Quando uma croata se ofereceu para pintar meu rosto, por dez euros, confesso que cheguei a me inclinar rumo a sua boca, prestes a sentir seu hálito arrogante de estudante de arte, de vinho barato, talvez um torrone de pistache de vez em quando… talvez fosse mesmo eu, seu torrone de pistache naquela noite na San Marco, ou sua cota no aluguel da semana. Era carnaval.
Mais cedo, eu e meu primo Felipe havíamos comprado uns quatro litros e pouco de cerveja barata num supermercado, e a dois graus abaixo de zero, apenas esperamos algumas poucas horas sentados por ali mesmo para que a birra ficasse a alguns goles da cristalização. Havíamos aprendido a técnica na noite anterior, quando não conseguimos ficar bêbados por conta do preço incompatível da cerveja nos bares: 2,50€ a latinha. Compramos a 0,69€ a garrafa de 700ml e não havia turistas mais felizes na face da terra.
Estávamos hospedados em Favaro Veneto, cidade bem próxima de Veneza e muito mais barata, o que significava hotelzinho tranquilo ao preço de um bom albergue nos canais. O único porém era ter que correr quando o relógio marcasse 23h30, pra dar tempo de se perder umas duas ou três vezes antes de encontrar a praça de onde, precisamente à meia noite, saía o último ônibus para a cidadezinha.
Não sei o que esperava do Carnaval em Veneza; aliás, só descobrimos que era Carnaval quando chegamos à cidade e nos deparamos com aqueles vestidos e máscaras de época em desfile pelas pontes e canais. Claro que não há samba, e o mais próximo de bloco de rua foi um grupinho de jovens com nariz de palhaço pulando pelas ruas ao som de um bumbo e de um saxofone que jamais conseguiram se entender.
Sei, entretanto, o que NÃO esperava: reggae. Havia um pessoal da Jamaica, sempre fazendo questão de salientar, nos cartazes, seu grau de parentesco, amizade ou musicalidade com Bob Marley, e uns grupos italianos do estilo – SIM! ELES EXISTEM! Foram uns quarenta shows em três dias, espalhados pelas pequenas praças e grandes mercados que surgiam de repente, após esquinas aparentemente inocentes.
Mas quase… ela tinha um lápis de maquiagem na mão, e uns copinhos de tinta. Era croata, estudante de arte. Disse que pintar o rosto era algo tradicional, indispensável ao Carnaval de Veneza. Eu então disse o que era tradicional, indispensável ao Carnaval baiano, por exemplo.
Na Croácia, por sua vez, não há Carnaval. Pelo menos, não pra mim.

