February 2009

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Quando uma croata se ofereceu para pintar meu rosto, por dez euros, confesso que cheguei a me inclinar rumo a sua boca, prestes a sentir seu hálito arrogante de estudante de arte, de vinho barato, talvez um torrone de pistache de vez em quando… talvez fosse mesmo eu, seu torrone de pistache naquela noite na San Marco, ou sua cota no aluguel da semana. Era carnaval.

Mais cedo, eu e meu primo Felipe havíamos comprado uns quatro litros e pouco de cerveja barata num supermercado, e a dois graus abaixo de zero, apenas esperamos algumas poucas horas sentados por ali mesmo para que a birra ficasse a alguns goles da cristalização. Havíamos aprendido a técnica na noite anterior, quando não conseguimos ficar bêbados por conta do preço incompatível da cerveja nos bares: 2,50€ a latinha. Compramos a 0,69€ a garrafa de 700ml e não havia turistas mais felizes na face da terra.

Estávamos hospedados em Favaro Veneto, cidade bem próxima de Veneza e muito mais barata, o que significava hotelzinho tranquilo ao preço de um bom albergue nos canais. O único porém era ter que correr quando o relógio marcasse 23h30, pra dar tempo de se perder umas duas ou três vezes antes de encontrar a praça de onde, precisamente à meia noite, saía o último ônibus para a cidadezinha.

Não sei o que esperava do Carnaval em Veneza; aliás, só descobrimos que era Carnaval quando chegamos à cidade e nos deparamos com aqueles vestidos e máscaras de época em desfile pelas pontes e canais. Claro que não há samba, e o mais próximo de bloco de rua foi um grupinho de jovens com nariz de palhaço pulando pelas ruas ao som de um bumbo e de um saxofone que jamais conseguiram se entender.

Sei, entretanto, o que NÃO esperava: reggae. Havia um pessoal da Jamaica, sempre fazendo questão de salientar, nos cartazes, seu grau de parentesco, amizade ou musicalidade com Bob Marley, e uns grupos italianos do estilo – SIM! ELES EXISTEM! Foram uns quarenta shows em três dias, espalhados pelas pequenas praças e grandes mercados que surgiam de repente, após esquinas aparentemente inocentes.

Mas quase… ela tinha um lápis de maquiagem na mão, e uns copinhos de tinta. Era croata, estudante de arte. Disse que pintar o rosto era algo tradicional, indispensável ao Carnaval de Veneza. Eu então disse o que era tradicional, indispensável ao Carnaval baiano, por exemplo.

Na Croácia, por sua vez, não há Carnaval. Pelo menos, não pra mim.

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Desço em Châtelet. É preciso errar, confundir-se em becos falsos, corredores com ciganos, músicos, bêbados, todos eles pedintes… Talvez seja mesmo imperativo ceder algo como uma moeda, ou um olhar mínimo pra dizer que não, não desta vez. Numa das infinitas saídas da estação Châtelet, entre salas de máquina, corredores dentro de espelhos convexos e alguns chutes, fica o Magrebe.

Entre aqueles pretos havia poucas palavras, francês ralado em asfalto, carne viva e úmida de um léxico em trânsito. Peço com os olhos, trocamos espécies com as mãos e cada um segue como gente que não se conhece.

Sempre visitava o Magrebe, numa das saídas ocultas de Châtelet. Lá deixei alguns bons tempos, e uma boa quantia de francos. Hoje não sei voltar. Talvez não quisesse.

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Jogo de espelhos

Quem vejo é sempre mais meu que de si próprio. Mas as coisas jamais voltariam a ser tão simples assim, desde que se abriram as possibilidades de Paulina, primeiro conto de Histórias Fantásticas, do argentino Adolfo Bioy Casares, que havia acabado de comprar no aeroporto pouco antes de perder o chão entre Porto Velho e Manaus.

Se a primeira frase desse texto é verdadeira, quantas versões de cada pessoa haveria? E o que é mais intrigante: e se eu pudesse me encontrar com alguém não em minha conhecida versão, construída no decorrer de um relacionamento, mas com esse mesmo alguém, na versão de outrem…

Quantos mundos há por aqui. E agora talvez possa tocá-los.

PS: estou em Minas Gerais, entre uns morros que cercam Juiz de Fora. No mato alto não há muita Internet, então andarei meio incomunicável…

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Para o peito magro, o fio da faca. Restavam-lhe poucos pulsos, o suficiente para aquecer o metal encravado, e para mantê-lo acordado por mais alguns goles de aguardente. Morava com a avó e o irmão mais novo, todos nem muito brancos nem muito pretos. Não eram bonitos; feios, tampouco, parte daquela gente que não vemos passar enquanto seus corpos nos esbarram.

Abrira a garrafa ainda cedo pela manhã. Na pequena mesa da cozinha, bebia virando o copo de uma vez, adiantando-se para dentro dessa náusea de calor de todo dia. Seu irmão não quis um gole antes de sair, nem quis saber o que ele estava fazendo com uma garrafa de cachaça logo às seis, e uma lâmina de metal, polindo dois pedaços de madeira da largura de um punho.

Isso aqui, ele disse mesmo assim, é pra quem quiser se meter comigo. Facão pronto; e seu destino. Não se sabe como a briga começara, mas a avó já suava na margem amolada da faca pouco antes do almoço. Não, não, por favor, meu filho. Qualquer escorregão ou espirro e se iria o pescoço.

Chegando em casa o irmão mais novo correu para salvar a avó. Duelaram sob o peso de suas respirações, sob os gritos da velha, sob a televisão ligada na sala, sob os latidos do cachorro do vizinho, sob anúncios de abacaxi e de laranja do caminhão de frutas.

Não se ouviu o grito quando sua costela resistiu ao assalto primeiro do metal. Três, talvez mais quatro estocadas até que tudo esteja resolvido. Não se ouviu o grito, mas lá estava a faca plantada em seu peito magro. Aos poucos o sangue alagava seus contornos, encobria verrugas, cicatrizes, relevos de músculo, o umbigo.

Ainda teria tempo para mais um gole. Lambuzara seu último copo naquele sangue todo, diluíra um pouco em aguardente, e brindou-se. Naquele mesmo dia escrevi sua curta história numa matéria de rodapé, junto com um triângulo amoroso de idosos que terminara em tragédia. Manaus, Zona Leste, Caderno de Polícia.

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Migrações

Também sobre essa notícia

O New York Times possui 830 mil leitores assinantes diários. Para imprimir e entregar o jornal para todos eles durante um ano inteiro, o jornal gasta 644 milhões de dólares (lembrando que nesse valor não estão incluídos nem os gastos com a própria redação, apenas com impressão e transporte).

Se a empresa decidisse dar um Kindle por ano de presente para cada um dos assinantes – que leriam a edição eletronicamente –, gastaria menos da metade desse valor. Vendido a U$ 359 por unidade, a empreitada custaria apenas U$ 297 milhões por ano.

Fonte: alleyinsider.com

Decretar a morte de um meio a partir do surgimento de outro é sempre algo muito arriscado, de modo que o exemplo acima não foi pensado como um necrológio do papel-notícia – muito menos pelas mãos do kindle –; mas como uma advertência às empresas jornalísticas de Manaus que continuam a ignorar a Internet e os meios digitais de se propagar a notícia, temendo que isso diminua ainda mais a venda de seus exemplares.

Acho que a venda de jornais em papel não voltará a crescer jamais. Pensar que ela apenas se estabilizará num patamar mais baixo é uma visão até otimista. Os novos tempos exigem novos modelos de negócio, pois tecnologia não volta atrás. Estamos na era da convergência, todos querem o máximo de coisas numa coisa só. A palavra da hora é Migração.

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Acabei de ver isso aqui, via coluna do Régis Tadeu no Yahoo:

A banda NX Zero, onipresente nas rádios e televisões brasileiras, não gosta de fazer suas próprias músicas; prefere colar a dos outros… ou melhor, se colar, colou, a dos outros…

Exemplo 1:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=a_uR3fgd1h8&hl=en&fs=1]

Exemplo 2:
Primeiro copiando Alkaline Trio, e depois colando Steve Howe em parceria com um rapper chamado Tulio Dek:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=5pe9Yt_RjFM&hl=en&fs=1]

A banda está sendo processada por plágio da música do primeiro exemplo e por essa última do Steve Howe, mas o assessor da banda disse que tudo não passa de coincidências normais do mundo da música…

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