crônicas

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Aviso!: Esse post é continuação deste

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Andei mergulhando um pouco mais nessa história de e-readers, e embora continue acreditando nas diferenças fundamentais entre o ingresso da música e o do texto nessa nova era digital, preciso rever algumas ideias que tinha sobre o mercado editorial.

Um fato me havia, então, escapado. Um fato que faz toda a diferença:

(1) Tecnologia pela tecnologia – O e-book tem realmente a vantagem de que sua compra e seu recebimento no leitor digital são coisas praticamente simultâneas, não há espera nem possibilidade de atraso por greve dos Correios, por exemplo. Bem, posso estar enganado, mas se você for a uma livraria e comprar um livro, a entrega do produto também é praticamente simultânea. Aliás, tirando o momento em que o caixa faz a leitura do código de barras, o livro nem sai da mão de seu futuro proprietário. Então, na realidade, essa vantagem do e-book não é sobre o livro, mas sobre o livro comprado via Internet. No Brasil, as principais livrarias na grande rede possuem um prazo de entrega de 2 a 5 dias úteis, normalmente; nada absurdo. Mas esse prazo pode se estender a seis ou oito semanas no caso de encomenda de um título importado menos óbvio ou muito técnico, segmentado. Esse livro importado, numa versão e-book, chegaria imediatamente à tela de seu e-reader, e sem pagamento de frete. Se levarmos em conta que essas grandes e tradicionais livrarias possuem um mínimo de know-how para manutenção de seus estoques totais (já que o site representa todas as filiais), não acredito que pedidos de livros importados que requeiram esse tipo de encomenda mais demorada representem um grande volume de vendas. Então, na verdade, o que está em jogo aqui é o consumo pela sedução tecnológica, pois sob esse ponto de vista, não há vantagem prática que justifique o abandono de um meio pelo outro – em larga escala –, apenas aquela velha máxima de McLuhan, “o meio é a mensagem”. O novo meio é a mensagem da vez.

(1.1) Mas há outra forma de se analisar esse mesmo exemplo: você prefere o e-book porque sim, porra, e ponto final. Exigir de alguém que se justifique por ter trocado o livro pelo e-book é absurdo. Como vimos no post anterior: para cada tempo há uma tecnologia; e para cada tecnologia, uma percepção.

Segundo reportagem do último Jornal da Globo (15/04), 600 mil e-books foram vendidos depois do lançamento do iPad, há pouco mais de uma semana, e-books que são cópias exatas de livros impressos (digitalização que chamei de, no mínimo, inútil), um número impressionante que obviamente não tem nenhuma relação com um repentino crescimento do gosto pela leitura. Compra-se o e-book porque se quer ver o iPad funcionando, para  que se teste suas possibilidades, não apenas no manuseio da obra, mas em todo o percurso de sua aquisição – porque o aparelho é um computador, não apenas um leitor digital. Acho difícil imaginar alguém comprando um iPad e pensando, “puxa, finalmente vou poder ter aquele e-book que sempre quis…”, fazendo as vendas estourarem.

A questão do preço do e-book tampouco é tão importante, quanto imaginei, para sua popularização repentina. Vi na mesma reportagem que os preços praticados nos Estados Unidos (de 5.99 a 7.99, em média) é exatamente o mesmo dos paperbacks, aqueles livros de bolso feitos com papel reciclado. Levando em consideração que as editoras americanas sempre lançam as principais obras de seu catálogo também nessa versão paperback, novamente temos que o preço não justificaria, em larga escala, a troca dos meios.

O preço do livro ao e-book não cai muito porque, na verdade, a parte gráfica e material do livro representa algo em torno de 5% do custo de produção. A editora continua precisando de gente para conferir os títulos, manter largura de banda em vez de transporte, e continua a ter que pagar direitos ao escritor, fazer eventos, divulgar a obra, manter escritórios, e ainda tem que pagar pelo seguro do arquivo (Digital Rights Management – DRM), exigido pelos fabricantes dos e-readers, etc. Trocando em miúdos – ou em bits –, alhos por bugalhos.

Se o livro vai ser vendido por quase o mesmo preço à livraria, vai custar quase o mesmo também para o consumidor final, pois as lojas vendem e cobram frete por fora, no fim do pedido, então não importa se o livro vai ser baixado ou se vai ser despachado, o preço do produto é quase o mesmo. A Cidade Ilhada, do Miltom Hatoum, por exemplo, sai por R$ 33 no papel, por R$ 24,50 em arquivo, ou por R$ 15 usado, em ótimo estado, num sebo via Estante Virtual. Leite Derramado, do Chico Buarque, sai por R$ 39 no papel, R$ 29 em arquivo, ou por R$ 16 usado, em ótimo estado, num sebo via Estante Virtual.

O que vale não é o preço nem a comodidade nem a economia de espaço físico. Isso é bobagem insustentável durante qualquer argumentação um pouco mais cuidadosa.

O que vale é apenas a tecnologia.

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Os e-readers – como o iPad – vão acabar com o livro? De acordo com reportagem da última Bravo!, a chance disso acontecer é bem grande, mas porque ela toma como exemplo o que o iPod aliado à Internet fez com o CD e, nesse caso, se a raiz do argumento está sugando em solo errado, o fruto da discussão já nasce seco.

Particularmente, não acho que as coisas sejam tão simples. Vamos olhar com mais calma para a situação:

O iPod não está acabando com o CD, o mp3 talvez sim. Por quê? Porque é de graça pra todo mundo com uma conexão à Internet, possibilita aquisição irrestrita e quase imediata pra quem tem banda larga e não ocupa espaço físico perceptível, permitindo, portanto, que se tenha uma coleção de mais de mil álbuns no bolso da calça, acessíveis ao toque de um botão. Ou isso, ou apenas porque é de graça mesmo. O fato é que a Internet não mudou a música, apenas a forma como ela é distribuída, sua indústria. Não existe um gênero pós-Internet. A tecnologia digital facilitou o acesso à produção, distribuição e aquisição, mas tampouco criou gêneros – nem a música eletrônica veio da revolução digital, apenas foi banalizada por ela.

O texto, por outro lado, se alterou completamente ao ser levado para a Internet. Mudou até de nome: virou hipertexto, ganhou uma dinâmica diferente porque pode ser editado a cada acesso e é permeado por links que levam a outros textos, ou a vídeos, a fotos, a sites de referência e por aí afora ou adentro. Também mudou porque deve ser necessariamente curto, conciso e extremamente claro. Isso ocorre por pelo menos duas razões imediatas:

(1) O texto concorre o tempo todo com outras informações, de propagandas a gráficos de suporte, passando por animações, links e todas as demais janelas que um sistema multioperacional oferece a um usuário multioperacional de computador; e

(2) é preciso muito esforço para se ler numa tela, mesmo que essa tela possa ser levada para o sofá, para a cama, para a parada de ônibus ou para dentro do avião, pois:

(2.1) Para a minha geração, a última que viveu ainda sem computador e Internet por tempo considerável, a luz cansa demais os olhos se o texto possuir mais de, sei lá, 800 linhas;

(2.2) Para a geração posterior, que já aprendeu a ler na tela do computador, o esforço continuaria grande não por conta da falta de costume à luz, mas porque ela não aprendeu a ler algo com mais de 800 linhas no meio de tantas informações em formatos às vezes mais sedutores presentes no hipertexto. E isso não tem nada de errado essencialmente: a cada tempo corresponde uma tecnologia, e a cada tecnologia, uma percepção.

Então o problema é outro: o hipertexto vai acabar com o texto? Vai torná-lo desnecessário? Porque já vimos que não faz sentido o texto entrar num e-reader como a música entra num iPod. A bibliografia da humanidade não será apagada, obviamente, mas terá que ser completamente reeditada como hipertexto para ser interessante às gerações futuras? A produção literária daqui pra frente será apenas em hipertexto? Finalmente: ler será desnecessário? – pergunto isso porque o contato com o hipertexto é uma experiência diferente, essencialmente audiovisual, não é a leitura como a conhecemos.

Estou insistindo nesse ponto porque é preciso separar bem a experiência musical da experiência da leitura. A música não foi destruída pelo mp3, apenas o CD; no caso do texto, por conta de suas características essenciais, sua passagem incólume ao mundo digital é impossível, ou inútil na melhor das hipóteses – convenhamos, se a única vantagem de se digitalizar um livro, pura e simplesmente digitalizá-lo, é economia de espaço e de árvores, isso só será interessante como arquivo patrimonial macro. Para que o texto continue a valer de algo no mundo digital, é preciso que ele se torne outra coisa.

Aí chegamos a um ponto chave: se o texto do livro tal como o conhecemos não faz sentido – se apenas digitalizado – dentro de um e-reader, então:

(1) interessará à indústria reformular todo o nosso cânone literário? O que ficar de fora será esquecido e deixado fora de catálogo por ela? E se a resposta for sim, quanto tempo levaria esse processo, entre curadorias, reformulações e questões jurídicas de direito autoral? Porque:

(2) interessará ao novo (ou futuro) consumidor adquirir um arquivo digital, ainda que a um preço mais baixo, que é apenas a cópia de algo que esse próprio consumidor considera obsoleto não apenas como formato, mas como gênero artístico?

Voltamos ao que realmente está em jogo:

O texto – não o livro – vai se tornar desnecessário?

Isso é diferente porque se considerarmos que apenas o livro se tornará obsoleto, mas não o texto que ele transporta, estamos dizendo que minha geração vai se acostumar à luz da tela e abandonar o papel, porque é o que os novos tempos exigem; mas que as gerações futuras, ao contrário, vão se acostumar aos textos de “antigamente” porque é isso que a indústria vai oferecer. Meio paradoxal, não?

A outra opção, a de que é o texto que se tornará desnecessário frente ao hipertexto, por sua vez, implica um problema bem maior que o de uma mera troca de formatos: um gênero necessariamente destrói outro para se firmar? O cinema vai acabar ainda com o teatro? A teledramaturgia ainda vai acabar com o cinema? O vídeo caseiro do youtube e o vídeo HD do Spielberg vão acabar com a televisão e com o cinema com uma paulada só? Aí ninguém se arrisca a ter tantas certezas…

Para terminar, há ainda um outro dado sobre essa revolução digital que nos interessa aqui. O iPod, bem como os demais tocadores de mp3, foram a resposta de uma parte da indústria a uma demanda evidente e em franco crescimento, pois foram os usuários de internet e da tecnologia p2p que fizeram a revolução, a troca do CD pelo mp3, e as empresas tiveram que se adaptar. Agora pense no que está acontecendo com os livros: como está a distribuição de arquivos digitais de livros em torrent? Quantas pessoas que você conhece estão digitalizando seus livros e disponibilizando-os na Internet? Quantos sites de distribuição de literatura independente estão aparecendo por aí, deixando livros de novos autores com download gratuito? Se o processo de digitalização que ocorreu com a música é o mesmo processo por que passará o texto, tudo isso já não deveria estar acontecendo num ritmo bem mais acelerado?

No caso do livro, estão criando os aparelhos antes: kindles, nooks e iPads, e isso faz toda a diferença para um tipo de consumidor que, nesse âmbito específico do mundo digital, sempre se mostrou bastante avesso à qualquer tipo de imposição mais evidente.

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Passando pelo centro de Juiz de Fora, vi um sebo vendendo seu acervo por peso. “Livro a Kilo!”, dizia o anúncio. Dependendo da estante, os preços variavam de nove a vinte reais por quilo de livro. Sem querer, achei uma edição de 1924 de um guia turístico de Paris, “Paris et ses Environs – Les Guides Bleus”, devidamente arrematado por R$ 18.

Há uma introdução com aspirações meio literárias, resgatando os primórdios do gênero, que remontam ao livro “Tableau de Paris”, uma obra em 12 volumes. Um guia turístico em DOZE VOLUMES! Por curiosidade, fui atrás do tal livro e o encontrei para baixar. Mas onde quero chegar com toda essa história?

Bem, na página 71 do primeiro volume, encontrei um capítulo dedicado aos “Portadores de Água”, pessoas que retiram água do rio para vender aos moradores da capital francesa, que até então possuía um sistema de distribuição de água muito deficiente. Bem, são 20 mil desses profissionais circulando o dia inteiro pela cidade – para atender à toda a demanda – vendendo uma água que, segundo o autor do guia, relaxa o estômago. Quando o rio está com “problemas”, entretanto, ele pede que o turista acrescente uma colherinha de um bom vinagre branco em cada balde, para evitar possíveis diarreias.

Paris. Ano? 1781 (sim, o tal do Tableau foi editado e publicado em MIL, SETECENTOS E OITENTA E UM).

Manaus, a Paris dos Trópicos, igualzinha. Mas… em que ano estamos?

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O que devo pensar quando a rede balança sozinha, tufos de renda dedilhados e mudos nesse grande e inútil piano para o vento do oeste, ou para qualquer vento dessa grama fresca o zumbido não me alcança. Um velocípede rosa e seu pássaro no guidão, a coluna de tijolos polidos, quando acenderem as luzes de natal e for essa noite o que devo pensar?

Essa figura, esse mundo, essa paisagem que invento porque descubro, que crio porque entendo. Esse mundo está aí, como diria Cortázar, “da mesma forma como a água existe no oxigênio e no hidrogênio ou, ainda, como podemos encontrar nas páginas 78, 457, 3, 271, 688, 75 e 456 do Dicionário da Academia Espanhola tudo o que é necessário para escrever um certo undecassílabo de Garcilaso”.

O que devo pensar quando esses gritos e ralhos e coachos de bichos que não vejo se ocupam do vão da rede, das curvas e das tramas, e os arbustos de longe se desfazem numa revoada estrondosa de pássaros?

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O Olho de Quem acaba de lançar uma grande campanha de utilidade privada:

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Fale Umas Verdades e seja processado pelo Fenômeno Xavier

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Fenômeno Xavier não existe, mas ainda assim é uma piada. E como todo personagem inventado que vira uma piada, tem o ego imenso e faz faculdade de direito.

Fenômeno Xavier jamais disse uma palavra, mas gosta dos chavões anacrônicos de autos processuais, que exibirá como vocabulário, orgulhoso, no dia em que finalmente chegar a esse mundo por meio de novas tecnologias cosmogônicas ou de um rabo de cometa.

Fenômeno Xavier, rábula barrigudo, caminha sobre o bulbo de um microfone de lá pra cá, daqui pra ali, em seu universo sozinho, aquele seu planeta de lá, onde ele é grande e o mundo é pequeno.

Fenômeno Xavier não existe. Mas diz a lenda que se mencionares o nome dele cinco vezes diante da tela de um computador com conexão à Internet, ele aparece e te processa.

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Num voo com 150 passageiros, na era do politicamente correto, não é exagero dizer que por volta de 100 pessoas podem exigir atendimento preferencial. Entre gente com problema de locomoção, velhos, operados, gestantes e pais com crianças de colo, não sobra muito espaço para essa pobre minoria relegada dos adultos com idade entre 18 e 50 que andam sozinhos e com desenvoltura, às vezes até mascando um chiclete com invejável displicência .

Os guichês de check-in da TAM, no Eduardo Gomes, são um ótimo exemplo disso. São sempre dois atendentes para dois voos com horários próximos. Se considerarmos que o procedimento de checar documentos e despachar bagagens leva quase 10 minutos, é razoável pensar que isso é tempo suficiente para o surgimento de pelo menos mais duas pessoas com atendimento preferencial garantido por lei. Mas isso não é tudo: normalmente os preferenciais andam em bandos, acompanhados por familiares e/ou amigos, que por sua vez também ganham o direito ao atendimento rápido por extensão de benefícios. O resultado é uma grande vingança contra os mascadores displicentes de chiclete: vocês podem andar sozinhos e com desenvoltura, mas suas filas jamais sairão do lugar.

Viajei um tanto desde Outubro, por conta de uns projetos, e pude presenciar alguns fatos inusitados nessas filas de check-in, mas o que mais me chamou a atenção foi uma briga exatamente na fila de atendimento preferencial. Esses tempos modernos sem Os Trapalhões na televisão geraram um inchaço insustentável das grandes conquistas sociais, o que desembocou num outro tipo de problema. Antes a pergunta era “quem tem preferência”. Hoje, como quase todos têm preferência, a pergunta é “quem tem mais preferência”.

Num dado momento, o primeiro da fila de atendimento preferencial era apenas um velho comum, apenas meio careca e meio trêmulo, ansioso por sua vez após o longo check-in da extensa comitiva da mãe, tias e primos de um garotinho com graves deformações nos membros inferiores e um óculos fora de moda no rosto. Antes que ele pudesse chegar ao guichê, entretanto, uma senhora avançou pelo lado com mais cara de sofrimento e ganhou a vez, sensibilizando o funcionário da TAM. O velho comum, visivelmente irritado – porque começou a tremer mais –, foi tomar satisfações com a velha comum, afinal de contas ele estava há mais tempo na fila – e talvez até mesmo há mais tempo nesse mundo. Não teve jeito: como ambos eram apenas velhos comuns, esse critério de preferência zerou o jogo, e o desempate veio com a recente cirurgia num dos seios da senhora, que lhe garantiu a vez.

Fiquei pensando que talvez surgisse uma outra velha comum também com uma recente cirurgia num dos seios, e que o desempate estaria, então, na função da cirurgia: a extirpação de um tumor benigno, por exemplo, teria preferência diante de uma implantação de silicone; mas perderia para a retirada total de um seio vítima de câncer.

Cada tempo tem as dúvidas que merece.

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Não gosto dos artistas de rua que invadiram Manaus há um tempo, do circo mambembe aceso no semáforo, da cara de palhaço que não é trágico: apenas chato. Os equilibristas de olhos verdes, pele morena e dread locks exibem a mesma criatividade que antes ficava exposta apenas nas bijuterias na praça, na praia, na festa de reggae. São todas iguais, todas made in china, exatamente como todos esses libertários andarilhos, que não importa de onde venham, são todos peruanos.

Quantas vezes se pode ver o mesmo número das três ou quatro bolas revezando-se em duas mãos, ou cones, ou tochas acesas? Vejo de quatro a seis sessões por dia. Às vezes venço meu fascismo e acabo pagando. Acho que por conta da Copa do Mundo, Robério Braga deveria organizar melhor tudo isso, abrir editais para o que chamaríamos de “Espetáculos de Semáforo – um sinal verde para a arte”, esquetes de 30 segundos tendo como mote releituras do movimento hippie numa perspectiva da arte na era da reprodutibilidade estéril.

Os grupos de teatro da cidade teriam mais esse espaço para seguirem anônimos, e os hippies voltariam às festas que não frequento mais.

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Ismael foi para o PSB e isso irritou muita gente. Por quê?

Há uma ideia muito distorcida de que o conceito de opinião está ligado, impreterivelmente, a uma espécie de fisiologismo entre veículos de comunicação e partidos políticos. Nesse caso, o blogueiro Ismael seria incompatível com o filiado ao PSB porque sua opinião estaria sempre comprometida com a ideologia do partido.

Isso é uma besteira sem tamanho, e só pode ser imaginável num mundo de valores tão distorcidos quanto o que vivemos. Por partes: (1) toda e qualquer afirmação é ideológica (no mínimo do mínimo do mínimo, é escolher o que dizer, quando dizer e a quem dizer, o que já representa, em si, três juízos de valor). Dito isso, temos que (2) a imparcialidade é impossível, e que todo conhecimento – e toda informação, por consequência – advém de um interesse por esse conhecimento (tanto do emissor quanto do receptor). Qualquer meio de comunicação que se diz imparcial, na verdade, está fazendo uma opção ideológica – e, ao meu ver, irresponsável – de se eximir da crítica social de que teria o dever de fazer, em prol da boa vizinhança com os anunciantes. O problema é que as pessoas crêem – por culpa desses mesmos veículos – que a matéria opinativa é desleal com o leitor (que deveria tirar suas próprias conclusões a partir dos – muito sobrestimados – fatos) e incentivam essa atitude dos meios, por causa da distorção de valores a que me referi anteriormente, de que uma opinião mascara um fato. Liberdade de informação não existe; o que a informação precisa para ser de qualidade é de RESPONSABILIDADE, e isso, dentro ou fora de qualquer partido ou instância, acredito que Ismael o tenha.

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1. Uma pessoa qualquer resolve viajar para um lugar onde jamais esteve. Vai a uma agência de viagens reconhecida e fecha um pacote com passagens, hotel e alguns passeios incluídos. Os agentes da empresa são preparados para isso, especializam-se num determinado tipo de cliente, gente com boa condição financeira, e abrem-se a variações de estilo que catalogam em subgêneros: aventureiros, clássicos, sofisticados, curiosos, etc. Tudo para oferecer o melhor serviço dadas as expectativas do cliente.

O primeiro contato dessa pessoa qualquer com esse lugar distante é por meio do discurso do agente, em quem ela confia por conta da experiência que ele aparenta ter, e por conta das opiniões seguras que ele oferece.

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2. Uma pessoa qualquer resolve ver o que aconteceu ontem na cidade em que sempre morou. Compra um jornal de uma rede de comunicação reconhecida e fecha uma espécie de contrato para um passeio pelas diversas esferas da cidade, por meio de cadernos segmentados. Os repórteres da empresa são preparados para isso, especializam-se em nivelar tudo por baixo, pois o jornal quer atender às expectativas tanto do indigente que vai apenas usá-lo como travesseiro do dia (nada contra o travesseiro do dia) quanto do professor doutor interessado nas relações de poder entre as classes sociais (nada contra as relações de poder entre as classes sociais).

O contato dessa pessoa qualquer com essa cidade em que ela sempre morou ocorre, em grande parte, por meio do discurso do repórter, em quem ela deveria confiar por conta da experiência, ou da coragem, que ela espera que ele tenha e por conta das opiniões seguras que ele deveria oferecer.

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**texto antigo**

Graças a Deus não estou trabalhando em nenhum jornal: primeiro esforço léxico do dia; oxalá não tivesse aula foi o segundo. E assim, com dois deuses invocados de manhã bem cedo, além de um gole de café, começou – para mim – a estréia do Brasil na Copa do Mundo 2006. Em alguns pedaços da minha rua, tirinhas verdes e amarelas amarradas a barbante como rabiolas disputavam irregularmente o espaço aéreo com fios elétricos clandestinos. Patriotismo e Malandragem a céu aberto; elementos que aliados ao sincretismo religioso que nos acomete sempre que chuteiras acetinadas feitas sob encomenda por grandes corporações passam a representar o que há de mais sagrado no pé de um moleque ralado em asfalto, cheio de ceroto e sede; formam a santíssima trindade de nosso futebol. Melhor dizendo, de quem torce por ele.

O dia tinha cara de jogo mesmo, de final de campeonato, bandeiras desde cedo, um sol de rachar, e uma sensação esquisita de domingo eterno em plena terça-feira, como uma terça-feira gorda que mesmo longe do Carnaval nos dá a licença para a putaria sem culpa, um País de Cocagne para cada esquina. Tudo pode; nada acaba. Nem essa bosta de aula, era preciso comprar gelo urgentemente, e Paulo Freire não poderia me ajudar. Parecia tarde, mas o professor dispensou a turma cedo. Às onze e pouco da manhã, a cidade já havia se transformado. O que antes era apenas o prenúncio de toda a desordem que se pode aceitar socialmente, agora acabava de se confirmar. Manaus, de cabo a rabo, parecia um único e imenso arredor do Olímpico de Berlim, que fica no país imaginário da Alemanha.

Trânsito completamente engarrafado do Centro para os bairros – mas isso acontece todo dia, oras! –. Tudo bem, é verdade, o trânsito é sempre uma confusão, mas e o festival de buzinas? – algum dia foi diferente disso? – Não, é sempre assim mesmo. Será que Manaus vive um eterno pré-jogo? Foi então que me veio o estalo, aquela iluminação das coisas óbvias. O futebol, que numa Copa do Mundo chega a seu ponto máximo de representatividade, é apenas a desculpa perfeita, inegável, irrepreensível, pra essa bagunça, e que pode ser compartilhada simultaneamente por todos, e talvez por isso ele seja tão importante para nós, bons e malandramente patrióticos brasileiros. Analisando bem, o que acontece num dia de jogo do Brasil em Copa do Mundo é o que acontece todos os dias do ano em qualquer lugar, apenas levado quase ao extremo: gente saindo mais cedo do trabalho (ou faltando), bebendo em horário comercial, fazendo churrasco na calçada, grafitando logradouros, gritando no meio da rua, escutando samba em alto volume, e por aí vai.

A diferença é que existe uma espécie de acordo tácito entre os homens que os faz revezar nesse esquema. Se hoje faltou o fulano; espero até semana que vem pela minha vez. Hoje, nessa rua, só as casas ímpares podem fazer festa; amanhã, as pares. Dia de jogo é alforria, todos juntos podemos largar os compromissos mais cedo, gritar pelas ruas, sacros e incuravelmente bêbados. No mais, ninguém dá bandeira pra não mostrar que o que realmente une a nação não é o ideal patriótico da chuteira, mas a capacidade de nos convencermos de que isso é verdade, algo como aquele truque do diabo fingir que não existe. Acho que não seria um exagero dizer que o brasileiro torce apaixonadamente mesmo é contra a Argentina, porque se ela acabar com a nossa hegemonia vai melar todo o esquema.

Finalmente cheguei na casa do Pablo. Oito caixas de cerveja e duas garrafas de vodka, churrasco, começamos os trabalhos logo. Faltavam três horas para o jogo, a grande estréia do Brasil contra a Croácia. No final das contas assisti ao único gol já no replay, mas tomei banho de mangueira na rua, gritei com todos os que passavam na frente da casa, xinguei o Parreira, e depois do jogo todos continuamos com a festa, depois de perder alguns minutos falando sobre como um a zero é muito pouco para essa seleção de grandes astros, enquanto rabiolas verde-amarelas balançavam sobre nossas cabeças, encobrindo o gato de energia que garantiu nossa transmissão do jogo, diretamente do país imaginário da Alemanha.

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