A multidão, vista de longe em tomadas rápidas, era imagem praticamente abstrata, numa fotografia preto e branca bem contrastada. No meio de uma grande arena, o touro é finalmente abatido, enquanto um homem no meio daquela multidão parece sofrer a cada golpe do toureiro, como se ele próprio fosse a besta definhando. A sequência é montada de maneira a incomodar o espectador mesmo, e o homem a que me referi é mostrado com um efeito visual de máscara que o separa do resto da platéia, e empresta um tom bem dramático à cena.
Fail-Safe (“Limite de Segurança”, 1964), filme de Sidney Lumet, já começa assim, com uma edição bastante frenética, apresentando seus quatro personagens principais em quatro locais diferentes, sempre no mesmo horário, às 5h30 da manhã, até que todos, unidos (comunicáveis) por meio da tecnologia, também terão seus destinos selados por ela. Não vou estragar a experiência de quem quiser assisti-lo entrando em mais detalhes,
Não é um filme sobre a Guerra Fria, embora a use como plano de fundo; trata-se de uma obra sobre a relação entre o homem e a máquina, sobre a ilusão de precisão e controle (bastante atual se pensarmos nas duas recentes guerras no Iraque). O que achei interessante na abordagem foi que, ao contrário de filmes como 2001 ou Matrix, em que a máquina toma o controle por meio da dita Inteligência Artificial; em Limite de Segurança, a máquina continua subserviente como qualquer máquina, e possui um sistema passível de falhas como qualquer máquina. É aquele estado de confiança cega e deslumbramento do criador em relação à criatura que acaba deixando o homem refém da tecnologia.
Em última análise, a tecnologia, como extensão do homem (volta e meia MacLuhan), também é uma extensão de suas fraquezas. Nesse caso específico, de sua mania de grandeza.
Acabei de assistir a Fail-Safe no TCM. Dei sorte, liguei a TV e fui mudando de canal, parei nele só porque vi que algo estava começando. É bom assistir a um filme sem saber nada sobre ele previamente, nem sobre a história, nem sobre o tema. Entrei no site do canal pra saber de futuros horários de exibição, mas o guia de programação não avançava a Dezembro.
obs.: Numa pesquisa pela internet vi que o filme teve uma refilmagem feita em 2000, pelo diretor Stephen Frears, mas não vi essa versão.


