasil a ter luz elétrica e a última do mundo a ter o modernismo;

7. Nossas rádios leem jornal;

8. Em toda a cidade, apenas nossas rádios leem jornal;

9. Amazonino é prefeito, mas isso é atestado de ignorância geral;

10. Ainda temos movimento estudantil, acho que ficou pendente só o negócio da meia passagem, porque o Bush já saiu e a Alca não entrou.

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Aperte o play no walkman

Costumava soprar a fumaça no vidro para me distrair. Liguei o walkman no meio de um solo de piano, enquanto os bafos borravam meu reflexo e as poucas luzes que ainda resistiam através da janela. Pensava no silêncio que cobria aqueles campos. Apenas alguma lua, imaginava, uma quase cegueira que misturava e confundia os limites entre todas as coisas. Dava pra sentir nos pés o pulso surdo que vinha dos trilhos, como a agulha batendo na etiqueta da última e mais interior volta do vinil, esquecida no fractal de seu chiado. O tempo não passava, e não havia diversão pequena para os do meio do caminho.

Não conseguia explicar o fascínio que adquirira por aquele mirante particular. Tudo vinha com uma certa ânsia, uma doçura no peito: o anonimato da velocidade, o vagão apagado cortando um campo desconhecido, e cada ponto ínfimo de luz que talvez fosse uma casa, uma família, uma sinalização do tráfego, um departamento de órgãos ferroviários inventados… seguia em sentido oposto ao do trem, tentando compor o caminho percorrido até o momento em que eu mesmo fora incorporado a essa voragem de andar por aí.

Ela parecia a Narizinho da primeira versão do Sítio. Olhos verdes, cachos dourados em camomila. O resto era a imaginação. O jeito que ela se viraria para mim no último adeus na Estação, a meio caminho da latência; a inclinação de seu rosto quando a ponta do meu nariz percorresse a nudez entre o ombro e o pescoço; o vapor que me tomaria o canto da boca antes do primeiro beijo, respiração sôfrega de antecipação do esforço.

Memorizo as luzes dos campos quase cegos de Narizinho, onde dei de andar, preso a um solo de piano, e ao meio de um caminho.

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sabbath

iron

Não havia cabelo no saco quando, numa tarde de Janeiro de 1986, entrei no quarto de um primo mais velho pra mexer em sua coleção de vinis. Acostumado ao colorido feliz de capas da Turma do Balão Mágico e do Richard Clayderman, fui acometido por uma daquelas taquicardias que, um pouco mais tarde, estariam reservadas a primas distantes e a fitas VHS que saíam de locadoras apenas em caixas pretas.

Eram dois LPs… quer dizer, duas CAPAS de LPs, até aquele preciso momento: o outono tenso do primeiro disco do Black Sabbath; e o metaleiro demoníaco dos subúrbios de Killers, do Iron Maiden. Depois de ouvi-los, nada mais ficaria no lugar. Se fossem filmes, a primeira capa seria o cartaz de um thriller ou terror mais psicológico; e a segunda, o de um slasher. Terror era o gênero cinematográfico que mais atiçava a curiosidade dos jovens, pelo contato com o sobrenatural, com o proibido; e era exatamente isso que o que ficou conhecido como Heavy Metal, no início, proporcionava a esses mesmos jovens. Depois, é claro, tudo virou sexo, inclusive o metal.

Essa introdução toda foi para falar que o show do Iron Maiden ontem, no sambódromo, foi como uma celebração da infância, da memória que talvez me explique. Foi uma época em que idolatria exigia esforço. Era preciso achar o disco num tempo de poucas lojas: ninguém se contentava com um cassete gravado, uma vez que apreciar a capa era algo inerente ao processo de ouvir a música; conseguir revistas que falavam sobre a banda, fitas VHS importadas com algum videoclipe ou entrevista sem legenda quando ninguém falava inglês; desenhar o logo da banda em páginas e mais páginas do caderno da escola durante as aulas de geografia. Essa é a rebeldia – ingênua, sem sombra de dúvida – tão cara à formação da personalidade de qualquer jovem. Revi muitos amigos de infância no show. Todos com o mesmo sorriso ansioso, com aquele jeito de “me belisca pra ver se é verdade”.

Era verdade.

Clique aqui para ouvir a música. (outra página irá se abrir, mas volte…)

Ela estava na janela; e umas listras de néon. Seu rosto intermitente, gradativamente apagado entre os clarões de luz… ainda contorci pupilas para guardá-la, muito embora já não importasse mais. Seu contorno talvez nem se aproximasse daquele que compus com recortes de umidade e de hálito quente, com sobras de madrugada e de gorduras, e com a purpurina que brilhava nas ondas breves do canal naquela noite.

Havia sempre uma fresta na porta do Jazz Alto, às terças de vento e de um preto cheio de oitavas na guitarra, tocando sem pressa e com uma tristeza tão envolvente que desconfio que seja a fonte de todas aquelas paisagens noturnas. Havia sempre uma fresta em meu peito pra se ocupar de janelas e de néons.

Talvez eu entre para um bourbon e um cigarro, caminhe entre os vãos de gente e me sente ao balcão – ainda daria tempo para os últimos instantes de Polka Dots and Moonbeams –, mais um corpo holográfico, sem substância, porque raramente se está onde se quer estar.  Mas, quem sabe… talvez eu fosse bater à sua porta, e você abrisse e suspirasse e jamais houvesse uma pergunta entre nossas bocas e jamais houvesse uma manhã pra nos desmentir o súbito e irrefreável desejo… não.

Na manhã seguinte, de frente para os trilhos na Centraal, cinco minutos para o 9224. Apenas a janela será minha.

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