January 2009

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A imprensa sempre trabalha com um mundo a cada dia. Essa é a grande arma dos pixels, bites e de todos os sistemas de 0 e 1 que compõem esse mundo hiper-real que nos guia e que nos alimenta o repertório. Num piscar de olhos, tudo se rearranja, se ressignifica. É tudo novo, mas estranhamente confortável.

A única coisa que permanece por trás desses espasmos diários entre um mundo e outro é a insistente e intransponível gana pelo poder, seja econômico, seja político – se é que existe uma separação. Parece que não houve toda aquela discussão sobre o turno intermediário das escolas municipais, o “turno da fome” nas palavras e propagandas do atual prefeito. Durante a campanha, por várias vezes, Amazonino garantiu que exterminaria o referido turno imediatamente, e que colocaria, se necessário, o excedente de alunos em escolas particulares.

Eis que chegando em casa, ouvindo a líder de audiência sobre quatro rodas CBN Manaus, me deparo com a secretária municipal de educação, Terezinha Ruiz, dizendo que o ano letivo vai começar mantendo o turno da fome, e que ela está tentando de tudo para remanejar MENOS DA METADE dos alunos matriculados nesse turno, entre escolas da prefeitura e do estado durante os primeiros 2 MESES DE AULA.

Não ouvi comentário algum dos jornalistas da rádio, ninguém contextualiza nada… parece, então, que a notícia é ótima: Amazonino está se esforçando para resolver esse problema novo que ele acabou de descobrir ao assumir a administração, exatamente com o rombo de centenas de milhões nos cofres municipais que sua equipe de transição não percebera, ou como a chuva que – quem diria! – dificulta o trabalho de tapar buraco no asfalto.

Nada como um dia, e um dia apenas.

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Estou lendo “No Tribunal de Meu Pai”, de Issac Bashevis Singer – um conjunto de relatos autobiográficos que acaba por traçar um panorama do modo de vida dos judeus ortodoxos antes da Primeira Guerra –, e cheguei à conclusão de que eles me irritariam tanto quanto os evangélicos me irritam hoje.

Não gosto de divinos mundos grandiosos invadindo meu espaço na calçada. Para ir comprar pão, um evangélico procura uma passagem com trigo na Bíblia para se justificar. E todo caso, toda história, toda fofoca começa com a frase “Eu estava orando…”, supostamente aramaico para “era uma vez”.

Obs.: os textos publicados no blog Olho de Quem não expressam as opiniões ou crenças de seu autor Daniel Valentim.

Obs.: Nesse caso, sim.

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Post de utilidade pública:

Aqui está o novo acordo gramatical com todas as novas regras. Baixe e saia fazendo concursos:

Guia Reforma Ortográfica Melhoramentos

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O Olho de Quem anda animado por conta desta notícia aqui, do blog O Malfazejo:

O blog O Malfazejo diminuiu o ritmo normal ao longo desta semana por ótimos motivos. Nos próximos dias, novidades serão apresentadas aos leitores. Conforme anunciado há algum tempo aqui mesmo, a ordem natural é andar para a frente, e o que nasceu como um hobby pessoal agora ganhará volume, qualidade e parceiros de peso. Um novo site será apresentado aos leitores, com pontos de vista diversos, assuntos variados e colaboradores reconhecidos. A meta é simples: oferecer ao usuário de internet em Manaus, finalmente, o melhor site da cidade na internet, uma forma crítica de falar dela — e de outras. Não será um site de notícias, mas predominantemente de análise e opinião. A equipe cresce a cada dia, à medida que novas conversas acontecem e gente de todos os tipos, das mais diferentes áreas, aceita fazer parte de algo que nasce da forma mais legitimamente democrática possível: na internet. Aguarde notícias nos próximos dias, e se quiser saber mais, escreva pra cá: ismaelbneto@gmail.com.

Finalmente, parece que a Internet vai CHEGAR em Manaus. Nós só tínhamos a tecnologia (embora um tanto atrasada e cara), mas a parte conceitual ainda nos faltava. Faltava debate, embate, faltava aproveitar-se – em larga escala – da porta aberta da revolução digital, mesmo que ela ainda seja uma fresta.

Manaus sempre foi pensa para um lado apenas, sempre caminhou de banda – para lembrar um poema de Drummond. Há uma opinião e um reizão, que bem poderia ser cubano ou por tirania ou por volume traseiro, e o pessoal das mãos úmidas que dizem sim.

Um reizão estadual que chega ao ponto de dizer numa entrevista à Rádio Boba da Corte, na época das últimas eleições municipais, que “aceitaria” conversar com o então quase e hoje pleno prefeito Amazonino Fumando Onde É Proibido Mendes, para o bem da pobre e depredada pela última administração capital amazonense.

Você tem que estar num trono herdado por divindade, num mundo de faz de conta que todos eles são trouxas, para falar algo tão sutilmente cínico impunemente. O pior, entretanto, é o dono do microfone apoiar essa exibição de superioridade… é por isso que o Olho de Quem está animado:

Ainda tem gente de mão seca.

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Os ensinamentos do Negão

Os ensinamentos do Negão

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Isabela Boscov, analista de políticas kino-culturais da revista Veja, escreveu na última edição da revista que Obama precisa de filmes como Titanic para recuperar o desgaste de imagem do governo Bush, uma empreitada um tanto penosa diante do atual cenário de crise. Não vejo as coisas dessa maneira.

A indústria do entretenimento vem experimentando uma crise há algum tempo, mesmo que de forma mais gradual. Faz tempo que as vendas de ingressos de cinema, CDs e DVDs vêm diminuindo. Isso, por outro lado, jamais significou que as pessoas estão vendo menos filmes ou escutando menos música made in USA; e sim que estão pagando menos por isso, de forma ilícita.

Em outras palavras, embora a indústria possa enfrentar uma diminuição de recursos, a “ideologia e o mito norte-americanos” continuarão a seduzir as plateias mundo afora por meio da pirataria. Agora, é claro, os grandes estúdios deverão rever sua própria bolha, investir mais na criatividade de bons roteiristas e menos em cachês astronômicos.

Já que Isabela disse que criatividade e empenho não faltam por lá, fico mais tranquilo.

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Imprensa adora grandes números, ou pequenos números que significam muito. Um número com significado é sempre um excelente negócio. Primeiro exemplo: Matou por 1 real. Segundo exemplo: Dívida da prefeitura é de R$ 330,5 milhões.

Serafim disse, antes de sair, que a dívida era de R$ 160 milhões, menos da metade, portanto, do que a que Amazonino relatou depois de entrar. Deixar dívida é algo comum, não quer dizer irresponsabilidade fiscal, mas de qualquer forma alguém está mentindo – ou se aproveitando de verdades que não vêm ao caso…

Vamos admitir que o novo prefeito esteja certo. Nesse caso, a manchete mais ética deveria ser: Dívida repassada a Amazonino é de R$ 46,2 milhões. Essa é a cifra que, segundo o próprio prefeito, foi deixada por Serafim sem o devido provisionamento. O escândalo estaria aí, nesse valor. Esse seria o verdadeiro valor do ROMBO.

Isso tudo está explicado nas matérias, mas contextualizar as reportagens é sempre um processo bastante sutil nas páginas dos jornais. Normalmente, esse tipo de informação (como é o caso dos R$ 46 milhões), só aparece depois do segundo parágrafo, quando a maior parte dos leitores de jornal já virou a página.

Para a maioria das pessoas, fica a impressão – propositadamente, é importante que isso fique bem claro –, pelas manchetes, subtítulos e chamadas, de que o rombo é realmente de R$ 330 mi.

Isso tudo, é bom que se repita, SE – e somente SE -, Amazonino estiver falando a verdade.

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Montarroyos tinha os olhos estranhos. Circulados de pálpebras de hidrocor vermelho, excesso de ferro, falta de sono, saltados com seu gris central. Duas esferas de alvoroço querendo sobreviver àquela cama pálida de pele e carne velhas.

Montarroyos estava preso na Alvorada. Sua cela na Roubos e Furtos era um quartinho privado, delegado que era. Seu criado mudo, seu abajur, uma cadeirinha num canto do cômodo, televisão de 14 polegadas e uma cama que devia estalar… a cama e o biscoito branco, seco, salgado, que ele comia com uma tristeza que talvez eu jamais pudesse decifrar. Seu café com leite sobre o criado.

Assim o vi pela primeira e última vez, durante uma das rondas policiais para o marrom caderno nosso de cada dia. Tinham prendido uma quadrilha de assaltantes, havia um alvoroço, uma euforia estranha nos investigadores… podia ser a de um dever bem cumprido apenas, mas tenho a mania de sempre desconfiar de policiais, de modo que aquela catarse ainda me paira estranha.

O fotógrafo conseguiu uma foto de Montarroyos caminhando livremente pela delegacia – ele deve ter saído da “cela” pra ver o que era toda aquela confusão – então isso também acabou virando uma matéria. Montarroyos era acusado de ter mandado executar alguns adolescentes, depois que eles invadiram sua casa e violentaram sua filha porque não há paz por aqui.

Deixei a matéria escrita na minha pasta para o editor, que só chegaria daí a algumas horas ao jornal. A sugestão de título – uma brincadeira que jamais imaginaria publicada – saiu, no topo da página, exatamente como a deixei: “Bangue-bangue, peruca e café com leite”.

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Estava lendo um dos relatos de Isaac Singer sobre sua infância no tribunal rabínico de seu pai e me deparei com uma história bastante engraçada na superfície, mas que resguardava uma certa melancolia sob aquela casca de humor. Era uma história de amor, da resignação da qual nos ungimos diante do fim. Um casal de velhinhos decide se divorciar para o escândalo de todos na rua Kochmalna, em Varsóvia. A idéia partira da mulher, que diante de seu desinteresse por sexo àquela altura, resolve deixar o marido viver um último romance carnal, tórrido na medida do possível.

Ela própria fora ao rabino pedir que ele concedesse o divórcio e que na mesma noite realizasse o casamento entre seu ex e uma mulher mais jovem, de trinta e poucos anos – com a qual o marido já mantinha um caso –, uma cozinheira. A velhinha organizou toda a festa e ainda estava disposta a ajudar a cuidar dos filhos que o novo casal poderia gerar, para o mais completo desgosto e repúdio de todas as mulheres das redondezas.

A melancolia a que me referi no início do texto, entretanto, não está nesse altruísmo e completa submissão da senhora traída, mas no fato de que o casal de velhinhos, antes de efetivar esse novo arranjo matrimonial, comprou um jazigo no cemitério. Eles ainda dividiriam a morada eterna, devidamente despidos de sexo, mas ainda plenos de suas idiossincrasias: “Voltarei a ser sua mulher no outro mundo. No paraíso, servirei de escabelo para seus pés. Está tudo combinado”.

Compraram o jazigo e receberam todos os amigos lá. “Tudo se mesclava e se confundia: vida, morte, desejo, fidelidade irrestrita e amor”.

Serviram bolo e conhaque, impregnados dessa esperança de que a morte talvez seja exatamente como a vida, um tempo de despedidas e de reencontros, de escolha de para quem damos as mãos. Acho que a melancolia a que me referi está nessa memória pegajosa e insistente com a qual banhamos todo futuro incerto.

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Quando penso na morte, de onde ela me espreita? Sob seu capuz de todas as sombras, tento a paz débil de um rosto… apenas porque reconhecer é ter um mínimo de controle, porque há sempre um escuro que paira sobre o próximo passo, meu próximo passo, e eu não quero andar sozinho sem saber para onde.

Em meu primeiro contato mais íntimo com a morte, aos vinte e poucos anos, seu rosto era o de minha avó, mas o rosto de minha avó era irreconhecível. Não havia sono ou repouso naqueles olhos fechados, talvez não houvesse olhos, não houvesse rosto. Havia apenas a memória de minha avó, no calabouço de meus dicionários, e uma carne esvaziada de si, a carne que não é carne. A carne que nunca nasceu.

Para onde foi minha avó, além de me povoar instâncias de sonos e de saudades? Não me refiro a seu corpo doado ao chão, mas à sua consciência, à sua unicidade… para onde?

Talvez morrer não seja chegar a algum lugar, nem achar uma resposta. Talvez seja apenas parar de andar… de perguntar.

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