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Os e-readers – como o iPad – vão acabar com o livro? De acordo com reportagem da última Bravo!, a chance disso acontecer é bem grande, mas porque ela toma como exemplo o que o iPod aliado à Internet fez com o CD e, nesse caso, se a raiz do argumento está sugando em solo errado, o fruto da discussão já nasce seco.

Particularmente, não acho que as coisas sejam tão simples. Vamos olhar com mais calma para a situação:

O iPod não está acabando com o CD, o mp3 talvez sim. Por quê? Porque é de graça pra todo mundo com uma conexão à Internet, possibilita aquisição irrestrita e quase imediata pra quem tem banda larga e não ocupa espaço físico perceptível, permitindo, portanto, que se tenha uma coleção de mais de mil álbuns no bolso da calça, acessíveis ao toque de um botão. Ou isso, ou apenas porque é de graça mesmo. O fato é que a Internet não mudou a música, apenas a forma como ela é distribuída, sua indústria. Não existe um gênero pós-Internet. A tecnologia digital facilitou o acesso à produção, distribuição e aquisição, mas tampouco criou gêneros – nem a música eletrônica veio da revolução digital, apenas foi banalizada por ela.

O texto, por outro lado, se alterou completamente ao ser levado para a Internet. Mudou até de nome: virou hipertexto, ganhou uma dinâmica diferente porque pode ser editado a cada acesso e é permeado por links que levam a outros textos, ou a vídeos, a fotos, a sites de referência e por aí afora ou adentro. Também mudou porque deve ser necessariamente curto, conciso e extremamente claro. Isso ocorre por pelo menos duas razões imediatas:

(1) O texto concorre o tempo todo com outras informações, de propagandas a gráficos de suporte, passando por animações, links e todas as demais janelas que um sistema multioperacional oferece a um usuário multioperacional de computador; e

(2) é preciso muito esforço para se ler numa tela, mesmo que essa tela possa ser levada para o sofá, para a cama, para a parada de ônibus ou para dentro do avião, pois:

(2.1) Para a minha geração, a última que viveu ainda sem computador e Internet por tempo considerável, a luz cansa demais os olhos se o texto possuir mais de, sei lá, 800 linhas;

(2.2) Para a geração posterior, que já aprendeu a ler na tela do computador, o esforço continuaria grande não por conta da falta de costume à luz, mas porque ela não aprendeu a ler algo com mais de 800 linhas no meio de tantas informações em formatos às vezes mais sedutores presentes no hipertexto. E isso não tem nada de errado essencialmente: a cada tempo corresponde uma tecnologia, e a cada tecnologia, uma percepção.

Então o problema é outro: o hipertexto vai acabar com o texto? Vai torná-lo desnecessário? Porque já vimos que não faz sentido o texto entrar num e-reader como a música entra num iPod. A bibliografia da humanidade não será apagada, obviamente, mas terá que ser completamente reeditada como hipertexto para ser interessante às gerações futuras? A produção literária daqui pra frente será apenas em hipertexto? Finalmente: ler será desnecessário? – pergunto isso porque o contato com o hipertexto é uma experiência diferente, essencialmente audiovisual, não é a leitura como a conhecemos.

Estou insistindo nesse ponto porque é preciso separar bem a experiência musical da experiência da leitura. A música não foi destruída pelo mp3, apenas o CD; no caso do texto, por conta de suas características essenciais, sua passagem incólume ao mundo digital é impossível, ou inútil na melhor das hipóteses – convenhamos, se a única vantagem de se digitalizar um livro, pura e simplesmente digitalizá-lo, é economia de espaço e de árvores, isso só será interessante como arquivo patrimonial macro. Para que o texto continue a valer de algo no mundo digital, é preciso que ele se torne outra coisa.

Aí chegamos a um ponto chave: se o texto do livro tal como o conhecemos não faz sentido – se apenas digitalizado – dentro de um e-reader, então:

(1) interessará à indústria reformular todo o nosso cânone literário? O que ficar de fora será esquecido e deixado fora de catálogo por ela? E se a resposta for sim, quanto tempo levaria esse processo, entre curadorias, reformulações e questões jurídicas de direito autoral? Porque:

(2) interessará ao novo (ou futuro) consumidor adquirir um arquivo digital, ainda que a um preço mais baixo, que é apenas a cópia de algo que esse próprio consumidor considera obsoleto não apenas como formato, mas como gênero artístico?

Voltamos ao que realmente está em jogo:

O texto – não o livro – vai se tornar desnecessário?

Isso é diferente porque se considerarmos que apenas o livro se tornará obsoleto, mas não o texto que ele transporta, estamos dizendo que minha geração vai se acostumar à luz da tela e abandonar o papel, porque é o que os novos tempos exigem; mas que as gerações futuras, ao contrário, vão se acostumar aos textos de “antigamente” porque é isso que a indústria vai oferecer. Meio paradoxal, não?

A outra opção, a de que é o texto que se tornará desnecessário frente ao hipertexto, por sua vez, implica um problema bem maior que o de uma mera troca de formatos: um gênero necessariamente destrói outro para se firmar? O cinema vai acabar ainda com o teatro? A teledramaturgia ainda vai acabar com o cinema? O vídeo caseiro do youtube e o vídeo HD do Spielberg vão acabar com a televisão e com o cinema com uma paulada só? Aí ninguém se arrisca a ter tantas certezas…

Para terminar, há ainda um outro dado sobre essa revolução digital que nos interessa aqui. O iPod, bem como os demais tocadores de mp3, foram a resposta de uma parte da indústria a uma demanda evidente e em franco crescimento, pois foram os usuários de internet e da tecnologia p2p que fizeram a revolução, a troca do CD pelo mp3, e as empresas tiveram que se adaptar. Agora pense no que está acontecendo com os livros: como está a distribuição de arquivos digitais de livros em torrent? Quantas pessoas que você conhece estão digitalizando seus livros e disponibilizando-os na Internet? Quantos sites de distribuição de literatura independente estão aparecendo por aí, deixando livros de novos autores com download gratuito? Se o processo de digitalização que ocorreu com a música é o mesmo processo por que passará o texto, tudo isso já não deveria estar acontecendo num ritmo bem mais acelerado?

No caso do livro, estão criando os aparelhos antes: kindles, nooks e iPads, e isso faz toda a diferença para um tipo de consumidor que, nesse âmbito específico do mundo digital, sempre se mostrou bastante avesso à qualquer tipo de imposição mais evidente.

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Meus dez discos favoritos de todos os tempos. Não consegui estabelecer uma ordem entre eles, a não ser o primeiro lugar, que vai indiscutivelmente para o Goo, do Sonic Youth. Todos os demais estão em segundo.

Obs.: Favor não plastificar a página.

Goo – Sonic Youth.

Meu primeiro contato com o Sonic Youth veio com o álbum Dirty, mais precisamente com “100%” na MTV. Os três acordes não eram punk; o gorro e a camisa xadrez não eram grunge; a sujeira e o peso não eram agressividade, mas uma névoa de tristeza sem causa que aos poucos nos tomava. Depois fui atrás de tudo o mais da banda. Tinha ido morar com uma tia em Nova Jersey, aos 15 anos, o que facilitou – e muito – essa busca, numa época sem internet e peer to peer. Goo se entranhou em tudo o que via, ouvia e tocava. Tunic era cinza e galhos pretos em lupas de gelo. Caminhava pelos corredores da escola com Kool Thing, e o burburinho e gritos soltos e portas de armário se fechando ainda parecem parte da música. Dirty Boots esperava o ônibus amarelo numa esquina, mochila num dos ombros, boné do Pantera. E Disappearer apagava a luz até de manhã.

John Coltrane – A Love Supreme


Comprei o CD. Depois baixei-o em mp3.  Depois comprei o vinil. Minha música preferida de Coltrane não está nesse disco, mas A Love Supreme é um tipo de experiência musical mais urgente, primitiva e irracional por que todos deveriam passar pelo menos uma vez nessa vida. Com idas e vindas de oitavas, frases recorrentes, ritmo hipnótico e o tempo desfragmentado que o modalismo evoca, o disco parece ser um exercício de subversão do tempo-espaço. Coltrane parece querer ocupar todos os lugares ao mesmo tempo, o que quer dizer transformar todos os lugares num lugar apenas, todos os tempos num tempo apenas. Uma essência, um grão, a onipresença que acreditamos divina.

Broken Social Scene – Broken Social Scene


Demorei muito a escutar Broken Social Scene. Acho que nada produzido neste século chega perto desse disco. É uma outra noção de música: às vezes parece que a canção nunca começa, uma sensação de que algo grande está para acontecer, mas vem o silêncio e você descobre que justamente aquela espera, aquela INCONCLUSÃO, era o grande acontecimento; às vezes parece que várias canções vão brotando de cada aresta melódica e que os músicos vão sendo tragados por esse movimento sem saber realmente para onde estão indo, mas sem medo de se perder. São tantos detalhes, tantas texturas e sobreposições que essa ideia que o disco passa de acaso e de instinto na construção das canções são um dos mais belos mistérios para os ouvidos na história recente da música.

Tom Waits – The Heart of Saturday Night


Não é para ser ouvido no calor. Sua venda é proibida em Manaus. Neon no horizonte, sarjetas, bourbon, piano nos dedos, cigarro na boca, edifícios de pedra, voz rouca como símbolo de invernos e de ressacas. Pode ter sido feito em Los Angeles, mas esse blues pertence a Nova Iorque. Não se pode suar nesse universo, a não ser se for comendo aquela garçonete do Munson Diner, a quem dedicaste alguns versos durante um longo café às quatro e meia.

Além do mais, o disco ainda tem a segunda frase mais blueseira de todos os tempos: “Two dead ends and you still got to choose” (Fumblin‘ With The Blues). A primeira pertence a B.B. King: “Nobody loves me like my mother… and she could be jiving too”.

The Pharcyde – Bizarre Ride II


Não consigo ouvir o refrão de Soul Flower e continuar parado. Muito humor, batidas chapadas, um pezinho no jazz, outro no soul, outro (?) na jaca. Animou muita festa de branquelos americanos em Paris no fim dos anos 90, ao lado de Digable Planets, A Tribe Called Quest, People Under The Stairs, Da Coup, The Roots, Pete Rock & C.L. Smooth e outros grupos alternativos de rap. Pedras marroquinas, longos cachimbos, garrafas de vinho barato e um pacote úmido de West Virginia completavam a noite.

Dinosaur Jr. – You‘re Living All Over Me


J Mascis era O cara na minha adolescência: guitarrista, letrista e compositor da Dinosaur Jr, banda que fazia a molecada correr atrás de CDs piratas, gravações de shows, cartazes e tudo o mais. Lembro de ficar economizando uma grana para torrar numa feira só de artigos relacionados com música que passava de vez em quando por Nova Jersey. Vários estandes se espalhavam por um imenso gramado, onde sobreviventes de woodstock, nerds e demais outsiders vendiam toda espécie de memorabília musical, além de discos e mais discos, edições especiais, cds piratas de shows, etc. Comprávamos tudo o que encontrávamos do Dinosaur Jr.

Little Fury Things e In a Jar, duas de minhas preferidas, estão neste disco.

Led Zeppelin – Led Zeppelin III


Minha mãe tinha uma loja de sapatos e uma cliente compulsiva que tinha uma loja (bem ruinzinha) de discos. Certa vez, para pagar uma dívida de sandálias e cintos, ela disse a minha mãe para passar por lá e levar o que quisesse. Minha mãe me levou para ajudar. Na época ouvia quase que exclusivamente AC/DC. Queria largar Iron Maiden, estava proibido de pegar o LP do King Diamond de volta depois que minha mãe o confiscara, cansada de meus pesadelos com Abigail. Então lá estavam eles, a trinca. Led Zeppelin I, II e III. Peguei todos, fiquei mais com o III. Since I‘ve Been Loving You e Tangerine estavam lá, e um mundo totalmente novo.

Novos Baianos – Novos Baianos F.C.


A Tropicalia pode ter dado a ideia, mas quem conseguiu transformar a guitarra num instrumento legitimamente brasileiro foi Pepeu Gomes e turma. Não é samba, não é rock, não é jazz, é alguma coisa no meio testando as beiradas. Pra mim, esses hippies doidões foram os grandes gênios da música brasileira.

Pago pau pra Pepeu.

Oscar Peterson – Night Train


Foi o disco que me levou ao jazz. Acho que o trio de piano, baixo e bateria é a formação ideal por meio da qual se pode adentrar por esse mundo de melodias e harmonias complexas e menos óbvias do jazz, sem que se sofra um grande choque. Dentro dessa formação, esse disco bem blueseiro de Oscar Peterson faz esse trânsito de maneira mais agradável ainda.

Wilco – Sky Blue Sky


Esse é o disco que eu gostaria de ter feito. A cada solo de guitarra, a cada linha de piano, a cada harmônica vocal, a cada pausa, tenho a plena consciência de quem sou, da pele que me fronteiriza, da distância de meu horizonte. A cada segundo reconheço os meus limites.

Escutar Sky Blue Sky é exercitar a sensação do Sublime, que não é a coisa, como muitos pensam, mas algo que porventura se sente diante da coisa  (o disco não pode ser sublime, mas pode gerar em mim a sensação do sublime). Quando ficamos, por exemplo, diante de uma bela e enorme obra arquitetônica e sentimos um engrandecimento orgulhoso pelo “tamanho” da beleza que o homem é capaz de produzir, ao mesmo tempo em que nos vemos tão pequenos diante daquilo, tão insignificantes aos seus pés, experimentamos essa sensação de que falo. Esse paradoxo de ser grande e ínfimo ao mesmo tempo.

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15 de Janeiro. 20h. Ingresso comprado.

Aqui em baixo:

Junior Mance tocou com Charlie Parker, Dizzie Gillespie, Cannonball Adderley e Coleman Hawkins antes de começar a montar seus próprios grupos, a partir da década de 60.

No vídeo lá de cima (ignorem o clipe), ele mostra sua versão de uma música que, para mim, é uma das mais belas composições da história da humanidade.

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A_GENTE_CAPA

A_GENTE_CONTRACAPA

Está aí o novo EP do Carroça. Clique aqui para baixá-lo na íntegra, com capa, contracapa e encarte com letras. Para ouvir as músicas em streaming, utilize os tocadores abaixo:

01 A Gente

02 Bird

03 Eclipse

04 Wes

05 Goma

06 Poeira

07 Açúcar

nota de esclarecimento: o Controle Gabiru Discos é um selo independente e imaginário, como grande parte dos meus amigos e das coisas que acho que fiz ou que comi.

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Não conhecia o pintor Pierre Soulage, mas ao ler uma pequena entrevista concedida a Philippe Dagen, no Le Monde (no. 3181), por conta de uma exposição em cartaz no Centre Pompidou até março, fui procurar seus trabalhos pela Internet.

Me interessei porque o cara vai direto ao ponto, sem as afetações e viagens características do povo ultramoderno e arrogante do mundinho das artes. Entrevistas com artistas normalmente são uma porcaria, especialmente em jornais impressos, primeiro porque não há muito espaço na página e segundo porque artistas raramente conseguem ser sintéticos quando o assunto são eles mesmos.

Traduzi dois trechos a seguir:

Enfocando as obras de 1946-1947, os curadores da exposição tornaram a singularidade desses trabalhos ainda mais evidente. Você poderia explicar essa singularidade hoje em dia?

Simplesmente, comecei a pintar por mim mesmo, com o que mais gostava, com a cor e os ritmos de que gostava, com a disposição das formas que me interessavam. É verdade que eu estava um tanto isolado; na França, fora Picabia, Pevsner, Hartung e Roberta Gonzales, não havia muito mais que interessasse ao que eu estava fazendo. Naquele momento, em 1946, a maior parte dos pintores experimentavam a pintura de suas emoções, uma forma de expressionismo. Eles queriam que houvesse um sentido para suas telas. Mas o sentido não é dado definitivamente: ele se faz e se desfaz… lembro-me de uma visita ao Louvre, naquele tempo. Uma obra mesopotâmica me fez parar; e me perguntei o por quê.

Que relação eu tinha com o homem que fez aquilo? Nenhuma. O que ela significava para os seus contemporâneos, em relação à cultura, religião ou ordem social de então? Não sabia. O sentido que ela possuía naquela época me é irrecuperável, e isso na verdade não tem importância. Então, o que acontece? Aquela escultura de basalto negro era uma coisa, e não um signo. Aquela escultura ia muito mais longe que um signo e mobilizava em mim, algo meu. Ela não era, portanto, redutível a um sentido ou a palavras. Uma obra… não são palavras: se queremos palavras, escrevemos, não pintamos. A pintura não está lá para dizer.

Nem para ser dita…

Não. Certo dia, Nathalie Sarraute me escreveu, numa carta, que as palavras não podem penetrar numa pintura. Concordo com ela. No mais, se a pintura for uma questão de sentido, quando esse sentido passar podemos jogá-la no lixo, não? Como um telegrama lido…

(…)

soulage

O senhor pendurou telas negras numa sala sem muita luminosidade…

Para mostrar que é preciso ver com os olhos, não com o que temos na cabeça. Para preparar os visitantes ao que eles verão em seguida. Para que eles sintam, como eu, que a luz é de uma riqueza inimaginável. A luz se fragmenta, se cadencia, se modifica. É incrível o que podemos fazer com ela, sempre surgem novas possibilidades.

soulage_2

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me meti a besta de fazer uma tradução e caí logo num conto sem pé nem cabeça porque não é conto, nem poema e quer ser toda a literatura. Pé frio, cabeça quente, na primeira parte já me esfolei. Segue Igitur ou La Folie d‘Elbehnon, de Mallarmé:

IGITUR

Igitur. Resíduo

A Loucura de Elbehnon

Estudo Antigo

——————

Ig.

——————

Quando os sopros de seus ancestrais querem soprar a vela, (graças a quem talvez ainda subsistam os Símbolos do livro de magia) – ele diz “Ainda não!”

Ele mesmo, no fim, quando os barulhos terão cessado, colherá um sinal de algo grande (nada de astros? O acaso anulado?) do simples fato de poder provocar a sombra soprando sobre a luz –

Depois – como ele terá falado de acordo com o absoluto – que nega a imortalidade, o absoluto haverá lá fora – lua pairada sobre o tempo: e ele erguerá as cortinas, no lado oposto.

——

Ig. ainda jovem, lê seu dever aos ancestrais.

1-2

[1] 4 Pedaços

1 – A Meia Noite

2 – A Escada

3 – O lance de dados

4 – O descanso sobre as cinzas, soprada a vela.

—-

Segue-se mais ou menos assim:

Soa a Meia Noite – a Meia Noite onde devem ser lançados os dados. Ig. desce as escadas, do juízo humano vai ao fundo das coisas: absoluto que é. Túmulos – cinzas, (nem sentimento, nem senso) neutralidade. Ele recita a predição e faz o gesto. Indiferença. Silvos na escada. “Errastes” nenhuma emoção. O infinito salta do acaso, que vós negáreis. Vós, matemáticos expirados – eu projetado absoluto. Eu deveria finar Infinito. Simplesmente palavra e gesto. Quanto ao que vos digo, para explicar minha vida. Nada sobrará de vós – O Infinito enfim livre da família que dele sofreu – espaço velho – nenhum [2] acaso. Ela teve razão em negar-lhe, – vida – para que ele tivesse sido o absoluto. Isso deveria acontecer nas combinações do Infinito face à face com o Absoluto. Necessário – extrair a Idéia. Loucura útil. Um dos atos do universo foi cometido aí. Nada mais, restava o sopro, fim de palavra e gesto unos – sopre a vela do ser, por quem tudo sido. Sinal.

(Investigar tudo isso)

Seguindo a tradição, o novo EP do Carroça sairá em janeiro próximo, mas o Controle Gabiru Discos foi gentilmente forçado a adiantar uma das canções do disco, que colocamos aqui como um single.

Bird (single)

Clique e ouça Bird:

Ah, sim… a capa é da Maria Cecília, que me cobrou um pedaço de chocolate.

ficha técnica: gravado no quartinho do computador, em agosto de 2009, pelo Controle Gabiru.
música: daniel valentim: guitarra, baixo, teclado e voz

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Jazz!

Não me atrevo a escrever tecnicamente sobre jazz, prefiro estar cambaleando incompleto naquele movimento entre ouvir e impregnar-se apenas; a encaixar grandes obras no cânone do pleonasmo teórico. Isso, ou desculpa de amarelo é febre: não falo porque não sei falar.

Não sei falar, por exemplo, sobre Charlie Parker, ou em que tempos e contratempos caem suas acentuações, ou sobre que intervalos de nota ele despeja sua melodia. Sei, por outro lado, que Charlie Parker não é pra dançar, e que ouvi-lo é como formular uma pergunta. Parker ganhou o apelido de Bird por seus voos imprevisíveis nos solos, mas quem perde o chão realmente é quem se arrisca a ouvi-lo.

Ko-Ko

Não compreendo Coltrane, mas uso Coltrane para preencher os cantos da sala, e fica difícil saber o que é nota e o que é eco, quem é a imagem e quem posso tocar. Coltrane sopra e se ocupa, se multiplica… mas é uma coisa só, aqui e ali. Uma névoa sempre perto, envolvente mas intocável.

Mr. Day

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Cari fottutissimi amici

Sou fã de road movies, do trânsito que eles evocam e que nos define, pois só nos resta a estrada e ela nunca chega aonde queremos porque querer é apenas lançar uma pedra para além dessa vista curta e ter uma direção e partir… irremediavelmente. Caros F… Amigos (Cari Fottutissimi Amici, 1994), do mestre Mário Monicelli, é meu favorito no gênero. Coloca em trânsito tanto a Itália quanto o cinema: no plano narrativo, um país no meio do caminho entre a fome numa guerra absurda chegando ao fim e um carregamento ilusório de batatas do Canadá a ser distribuído na relojoaria; no plano da linguagem, uma cinematografia entre o chão de De Sica e as nuvens de Fellini.

Pois é da realidade de extrema miséria e desilusão, da visão desbotada no pó de um mundo em ruínas, que Monicelli retira sua matéria onírica, a partir de uma ingenuidade e de um otimismo quase descabidos não fossem, fatalmente, a única saída possível para que as vidas de seus personagens continuem. Essa é a verdadeira fuga, o verdadeiro trânsito, o trânsito que prescinde de um destino exatamente porque o que se deseja é apenas continuar andando, essa é a fantasia que nos desloca e que nos aliena. É a estrada que nos resta.

Então um velho ex-boxeador, apelidado de Senhor Dez (Sor Dieci) porque sempre era levado a nocaute em suas lutas, resolve juntar uma trupe de largados dessa vida para promover pequenos campeonatos itinerantes de boxe pelas feiras de Florença, aproveitando-se do fato de que todos estavam em busca de diversão com o fim da guerra. Ao contrário do que acontecia antes, agora nada mais parece capaz de derrubar Dieci, o Dieci Quixote para quem tudo é uma experiência extraordinária, o Dieci que representa a leveza pregada por outro italiano, o Calvino, em suas propostas para o novo milênio. Sor Dieci está tão absorvido pela fantasia que num dado momento imita um galo, batendo os braços flexionados como asas e cacarejando, como forma de atrair uma galinha que eles tentavam pegar para fazer de almoço, e tudo faz parecer que isso seria a coisa mais normal do mundo a se fazer.

Não se trata, pois, de um tratamento visual que evoque o fantástico; longe disso, é a realidade que é absurda e insuportavelmente distorcida. A fantasia não vem em carro alegórico, mas nas sutilezas do cotidiano, num veludo quase translúcido envolvendo tudo e é preciso estar numa perspectiva exata de convergência de todos os dissabores e das amarguras e de todos os pães amassados dessa vida para que de repente se abra o olho e se comece a vê-lo. A leveza, ou fantasia, está no otimismo invencível de Dieci, na mulher do tiro ao alvo que dá em troca de berinjelas, no homem que perdeu a mulher e as botas e vai de bicicleta em busca de alguma delas, calçando folhas de figo que precisam ser umedecidas de tempos em tempos.

A fantasia está no boxe pela estrada no fim do filme; não no fim da estrada.

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Lá no Simão Pessoa, Aníbal está nu até onde se pode ver, e um pajé tukano com sua camisa de botão, e ambos estão mortos enquanto se tocam e se participam, porque a morte está amanhã e talvez eles saibam que há sempre uma maneira de esticar esse tempo, aproximar dois lugares e dois momentos e todos os lugares e todos os momentos porque o que define o tempo e o espaço deixa de ser o que se vê para ser o que se sente.

Então Aníbal com sua camisa de botão e o pajé tukano está nu e enquanto eles se tocam e se participam, há uma morte que os define e que ronda por todas as gentes que se desfazem e por todos os espaços que se sincronizam e por todos os tempos se sobrepõem. O pajé e o poeta, a imagem e a palavra: não a palavra que quer dizer a coisa, mas a palavra que É a coisa; não a imagem que representa um objeto, mas a imagem que É o objeto.

Enquanto eles estiverem mortos, pajé e poeta, 2006 esta madrugada.

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