November 2008

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A multidão, vista de longe em tomadas rápidas, era imagem praticamente abstrata, numa fotografia preto e branca bem contrastada. No meio de uma grande arena, o touro é finalmente abatido, enquanto um homem no meio daquela multidão parece sofrer a cada golpe do toureiro, como se ele próprio fosse a besta definhando. A sequência é montada de maneira a incomodar o espectador mesmo, e o homem a que me referi é mostrado com um efeito visual de máscara que o separa do resto da platéia, e empresta um tom bem dramático à cena.

Fail-Safe (“Limite de Segurança”, 1964), filme de Sidney Lumet, já começa assim, com uma edição bastante frenética, apresentando seus quatro personagens principais em quatro locais diferentes, sempre no mesmo horário, às 5h30 da manhã, até que todos, unidos (comunicáveis) por meio da tecnologia, também terão seus destinos selados por ela. Não vou estragar a experiência de quem quiser assisti-lo entrando em mais detalhes,

Não é um filme sobre a Guerra Fria, embora a use como plano de fundo; trata-se de uma obra sobre a relação entre o homem e a máquina, sobre a ilusão de precisão e controle (bastante atual se pensarmos nas duas recentes guerras no Iraque). O que achei interessante na abordagem foi que, ao contrário de filmes como 2001 ou Matrix, em que a máquina toma o controle por meio da dita Inteligência Artificial; em Limite de Segurança, a máquina continua subserviente como qualquer máquina, e possui um sistema passível de falhas como qualquer máquina. É aquele estado de confiança cega e deslumbramento do criador em relação à criatura que acaba deixando o homem refém da tecnologia.

Em última análise, a tecnologia, como extensão do homem (volta e meia MacLuhan), também é uma extensão de suas fraquezas. Nesse caso específico, de sua mania de grandeza.

Acabei de assistir a Fail-Safe no TCM. Dei sorte, liguei a TV e fui mudando de canal, parei nele só porque vi que algo estava começando. É bom assistir a um filme sem saber nada sobre ele previamente, nem sobre a história, nem sobre o tema. Entrei no site do canal pra saber de futuros horários de exibição, mas o guia de programação não avançava a Dezembro.

obs.: Numa pesquisa pela internet vi que o filme teve uma refilmagem feita em 2000, pelo diretor Stephen Frears, mas não vi essa versão.

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Ontem, Tony Soprano e sua trupe de Carmelas se reuniram para discutir a relação durante o findo ano de 2008. Fazer um balanço, por assim dizer.

As Carmelas estão satisfeitas com essa relação, segundo a própria presidente do Sindicato das Carmelas, que ainda revelou que os prognósticos para 2009 são os melhores possíveis.

Ótimo. Todo mundo está satisfeito. Tony pode continuar a fazer o que quiser, desde que mande um presente ou envelope regularmente para suas esposamantes.

Elas, por sua vez, abrirão as pernas sempre que solicitadas e prometem que sempre que gemerem,será de prazer.

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2.
Ik wil mijn jenever! Nu!, gritou Doudou. E ria. Sentado na calçada, sozinho, enquanto todas as madrugadas pesavam-lhe as pálpebras, lembrava-se daqueles dias em Amsterdam no ano anterior. Garrafa vazia. Impossíveis sobreposições das coisas ao seu redor. Doudou tinha olhos secos, náufrago de seu sono.

Ik wil mijn jenever! A única frase que aprendera em holandês. Mas Saandra também lhe ensinara outras coisas, é certo que sim. Após alguns copos num bar qualquer, que consumiram quase todo o resto da mesada de Janeiro que ainda sobrava, Doudou caminhou com dificuldade pela curta – embora trabalhosa – escuridão da Stoofsteeg, sob a promessa dos calores úmidos de alguma daquelas casas proibidas assim que virasse a esquina na Achterburgwal.

Foi quando ouvira: Edouàrd… c‘est vous?

Ela vinha oculta, ofuscada dos vermelhos às margens do canal. Mas ele conhecia aquela voz… sim… ela gritava… jamais esquecera daquela noite em seu calorento quarto na Tombe-Issoire… ela chegou mais perto… c‘est vous, mon petit?… sim, aquela voz… finalmente o rosto. A cicatriz. O arco de carne morta na bochecha esquerda. Sim, fora ele quem a fizera.

(publicado simultaneamente no jornal In Zeit, de Karlshure, sob encomenda do secretário de cultura, sempre às sextas-feiras em que a coluna de receitas de Frau Große só ocupa um quarto da página)

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Havia dias em que a ronda não dava nada. Uma tentativazinha de homicídio aqui, uma briga de bar ali, um afogamento no IML… nada que rendesse matéria. Em dias assim, junte todas essas informações e faça um pseudo-panorama da violência na cidade, fale como foi o dia na capital… o que pelo menos garante meia página. Ligue para alguém da polícia e peça estatísticas. Nós adoramos gráficos… e de repente, quem sabe, você tem a capa de Cidades.

Mas naquele dia não. Quando cheguei no 8º Distrito, na Compensa, farejei minha carniça, a poça de sangue que me escorregaria até a primeira página. A manchete seria: “Alfredo cabra macho – amante denuncia espancamento e cárcere privado”. A dita amante passara o dia na delegacia, após conseguir fugir da casa do então prefeito, e estava à espera de alguém que a ouvisse; e eu, jovem e ilegal estagiário de jornalista, no auge da inexperiência, estava disposto a tal.

Olha a maluquice que era a história: A mulher era amante de Alfredo e estava sofrendo maus tratos em sua “prisão” na própria casa do prefeito. Ela teve seu passaporte roubado para que não pudesse fugir do País e apanhava regularmente tanto de Alfredo quanto da filha dele… por quê? Simplesmente porque eles eram más pessoas – e não há motivo melhor do que esse no fim das contas. Mas a catarse ficou para o fim: ela tinha como provar tudo aquilo! Estava de posse de gravações em vídeo que comprovariam todas as acusações.

O fato é que o então prefeito não sabia que sua amante tinha um olho de vidro, que servia de lente para uma minúscula câmera posicionada na parte traseira da cavidade orbitária por seus amigos de outro planeta. À essa altura, os dois investigadores de polícia que me instigaram a conversar com a “vítima” estavam quase caindo de tanto rir no estacionamento da delegacia.

Voltei pra redação pra solicitar um gráfico.

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O esforço da Amazonas Film Comission (AFC) em transformar o Estado num pólo de produção audiovisual finalmente mostra bons resultados, como vimos no último filme de ficção eco-científica produzido pelo referido órgão.

Na verdade, que Dudu é um excelente ator, todos os que já ouviram alguma de suas entrevistas água-com-açúcar para a CBN café-com-leite já sabem, mas mesmo assim, o desempenho de nosso chefe de Estado naquele trailer com o outro ator/governador foi surpreendente.

Aliás, a CBN está precisando mesmo de alguma nova entrevista ou peça publicitária, ou algo do gênero… o Ronaldo já reclamou. Com a cassação de Amazonino, serão mais quatro anos de buracos no orçamento da rádio. Quer dizer, nas ruas da cidade.

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1.
Quando os ratos invadiram Paris, naquele triste e escorregadio verão de 1957, Doudou – então apenas um promissor estudante de arquitetura – alimentava a vontade com seus pensamentos de grandeza, entre talagadas de oud jenever que lhe enviaram de Haia.

Pensava muros altos, a cor marfim de seu abrigo. Lá em cima, correntes elétricas percorreriam os limites de seu território a cada dois terços de segundo. E se poderia ouvi-las, bem de perto, estalos surdos ninavam quem era de dentro, alarmavam quem era de fora.

Quando os ratos invadiram Paris, Doudou sabia bem o que teria que fazer.

(publicado simultaneamente no jornal In Zeit, de Karlshure, sob encomenda do secretário de cultura, sempre às sextas-feiras em que a coluna de receitas de Frau Große só ocupa um quarto da página)

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Um belo dia, escrevi matéria sobre o estupro de uma criança. O acusado era o padrasto. O interessante é notar como eu e o jornal podemos nos eximir de toda responsabilidade sobre qualquer coisa que escrevemos somente pela escolha de palavras. Estuprador não; ACUSADO. E lá vai a foto do indivíduo no topo da página.

É preciso ter muita cara de pau pra pagar de ético às custas de um detalhe semântico desses… pois no mundo aqui fora, acusados apanham como condenados. E invadem sua casa, e roubam suas coisas, e proíbem-no de voltar à vizinhança.

Caderno de polícia é versão marrom de uma coluna de fofocas.

Legendas das fotos:
1. Jônata Santos (25), vulgo Cascão, exibe nova tatuagem adquirida durante recente temporada na Anísio, em assalto a mão armada que abalou a noite manauara na última semana.

2. Cleto (32), de serrote na mão, e Sandra (28), desacordada na cama, coberta de sangue, em momento Snuff Movie antes da chegada da polícia.

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Pode mandar fazer pesquisa: quais são os três principais motivos que levam uma pessoa  a comprar um jornal? Palavras-cruzadas, classificados e horóscopo. Eu, particularmente, gosto de ver anúncios de putas e de detetives.

Bem, o fato é que as reportagens devem vir lá em nono ou décimo lugar na lista de motivos para se adquirir um periódico, depois de notas sobre oportunidades de emprego, colunas sociais, informações do tempo e até de necrológios. Tem gente que acha que é brincadeira, mas toda matéria que sai em jornal é, no fim das contas, mera encheção de linguiça.

Jornalistas não gostam de confessar isso porque é meio humilhante, obviamente, mas o que dizer… engolir sapo é premissa de nossa profissão, de qualquer forma. Engolir sapo põe nossa mesa. É graças a putas e detetives que nós, às vezes – bem às vezes mesmo – somos lidos.

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Certa vez me mandaram pro Mauazinho. Pequena ladeira na boca do labirinto. Você vai, eu espero aqui com a porta aberta e o carro ligado, disse o motorista do jornal que me acompanhava. E o que era frase pra conforto me atiçou paúra.

Desci atrás de um tal sujeito, um rapaz, tinha lá seus dezessete, poucos quilos, mechas descoloridas no cabelo. Belo exemplar de instituições de recuperação. Aquele ceroto no pescoço sai; o sangue na mão também. O conhecia por foto e por feito. Procurado pela polícia por conta de assassinatos. Procurado por jornais por conta de manchetes de Matou por um real.

Desci atrás dele. Não dele mesmo, mas da idéia que os outros faziam dele. Carinhoso com a mãe? Joga bola com a molecada da rua? Compra fiado no mercado? Paga? Era isso o que o jornal queria. O perfil de um jovem assassino. Parece bonito, não?

Num dia: matou por um real, assassino frio, perigoso, e vai ser solto. No outro: carinhoso com a mãe, ajuda em casa, a meninada o adora. Parece estranho, mas é exatamente porque as duas reportagens são verdadeiras, que ambas me parecem erradas.

Jornais não são fascículos. Edições não dialogam; substituem-se. Série de reportagens só serve pra prêmio de jornalismo. Cada reportagem é sempre independente de todas as demais, ou não serve para um jornal.
Um jornal se faz de ganchos. Do gancho do dia. Não há contradição possível no reino aloprado das redações. Nesse mundo de lá, um dia não vem atrás de outro dia. Cada dia nasce, cresce e morre de contexto.

É por isso mesmo que tudo fica possível, todos os textos, todas as alianças que duram para sempre. Tudo pode ser dito, tudo pode ficar o dito pelo não dito.

É essa, a verdadeira LIBERDADE de imprensa.

Esse blog é pra falar de nós. Jornalistas. Até mesmo daqueles poucos diplomados.

Esse blog é pra falar mal de nós.

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