esclarecimentos

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Morar no Rio de Janeiro. Estudar Charlie Parker e Julio Cortázar. O espaço e o tempo dentro de uma valise de cronópio e do oco de um saxofone. Onde fico, duas oitavas faróis em cada beira de atlântico. Dois anos subindo e descendo a serra. o metrô. o bloco f. a página 214. três amores, vinte caixas, uma última olhada antes de fechar as janelas.

A qualquer momento terão decidido o portão. E sobrará aquele parafuso na sala.

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Wilco – Side With The Seeds (do imperdível disco Sky Blue Sky)

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Se estou errado, que me corrijam, mas ainda não vi nenhuma matéria nos jornais da cidade sobre como os casos de gripe suína estão sendo tratados por aqui, digo uma matéria geral sobre política pública para a saúde, não aquelas factuais de que fulano morreu, ou de que mais um caso suspeito está em acompanhamento, etc.

Acho que o problema está no fato de que não há uma política pública de verdade voltada para isso, nem na esfera federal, quanto mais na estadual. Há um remédio que o Governo estatizou, uma idéia de se evitar salas de aula, mas não um shopping center, propaganda sobre como lavar as mãos corretamente, campanha explicativa de como números absolutos de morte são bem diferentes de números relativos de morte e uma das coisas mais esdrúxulas que já vi no combate a uma doença: a proibição de veicular publicidade de analgésicos e antitérmicos, como forma de impedir a automedicação e, consequentemente, a camuflagem dos sintomas.

Vamos analisar o embuste dessa última medida calmamente:

1. O problema real da automedicação está na venda do remédio, não na compra. Se a farmácia pode vender, não será a ausência de propaganda que me impedirá de comprar;

2. Analgésicos são os grandes campeões da automedicação. Desde os dez ou onze anos de idade, toda pessoa sabe qual remédio pra dor de cabeça e febre é o melhor para si. Antes disso, há pais, mães, amigos e parentes pra opinar. Então, sinceramente, proibir propaganda vai adiantar de quê? Será que se eu sentir uma dor de cabeça e não houver um anúncio de dipirona por perto, vou correr para o médico?

3. E – vamos seguir essa linha absurda de pensamento – se eu correr para o médico mesmo, numa unidade pública de saúde? Hein? Aqui em Manaus, vão aplicar dipirona e dizer que não fazem o exame “dessa gripe aí”, como aconteceu com a senhora que trabalha aqui em casa. E olha ela foi lá onde o Tamiflu está hospedado.

Em suma, a política de saúde contra a H1N1 é: se você tiver sintomas de gripe, lave bem as mãos e não tome remédio: vá a um hospital, confirme apenas a dúvida e volte para casa com uma boa dose de dipirona na veia. O máximo que pode acontecer é a morte… mas isso todo mundo sabe que é um número bem relativo.

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Faz um tempinho que o pecado da preguiça pertence à seara da ética capitalista, e significa gostar de ficar em casa coçando as partes em vez de sair às ruas e produzir algo. Mas nem sempre as coisas foram simples assim: houve um tempo em que ser preguiçoso pertencia às grandezas – na verdade fraquezas – transcendentais.

Preguiça é o torpor que nos acomete quando um bem passa a ser-nos imprescindível no momento em que se torna também intangível. Abre-se um abismo entre nós e a coisa desejada, e essa impossibilidade entorpece porque nos ocupa integralmente de uma obsessão que não cessa e que impõe, fantasia após fantasia, um estado de tristeza desesperadora e de retração.

Assim como a medicina banaliza – ou esvazia – uma doença; a linguagem, vez por outra, também o faz com as palavras.

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Por conta de alguns problemas de contrato com o servidor no qual armazenava dados utilizados no blog homônimo abrigado pelo Wordpress, fui obrigado a transferir o domínio para cá também.

Somos nós mesmos.

Olá!

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COTAS E LOROTAS
Ubirataran Iorio
20/05/2009

Nestes dias em que nossos congressistas estão para votar o chamado “Estatuto da Igualdade Racial”, que deveria ser denominado de Estatuto da Desigualdade Instituída, reproduzo o artigo que publiquei no Jornal do Brasil em 9/7/2007:

“Há poucos dias, a Suprema Corte dos Estados Unidos, em decisão apertada – cinco votos contra quatro – desferiu um golpe letal no denominado princípio de ação afirmativa, ao decidir pela inconstitucionalidade do sistema de cotas étnicas em dois distritos: Seattle, no estado de Washington e Louisville, em Kentuky. Tal decisão deverá firmar jurisprudência, dando margem a ações judiciais contra as cotas, o que poderá pôr fim a essa prática. Entrementes, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o sistema de cotas acaba de ser aprovado…

Ações afirmativas são políticas que têm o objetivo de garantir o acesso à educação ou a empregos a grupos “historicamente não dominantes”, como as chamadas minorias – mulheres, homossexuais, negros e índios -, por meio de tratamentos preferenciais que os beneficiem, dos quais a imposição de cotas é um exemplo.

À época em que ocupava o cargo de diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, vi com preocupação o governo estadual impor, pela primeira vez no Brasil, cotas nos vestibulares da universidade, para candidatos afrodescendentes (dos quais a maioria – os mulatos – também são eurodescendentes!) e para os originários de escolas públicas. Meu ceticismo era motivado por diversas razões: não há constituição em qualquer sociedade que se preze que não abrace o princípio da igualdade perante a lei; reprimindo pessoas qualificadas em favor de pessoas não qualificadas, fere-se a meritocracia; trata-se de uma forma aberta de discriminação; é uma prática do coletivismo; ao gerar ressentimentos contra os beneficiados, incita ao racismo; sob o ponto de vista da economia, as cotas são claramente contra-produtivas; contribuem para piorar a já tão enfraquecida qualidade acadêmica; tenta-se combater injustiças “históricas” mediante novas injustiças e enfrentar discriminação com mais discriminação – olho por olho e dente por dente.

Apenas com a melhoria da educação básica – e não usando critérios de raça (sempre discutíveis), etnia ou sexo – é que seremos uma sociedade com mais igualdade de oportunidades! Isto é de uma clareza tão visível que é difícil acreditar existirem pessoas que não pensem assim! A luta deve ser por maior igualdade de oportunidades, ou seja, para que todos os cidadãos, indistintamente, tenham acessos semelhantes aos benefícios e que, mediante o esforço e a capacidade de cada um, possam deles usufruir. Não será lançando uns contra outros que construiremos uma grande nação!

O argumento de que as políticas afirmativas reparam “injustiças históricas” pode até ser bem intencionado, mas é uma bazófia que padece de impressionante falta de praticidade: muitos povos, historicamente, sofreram injustiças com guerras e outros flagelos, mas como consertá-las de forma “justa”? Babilônicos, assírios, sumérios, caldeus, amoritas, acádios, godos, visigodos, medos, celtas, samaritanos, cartagineses, etruscos, índios, negros, asiáticos, coríntios, efésios, hebreus e tantos outros… Se, por exemplo, algum remoto descendente de um cidadão da Esparta do general Leônidas fosse descoberto, seria “justo” obrigar um também longínquo descendente do exército de Xerxes da Pérsia a indenizá-lo por aquela injustiça “histórica”? Seria “justo” entregar a Alemanha para os judeus de hoje, a título de reparar os crimes hediondos de que seus pais, avós e bisavós foram vítimas? É “justo” contemplar descendentes de escravos negros com cotas, em detrimento de tataranetos de senhores de engenho, que nem conheceram? Quantas tribos foram massacradas por outras tribos, ainda na África? E quantos brancos, hoje, não serão descendentes distantes de escravos dos romanos ou atenienses, por exemplo?

Boas intenções, apenas, não bastam. Não se corrigem velhos erros com erros novos. A ação realmente afirmativa de que carece o país é uma boa educação para todos, sem qualquer distinção, e que premie o mérito. Basta de cotas e de lorotas!”

Se deixarmos o racismo invadir o Brasil, dividindo-o e agredindo a formação de nosso povo, vai ser muito difícil extirpá-lo mais tarde!

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Post de utilidade pública:

Aqui está o novo acordo gramatical com todas as novas regras. Baixe e saia fazendo concursos:

Guia Reforma Ortográfica Melhoramentos

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Jamais cheguei a ver seu rosto, oculto num saco de pão. Desaparecida havia três dias pelo estado do corpo, baldio de si, reclamado por moscas. Três rajadas de .38 era seu número de identidade.

Em três dias, as extremidades minguam, e tudo o mais incha, e um verde de bile se alastra lustrando o tecido, e o bafo quente de todas as decomposições parece tomar pra sempre os arredores.

Meu primeiro morto rendeu nota nas últimas notícias. Um corpo a procura de nome, em decúbito ventral.

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Certa vez me mandaram pro Mauazinho. Pequena ladeira na boca do labirinto. Você vai, eu espero aqui com a porta aberta e o carro ligado, disse o motorista do jornal que me acompanhava. E o que era frase pra conforto me atiçou paúra.

Desci atrás de um tal sujeito, um rapaz, tinha lá seus dezessete, poucos quilos, mechas descoloridas no cabelo. Belo exemplar de instituições de recuperação. Aquele ceroto no pescoço sai; o sangue na mão também. O conhecia por foto e por feito. Procurado pela polícia por conta de assassinatos. Procurado por jornais por conta de manchetes de Matou por um real.

Desci atrás dele. Não dele mesmo, mas da idéia que os outros faziam dele. Carinhoso com a mãe? Joga bola com a molecada da rua? Compra fiado no mercado? Paga? Era isso o que o jornal queria. O perfil de um jovem assassino. Parece bonito, não?

Num dia: matou por um real, assassino frio, perigoso, e vai ser solto. No outro: carinhoso com a mãe, ajuda em casa, a meninada o adora. Parece estranho, mas é exatamente porque as duas reportagens são verdadeiras, que ambas me parecem erradas.

Jornais não são fascículos. Edições não dialogam; substituem-se. Série de reportagens só serve pra prêmio de jornalismo. Cada reportagem é sempre independente de todas as demais, ou não serve para um jornal.
Um jornal se faz de ganchos. Do gancho do dia. Não há contradição possível no reino aloprado das redações. Nesse mundo de lá, um dia não vem atrás de outro dia. Cada dia nasce, cresce e morre de contexto.

É por isso mesmo que tudo fica possível, todos os textos, todas as alianças que duram para sempre. Tudo pode ser dito, tudo pode ficar o dito pelo não dito.

É essa, a verdadeira LIBERDADE de imprensa.

Esse blog é pra falar de nós. Jornalistas. Até mesmo daqueles poucos diplomados.

Esse blog é pra falar mal de nós.

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