Recordo com saudade do melhor dia que passei durante meu tempo nO Estado do Amazonas. Por algum milagre, cheguei cedo à redação. Dulce Gusmão, minha editora, já estava lá. Éramos só nós dois para fazer o caderno de cultura, e todas as agências do mundo.
Apesar de ter sido um jornal praticamente não lido… ah! Quem estou tentando enganar!… Apesar de ter sido um jornal não lido, foi a melhor experiência que tive em redações. Foi onde pude entender, realmente, como deve trabalhar o editor de um caderno.
Primeiro, Dulce sabia muito sobre a produção artística em Manaus, da parte histórica à contemporânea. Segundo, brigava pelas pautas que achava importantes nas reuniões de editores. Terceiro, munia o repórter de informações e fornecia orientações sobre o que procurar. Quarto, se a matéria voltasse da rua com outros ganchos, não se importava, desde que os argumentos fossem bons.
Um exemplo de como um bom editor faz toda a diferença aconteceu numa das mostras da Federação de Teatro do Amazonas (FETAM), não me lembro a de que ano. A entidade mandou a programação do evento e um press release exaltando o fato de apresentar trinta e tantos espetáculos produzidos por grupos locais, etc.
Dulce deu uma olhada nessa programação e depois virou pra mim e disse que estava sentindo a falta de alguns grupos importantes da cidade, e que alguma coisa devia estar errada. Dito e feito, liguei para representantes dos grupos que ela indicou e descobrimos um racha político na entidade. Essa foi nossa matéria do dia seguinte. A dos outros cadernos de cultura foi o que tinha no release.
Bem… voltemos ao melhor dia nO Estado. Na época, Amazonino há muito havia abandonado a barca; e Garcia já não estava nem aí para o empreendimento. Cheguei cedo à redação, e Dulce estava lá, sentada sem fazer nada. Motivo? – e juro que isso não é brincadeira – Tudo estava cortado. Tudo não… nós ainda tínhamos eletricidade.
Não estou exagerando, mas os fotógrafos – que ainda usavam câmeras 35mm, estavam sem filme porque nem a Foto Nascimento, nem a Oliveira liberaram novos rolos por recorrente falta de pagamento. Pelo mesmo motivo, não estavam revelando os filmes que os fotógrafos já tinham utilizado;
Os carros do jornal estavam parados no pátio por falta de combustível, então as equipes de reportagem estavam presas na redação; não podiam usar o telefone do jornal porque o serviço estava cortado; os celulares corporativos dados aos editores só estavam recebendo chamadas; e a internet banda larga da Vivax estava fora do ar desde as 7h (e só voltaria lá pelas 15h).
Juro que não estou exagerando.
O que é mais legal de tudo isso é perceber como as redações são praticamente descartáveis. A edição produzida naquele dia saiu BASICAMENTE igual a de qualquer dia normal: cheia de releases, matérias de agência, fotos tiradas da Internet sem autorização (é só colocar “divulgação” no crédito), e de artigos e colunas produzidas fora dela.