Os e-readers – como o iPad – vão acabar com o livro? De acordo com reportagem da última Bravo!, a chance disso acontecer é bem grande, mas porque ela toma como exemplo o que o iPod aliado à Internet fez com o CD e, nesse caso, se a raiz do argumento está sugando em solo errado, o fruto da discussão já nasce seco.
Particularmente, não acho que as coisas sejam tão simples. Vamos olhar com mais calma para a situação:
O iPod não está acabando com o CD, o mp3 talvez sim. Por quê? Porque é de graça pra todo mundo com uma conexão à Internet, possibilita aquisição irrestrita e quase imediata pra quem tem banda larga e não ocupa espaço físico perceptível, permitindo, portanto, que se tenha uma coleção de mais de mil álbuns no bolso da calça, acessíveis ao toque de um botão. Ou isso, ou apenas porque é de graça mesmo. O fato é que a Internet não mudou a música, apenas a forma como ela é distribuída, sua indústria. Não existe um gênero pós-Internet. A tecnologia digital facilitou o acesso à produção, distribuição e aquisição, mas tampouco criou gêneros – nem a música eletrônica veio da revolução digital, apenas foi banalizada por ela.
O texto, por outro lado, se alterou completamente ao ser levado para a Internet. Mudou até de nome: virou hipertexto, ganhou uma dinâmica diferente porque pode ser editado a cada acesso e é permeado por links que levam a outros textos, ou a vídeos, a fotos, a sites de referência e por aí afora ou adentro. Também mudou porque deve ser necessariamente curto, conciso e extremamente claro. Isso ocorre por pelo menos duas razões imediatas:
(1) O texto concorre o tempo todo com outras informações, de propagandas a gráficos de suporte, passando por animações, links e todas as demais janelas que um sistema multioperacional oferece a um usuário multioperacional de computador; e
(2) é preciso muito esforço para se ler numa tela, mesmo que essa tela possa ser levada para o sofá, para a cama, para a parada de ônibus ou para dentro do avião, pois:
(2.1) Para a minha geração, a última que viveu ainda sem computador e Internet por tempo considerável, a luz cansa demais os olhos se o texto possuir mais de, sei lá, 800 linhas;
(2.2) Para a geração posterior, que já aprendeu a ler na tela do computador, o esforço continuaria grande não por conta da falta de costume à luz, mas porque ela não aprendeu a ler algo com mais de 800 linhas no meio de tantas informações em formatos às vezes mais sedutores presentes no hipertexto. E isso não tem nada de errado essencialmente: a cada tempo corresponde uma tecnologia, e a cada tecnologia, uma percepção.
Então o problema é outro: o hipertexto vai acabar com o texto? Vai torná-lo desnecessário? Porque já vimos que não faz sentido o texto entrar num e-reader como a música entra num iPod. A bibliografia da humanidade não será apagada, obviamente, mas terá que ser completamente reeditada como hipertexto para ser interessante às gerações futuras? A produção literária daqui pra frente será apenas em hipertexto? Finalmente: ler será desnecessário? – pergunto isso porque o contato com o hipertexto é uma experiência diferente, essencialmente audiovisual, não é a leitura como a conhecemos.
Estou insistindo nesse ponto porque é preciso separar bem a experiência musical da experiência da leitura. A música não foi destruída pelo mp3, apenas o CD; no caso do texto, por conta de suas características essenciais, sua passagem incólume ao mundo digital é impossível, ou inútil na melhor das hipóteses – convenhamos, se a única vantagem de se digitalizar um livro, pura e simplesmente digitalizá-lo, é economia de espaço e de árvores, isso só será interessante como arquivo patrimonial macro. Para que o texto continue a valer de algo no mundo digital, é preciso que ele se torne outra coisa.
Aí chegamos a um ponto chave: se o texto do livro tal como o conhecemos não faz sentido – se apenas digitalizado – dentro de um e-reader, então:
(1) interessará à indústria reformular todo o nosso cânone literário? O que ficar de fora será esquecido e deixado fora de catálogo por ela? E se a resposta for sim, quanto tempo levaria esse processo, entre curadorias, reformulações e questões jurídicas de direito autoral? Porque:
(2) interessará ao novo (ou futuro) consumidor adquirir um arquivo digital, ainda que a um preço mais baixo, que é apenas a cópia de algo que esse próprio consumidor considera obsoleto não apenas como formato, mas como gênero artístico?
Voltamos ao que realmente está em jogo:
O texto – não o livro – vai se tornar desnecessário?
Isso é diferente porque se considerarmos que apenas o livro se tornará obsoleto, mas não o texto que ele transporta, estamos dizendo que minha geração vai se acostumar à luz da tela e abandonar o papel, porque é o que os novos tempos exigem; mas que as gerações futuras, ao contrário, vão se acostumar aos textos de “antigamente” porque é isso que a indústria vai oferecer. Meio paradoxal, não?
A outra opção, a de que é o texto que se tornará desnecessário frente ao hipertexto, por sua vez, implica um problema bem maior que o de uma mera troca de formatos: um gênero necessariamente destrói outro para se firmar? O cinema vai acabar ainda com o teatro? A teledramaturgia ainda vai acabar com o cinema? O vídeo caseiro do youtube e o vídeo HD do Spielberg vão acabar com a televisão e com o cinema com uma paulada só? Aí ninguém se arrisca a ter tantas certezas…
Para terminar, há ainda um outro dado sobre essa revolução digital que nos interessa aqui. O iPod, bem como os demais tocadores de mp3, foram a resposta de uma parte da indústria a uma demanda evidente e em franco crescimento, pois foram os usuários de internet e da tecnologia p2p que fizeram a revolução, a troca do CD pelo mp3, e as empresas tiveram que se adaptar. Agora pense no que está acontecendo com os livros: como está a distribuição de arquivos digitais de livros em torrent? Quantas pessoas que você conhece estão digitalizando seus livros e disponibilizando-os na Internet? Quantos sites de distribuição de literatura independente estão aparecendo por aí, deixando livros de novos autores com download gratuito? Se o processo de digitalização que ocorreu com a música é o mesmo processo por que passará o texto, tudo isso já não deveria estar acontecendo num ritmo bem mais acelerado?
No caso do livro, estão criando os aparelhos antes: kindles, nooks e iPads, e isso faz toda a diferença para um tipo de consumidor que, nesse âmbito específico do mundo digital, sempre se mostrou bastante avesso à qualquer tipo de imposição mais evidente.


















