Aviso!: Esse post é continuação deste

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Andei mergulhando um pouco mais nessa história de e-readers, e embora continue acreditando nas diferenças fundamentais entre o ingresso da música e o do texto nessa nova era digital, preciso rever algumas ideias que tinha sobre o mercado editorial.

Um fato me havia, então, escapado. Um fato que faz toda a diferença:

(1) Tecnologia pela tecnologia – O e-book tem realmente a vantagem de que sua compra e seu recebimento no leitor digital são coisas praticamente simultâneas, não há espera nem possibilidade de atraso por greve dos Correios, por exemplo. Bem, posso estar enganado, mas se você for a uma livraria e comprar um livro, a entrega do produto também é praticamente simultânea. Aliás, tirando o momento em que o caixa faz a leitura do código de barras, o livro nem sai da mão de seu futuro proprietário. Então, na realidade, essa vantagem do e-book não é sobre o livro, mas sobre o livro comprado via Internet. No Brasil, as principais livrarias na grande rede possuem um prazo de entrega de 2 a 5 dias úteis, normalmente; nada absurdo. Mas esse prazo pode se estender a seis ou oito semanas no caso de encomenda de um título importado menos óbvio ou muito técnico, segmentado. Esse livro importado, numa versão e-book, chegaria imediatamente à tela de seu e-reader, e sem pagamento de frete. Se levarmos em conta que essas grandes e tradicionais livrarias possuem um mínimo de know-how para manutenção de seus estoques totais (já que o site representa todas as filiais), não acredito que pedidos de livros importados que requeiram esse tipo de encomenda mais demorada representem um grande volume de vendas. Então, na verdade, o que está em jogo aqui é o consumo pela sedução tecnológica, pois sob esse ponto de vista, não há vantagem prática que justifique o abandono de um meio pelo outro – em larga escala –, apenas aquela velha máxima de McLuhan, “o meio é a mensagem”. O novo meio é a mensagem da vez.

(1.1) Mas há outra forma de se analisar esse mesmo exemplo: você prefere o e-book porque sim, porra, e ponto final. Exigir de alguém que se justifique por ter trocado o livro pelo e-book é absurdo. Como vimos no post anterior: para cada tempo há uma tecnologia; e para cada tecnologia, uma percepção.

Segundo reportagem do último Jornal da Globo (15/04), 600 mil e-books foram vendidos depois do lançamento do iPad, há pouco mais de uma semana, e-books que são cópias exatas de livros impressos (digitalização que chamei de, no mínimo, inútil), um número impressionante que obviamente não tem nenhuma relação com um repentino crescimento do gosto pela leitura. Compra-se o e-book porque se quer ver o iPad funcionando, para  que se teste suas possibilidades, não apenas no manuseio da obra, mas em todo o percurso de sua aquisição – porque o aparelho é um computador, não apenas um leitor digital. Acho difícil imaginar alguém comprando um iPad e pensando, “puxa, finalmente vou poder ter aquele e-book que sempre quis…”, fazendo as vendas estourarem.

A questão do preço do e-book tampouco é tão importante, quanto imaginei, para sua popularização repentina. Vi na mesma reportagem que os preços praticados nos Estados Unidos (de 5.99 a 7.99, em média) é exatamente o mesmo dos paperbacks, aqueles livros de bolso feitos com papel reciclado. Levando em consideração que as editoras americanas sempre lançam as principais obras de seu catálogo também nessa versão paperback, novamente temos que o preço não justificaria, em larga escala, a troca dos meios.

O preço do livro ao e-book não cai muito porque, na verdade, a parte gráfica e material do livro representa algo em torno de 5% do custo de produção. A editora continua precisando de gente para conferir os títulos, manter largura de banda em vez de transporte, e continua a ter que pagar direitos ao escritor, fazer eventos, divulgar a obra, manter escritórios, e ainda tem que pagar pelo seguro do arquivo (Digital Rights Management – DRM), exigido pelos fabricantes dos e-readers, etc. Trocando em miúdos – ou em bits –, alhos por bugalhos.

Se o livro vai ser vendido por quase o mesmo preço à livraria, vai custar quase o mesmo também para o consumidor final, pois as lojas vendem e cobram frete por fora, no fim do pedido, então não importa se o livro vai ser baixado ou se vai ser despachado, o preço do produto é quase o mesmo. A Cidade Ilhada, do Miltom Hatoum, por exemplo, sai por R$ 33 no papel, por R$ 24,50 em arquivo, ou por R$ 15 usado, em ótimo estado, num sebo via Estante Virtual. Leite Derramado, do Chico Buarque, sai por R$ 39 no papel, R$ 29 em arquivo, ou por R$ 16 usado, em ótimo estado, num sebo via Estante Virtual.

O que vale não é o preço nem a comodidade nem a economia de espaço físico. Isso é bobagem insustentável durante qualquer argumentação um pouco mais cuidadosa.

O que vale é apenas a tecnologia.

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Os e-readers – como o iPad – vão acabar com o livro? De acordo com reportagem da última Bravo!, a chance disso acontecer é bem grande, mas porque ela toma como exemplo o que o iPod aliado à Internet fez com o CD e, nesse caso, se a raiz do argumento está sugando em solo errado, o fruto da discussão já nasce seco.

Particularmente, não acho que as coisas sejam tão simples. Vamos olhar com mais calma para a situação:

O iPod não está acabando com o CD, o mp3 talvez sim. Por quê? Porque é de graça pra todo mundo com uma conexão à Internet, possibilita aquisição irrestrita e quase imediata pra quem tem banda larga e não ocupa espaço físico perceptível, permitindo, portanto, que se tenha uma coleção de mais de mil álbuns no bolso da calça, acessíveis ao toque de um botão. Ou isso, ou apenas porque é de graça mesmo. O fato é que a Internet não mudou a música, apenas a forma como ela é distribuída, sua indústria. Não existe um gênero pós-Internet. A tecnologia digital facilitou o acesso à produção, distribuição e aquisição, mas tampouco criou gêneros – nem a música eletrônica veio da revolução digital, apenas foi banalizada por ela.

O texto, por outro lado, se alterou completamente ao ser levado para a Internet. Mudou até de nome: virou hipertexto, ganhou uma dinâmica diferente porque pode ser editado a cada acesso e é permeado por links que levam a outros textos, ou a vídeos, a fotos, a sites de referência e por aí afora ou adentro. Também mudou porque deve ser necessariamente curto, conciso e extremamente claro. Isso ocorre por pelo menos duas razões imediatas:

(1) O texto concorre o tempo todo com outras informações, de propagandas a gráficos de suporte, passando por animações, links e todas as demais janelas que um sistema multioperacional oferece a um usuário multioperacional de computador; e

(2) é preciso muito esforço para se ler numa tela, mesmo que essa tela possa ser levada para o sofá, para a cama, para a parada de ônibus ou para dentro do avião, pois:

(2.1) Para a minha geração, a última que viveu ainda sem computador e Internet por tempo considerável, a luz cansa demais os olhos se o texto possuir mais de, sei lá, 800 linhas;

(2.2) Para a geração posterior, que já aprendeu a ler na tela do computador, o esforço continuaria grande não por conta da falta de costume à luz, mas porque ela não aprendeu a ler algo com mais de 800 linhas no meio de tantas informações em formatos às vezes mais sedutores presentes no hipertexto. E isso não tem nada de errado essencialmente: a cada tempo corresponde uma tecnologia, e a cada tecnologia, uma percepção.

Então o problema é outro: o hipertexto vai acabar com o texto? Vai torná-lo desnecessário? Porque já vimos que não faz sentido o texto entrar num e-reader como a música entra num iPod. A bibliografia da humanidade não será apagada, obviamente, mas terá que ser completamente reeditada como hipertexto para ser interessante às gerações futuras? A produção literária daqui pra frente será apenas em hipertexto? Finalmente: ler será desnecessário? – pergunto isso porque o contato com o hipertexto é uma experiência diferente, essencialmente audiovisual, não é a leitura como a conhecemos.

Estou insistindo nesse ponto porque é preciso separar bem a experiência musical da experiência da leitura. A música não foi destruída pelo mp3, apenas o CD; no caso do texto, por conta de suas características essenciais, sua passagem incólume ao mundo digital é impossível, ou inútil na melhor das hipóteses – convenhamos, se a única vantagem de se digitalizar um livro, pura e simplesmente digitalizá-lo, é economia de espaço e de árvores, isso só será interessante como arquivo patrimonial macro. Para que o texto continue a valer de algo no mundo digital, é preciso que ele se torne outra coisa.

Aí chegamos a um ponto chave: se o texto do livro tal como o conhecemos não faz sentido – se apenas digitalizado – dentro de um e-reader, então:

(1) interessará à indústria reformular todo o nosso cânone literário? O que ficar de fora será esquecido e deixado fora de catálogo por ela? E se a resposta for sim, quanto tempo levaria esse processo, entre curadorias, reformulações e questões jurídicas de direito autoral? Porque:

(2) interessará ao novo (ou futuro) consumidor adquirir um arquivo digital, ainda que a um preço mais baixo, que é apenas a cópia de algo que esse próprio consumidor considera obsoleto não apenas como formato, mas como gênero artístico?

Voltamos ao que realmente está em jogo:

O texto – não o livro – vai se tornar desnecessário?

Isso é diferente porque se considerarmos que apenas o livro se tornará obsoleto, mas não o texto que ele transporta, estamos dizendo que minha geração vai se acostumar à luz da tela e abandonar o papel, porque é o que os novos tempos exigem; mas que as gerações futuras, ao contrário, vão se acostumar aos textos de “antigamente” porque é isso que a indústria vai oferecer. Meio paradoxal, não?

A outra opção, a de que é o texto que se tornará desnecessário frente ao hipertexto, por sua vez, implica um problema bem maior que o de uma mera troca de formatos: um gênero necessariamente destrói outro para se firmar? O cinema vai acabar ainda com o teatro? A teledramaturgia ainda vai acabar com o cinema? O vídeo caseiro do youtube e o vídeo HD do Spielberg vão acabar com a televisão e com o cinema com uma paulada só? Aí ninguém se arrisca a ter tantas certezas…

Para terminar, há ainda um outro dado sobre essa revolução digital que nos interessa aqui. O iPod, bem como os demais tocadores de mp3, foram a resposta de uma parte da indústria a uma demanda evidente e em franco crescimento, pois foram os usuários de internet e da tecnologia p2p que fizeram a revolução, a troca do CD pelo mp3, e as empresas tiveram que se adaptar. Agora pense no que está acontecendo com os livros: como está a distribuição de arquivos digitais de livros em torrent? Quantas pessoas que você conhece estão digitalizando seus livros e disponibilizando-os na Internet? Quantos sites de distribuição de literatura independente estão aparecendo por aí, deixando livros de novos autores com download gratuito? Se o processo de digitalização que ocorreu com a música é o mesmo processo por que passará o texto, tudo isso já não deveria estar acontecendo num ritmo bem mais acelerado?

No caso do livro, estão criando os aparelhos antes: kindles, nooks e iPads, e isso faz toda a diferença para um tipo de consumidor que, nesse âmbito específico do mundo digital, sempre se mostrou bastante avesso à qualquer tipo de imposição mais evidente.

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Meus dez discos favoritos de todos os tempos. Não consegui estabelecer uma ordem entre eles, a não ser o primeiro lugar, que vai indiscutivelmente para o Goo, do Sonic Youth. Todos os demais estão em segundo.

Obs.: Favor não plastificar a página.

Goo – Sonic Youth.

Meu primeiro contato com o Sonic Youth veio com o álbum Dirty, mais precisamente com “100%” na MTV. Os três acordes não eram punk; o gorro e a camisa xadrez não eram grunge; a sujeira e o peso não eram agressividade, mas uma névoa de tristeza sem causa que aos poucos nos tomava. Depois fui atrás de tudo o mais da banda. Tinha ido morar com uma tia em Nova Jersey, aos 15 anos, o que facilitou – e muito – essa busca, numa época sem internet e peer to peer. Goo se entranhou em tudo o que via, ouvia e tocava. Tunic era cinza e galhos pretos em lupas de gelo. Caminhava pelos corredores da escola com Kool Thing, e o burburinho e gritos soltos e portas de armário se fechando ainda parecem parte da música. Dirty Boots esperava o ônibus amarelo numa esquina, mochila num dos ombros, boné do Pantera. E Disappearer apagava a luz até de manhã.

John Coltrane – A Love Supreme


Comprei o CD. Depois baixei-o em mp3.  Depois comprei o vinil. Minha música preferida de Coltrane não está nesse disco, mas A Love Supreme é um tipo de experiência musical mais urgente, primitiva e irracional por que todos deveriam passar pelo menos uma vez nessa vida. Com idas e vindas de oitavas, frases recorrentes, ritmo hipnótico e o tempo desfragmentado que o modalismo evoca, o disco parece ser um exercício de subversão do tempo-espaço. Coltrane parece querer ocupar todos os lugares ao mesmo tempo, o que quer dizer transformar todos os lugares num lugar apenas, todos os tempos num tempo apenas. Uma essência, um grão, a onipresença que acreditamos divina.

Broken Social Scene – Broken Social Scene


Demorei muito a escutar Broken Social Scene. Acho que nada produzido neste século chega perto desse disco. É uma outra noção de música: às vezes parece que a canção nunca começa, uma sensação de que algo grande está para acontecer, mas vem o silêncio e você descobre que justamente aquela espera, aquela INCONCLUSÃO, era o grande acontecimento; às vezes parece que várias canções vão brotando de cada aresta melódica e que os músicos vão sendo tragados por esse movimento sem saber realmente para onde estão indo, mas sem medo de se perder. São tantos detalhes, tantas texturas e sobreposições que essa ideia que o disco passa de acaso e de instinto na construção das canções são um dos mais belos mistérios para os ouvidos na história recente da música.

Tom Waits – The Heart of Saturday Night


Não é para ser ouvido no calor. Sua venda é proibida em Manaus. Neon no horizonte, sarjetas, bourbon, piano nos dedos, cigarro na boca, edifícios de pedra, voz rouca como símbolo de invernos e de ressacas. Pode ter sido feito em Los Angeles, mas esse blues pertence a Nova Iorque. Não se pode suar nesse universo, a não ser se for comendo aquela garçonete do Munson Diner, a quem dedicaste alguns versos durante um longo café às quatro e meia.

Além do mais, o disco ainda tem a segunda frase mais blueseira de todos os tempos: “Two dead ends and you still got to choose” (Fumblin‘ With The Blues). A primeira pertence a B.B. King: “Nobody loves me like my mother… and she could be jiving too”.

The Pharcyde – Bizarre Ride II


Não consigo ouvir o refrão de Soul Flower e continuar parado. Muito humor, batidas chapadas, um pezinho no jazz, outro no soul, outro (?) na jaca. Animou muita festa de branquelos americanos em Paris no fim dos anos 90, ao lado de Digable Planets, A Tribe Called Quest, People Under The Stairs, Da Coup, The Roots, Pete Rock & C.L. Smooth e outros grupos alternativos de rap. Pedras marroquinas, longos cachimbos, garrafas de vinho barato e um pacote úmido de West Virginia completavam a noite.

Dinosaur Jr. – You‘re Living All Over Me


J Mascis era O cara na minha adolescência: guitarrista, letrista e compositor da Dinosaur Jr, banda que fazia a molecada correr atrás de CDs piratas, gravações de shows, cartazes e tudo o mais. Lembro de ficar economizando uma grana para torrar numa feira só de artigos relacionados com música que passava de vez em quando por Nova Jersey. Vários estandes se espalhavam por um imenso gramado, onde sobreviventes de woodstock, nerds e demais outsiders vendiam toda espécie de memorabília musical, além de discos e mais discos, edições especiais, cds piratas de shows, etc. Comprávamos tudo o que encontrávamos do Dinosaur Jr.

Little Fury Things e In a Jar, duas de minhas preferidas, estão neste disco.

Led Zeppelin – Led Zeppelin III


Minha mãe tinha uma loja de sapatos e uma cliente compulsiva que tinha uma loja (bem ruinzinha) de discos. Certa vez, para pagar uma dívida de sandálias e cintos, ela disse a minha mãe para passar por lá e levar o que quisesse. Minha mãe me levou para ajudar. Na época ouvia quase que exclusivamente AC/DC. Queria largar Iron Maiden, estava proibido de pegar o LP do King Diamond de volta depois que minha mãe o confiscara, cansada de meus pesadelos com Abigail. Então lá estavam eles, a trinca. Led Zeppelin I, II e III. Peguei todos, fiquei mais com o III. Since I‘ve Been Loving You e Tangerine estavam lá, e um mundo totalmente novo.

Novos Baianos – Novos Baianos F.C.


A Tropicalia pode ter dado a ideia, mas quem conseguiu transformar a guitarra num instrumento legitimamente brasileiro foi Pepeu Gomes e turma. Não é samba, não é rock, não é jazz, é alguma coisa no meio testando as beiradas. Pra mim, esses hippies doidões foram os grandes gênios da música brasileira.

Pago pau pra Pepeu.

Oscar Peterson – Night Train


Foi o disco que me levou ao jazz. Acho que o trio de piano, baixo e bateria é a formação ideal por meio da qual se pode adentrar por esse mundo de melodias e harmonias complexas e menos óbvias do jazz, sem que se sofra um grande choque. Dentro dessa formação, esse disco bem blueseiro de Oscar Peterson faz esse trânsito de maneira mais agradável ainda.

Wilco – Sky Blue Sky


Esse é o disco que eu gostaria de ter feito. A cada solo de guitarra, a cada linha de piano, a cada harmônica vocal, a cada pausa, tenho a plena consciência de quem sou, da pele que me fronteiriza, da distância de meu horizonte. A cada segundo reconheço os meus limites.

Escutar Sky Blue Sky é exercitar a sensação do Sublime, que não é a coisa, como muitos pensam, mas algo que porventura se sente diante da coisa  (o disco não pode ser sublime, mas pode gerar em mim a sensação do sublime). Quando ficamos, por exemplo, diante de uma bela e enorme obra arquitetônica e sentimos um engrandecimento orgulhoso pelo “tamanho” da beleza que o homem é capaz de produzir, ao mesmo tempo em que nos vemos tão pequenos diante daquilo, tão insignificantes aos seus pés, experimentamos essa sensação de que falo. Esse paradoxo de ser grande e ínfimo ao mesmo tempo.

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15 de Janeiro. 20h. Ingresso comprado.

Aqui em baixo:

Junior Mance tocou com Charlie Parker, Dizzie Gillespie, Cannonball Adderley e Coleman Hawkins antes de começar a montar seus próprios grupos, a partir da década de 60.

No vídeo lá de cima (ignorem o clipe), ele mostra sua versão de uma música que, para mim, é uma das mais belas composições da história da humanidade.

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Passando pelo centro de Juiz de Fora, vi um sebo vendendo seu acervo por peso. “Livro a Kilo!”, dizia o anúncio. Dependendo da estante, os preços variavam de nove a vinte reais por quilo de livro. Sem querer, achei uma edição de 1924 de um guia turístico de Paris, “Paris et ses Environs – Les Guides Bleus”, devidamente arrematado por R$ 18.

Há uma introdução com aspirações meio literárias, resgatando os primórdios do gênero, que remontam ao livro “Tableau de Paris”, uma obra em 12 volumes. Um guia turístico em DOZE VOLUMES! Por curiosidade, fui atrás do tal livro e o encontrei para baixar. Mas onde quero chegar com toda essa história?

Bem, na página 71 do primeiro volume, encontrei um capítulo dedicado aos “Portadores de Água”, pessoas que retiram água do rio para vender aos moradores da capital francesa, que até então possuía um sistema de distribuição de água muito deficiente. Bem, são 20 mil desses profissionais circulando o dia inteiro pela cidade – para atender à toda a demanda – vendendo uma água que, segundo o autor do guia, relaxa o estômago. Quando o rio está com “problemas”, entretanto, ele pede que o turista acrescente uma colherinha de um bom vinagre branco em cada balde, para evitar possíveis diarreias.

Paris. Ano? 1781 (sim, o tal do Tableau foi editado e publicado em MIL, SETECENTOS E OITENTA E UM).

Manaus, a Paris dos Trópicos, igualzinha. Mas… em que ano estamos?

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O que devo pensar quando a rede balança sozinha, tufos de renda dedilhados e mudos nesse grande e inútil piano para o vento do oeste, ou para qualquer vento dessa grama fresca o zumbido não me alcança. Um velocípede rosa e seu pássaro no guidão, a coluna de tijolos polidos, quando acenderem as luzes de natal e for essa noite o que devo pensar?

Essa figura, esse mundo, essa paisagem que invento porque descubro, que crio porque entendo. Esse mundo está aí, como diria Cortázar, “da mesma forma como a água existe no oxigênio e no hidrogênio ou, ainda, como podemos encontrar nas páginas 78, 457, 3, 271, 688, 75 e 456 do Dicionário da Academia Espanhola tudo o que é necessário para escrever um certo undecassílabo de Garcilaso”.

O que devo pensar quando esses gritos e ralhos e coachos de bichos que não vejo se ocupam do vão da rede, das curvas e das tramas, e os arbustos de longe se desfazem numa revoada estrondosa de pássaros?

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Morar no Rio de Janeiro. Estudar Charlie Parker e Julio Cortázar. O espaço e o tempo dentro de uma valise de cronópio e do oco de um saxofone. Onde fico, duas oitavas faróis em cada beira de atlântico. Dois anos subindo e descendo a serra. o metrô. o bloco f. a página 214. três amores, vinte caixas, uma última olhada antes de fechar as janelas.

A qualquer momento terão decidido o portão. E sobrará aquele parafuso na sala.

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Wilco – Side With The Seeds (do imperdível disco Sky Blue Sky)

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A_GENTE_CAPA

A_GENTE_CONTRACAPA

Está aí o novo EP do Carroça. Clique aqui para baixá-lo na íntegra, com capa, contracapa e encarte com letras. Para ouvir as músicas em streaming, utilize os tocadores abaixo:

01 A Gente

02 Bird

03 Eclipse

04 Wes

05 Goma

06 Poeira

07 Açúcar

nota de esclarecimento: o Controle Gabiru Discos é um selo independente e imaginário, como grande parte dos meus amigos e das coisas que acho que fiz ou que comi.

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Não conhecia o pintor Pierre Soulage, mas ao ler uma pequena entrevista concedida a Philippe Dagen, no Le Monde (no. 3181), por conta de uma exposição em cartaz no Centre Pompidou até março, fui procurar seus trabalhos pela Internet.

Me interessei porque o cara vai direto ao ponto, sem as afetações e viagens características do povo ultramoderno e arrogante do mundinho das artes. Entrevistas com artistas normalmente são uma porcaria, especialmente em jornais impressos, primeiro porque não há muito espaço na página e segundo porque artistas raramente conseguem ser sintéticos quando o assunto são eles mesmos.

Traduzi dois trechos a seguir:

Enfocando as obras de 1946-1947, os curadores da exposição tornaram a singularidade desses trabalhos ainda mais evidente. Você poderia explicar essa singularidade hoje em dia?

Simplesmente, comecei a pintar por mim mesmo, com o que mais gostava, com a cor e os ritmos de que gostava, com a disposição das formas que me interessavam. É verdade que eu estava um tanto isolado; na França, fora Picabia, Pevsner, Hartung e Roberta Gonzales, não havia muito mais que interessasse ao que eu estava fazendo. Naquele momento, em 1946, a maior parte dos pintores experimentavam a pintura de suas emoções, uma forma de expressionismo. Eles queriam que houvesse um sentido para suas telas. Mas o sentido não é dado definitivamente: ele se faz e se desfaz… lembro-me de uma visita ao Louvre, naquele tempo. Uma obra mesopotâmica me fez parar; e me perguntei o por quê.

Que relação eu tinha com o homem que fez aquilo? Nenhuma. O que ela significava para os seus contemporâneos, em relação à cultura, religião ou ordem social de então? Não sabia. O sentido que ela possuía naquela época me é irrecuperável, e isso na verdade não tem importância. Então, o que acontece? Aquela escultura de basalto negro era uma coisa, e não um signo. Aquela escultura ia muito mais longe que um signo e mobilizava em mim, algo meu. Ela não era, portanto, redutível a um sentido ou a palavras. Uma obra… não são palavras: se queremos palavras, escrevemos, não pintamos. A pintura não está lá para dizer.

Nem para ser dita…

Não. Certo dia, Nathalie Sarraute me escreveu, numa carta, que as palavras não podem penetrar numa pintura. Concordo com ela. No mais, se a pintura for uma questão de sentido, quando esse sentido passar podemos jogá-la no lixo, não? Como um telegrama lido…

(…)

soulage

O senhor pendurou telas negras numa sala sem muita luminosidade…

Para mostrar que é preciso ver com os olhos, não com o que temos na cabeça. Para preparar os visitantes ao que eles verão em seguida. Para que eles sintam, como eu, que a luz é de uma riqueza inimaginável. A luz se fragmenta, se cadencia, se modifica. É incrível o que podemos fazer com ela, sempre surgem novas possibilidades.

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O Olho de Quem acaba de lançar uma grande campanha de utilidade privada:

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Fale Umas Verdades e seja processado pelo Fenômeno Xavier

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Fenômeno Xavier não existe, mas ainda assim é uma piada. E como todo personagem inventado que vira uma piada, tem o ego imenso e faz faculdade de direito.

Fenômeno Xavier jamais disse uma palavra, mas gosta dos chavões anacrônicos de autos processuais, que exibirá como vocabulário, orgulhoso, no dia em que finalmente chegar a esse mundo por meio de novas tecnologias cosmogônicas ou de um rabo de cometa.

Fenômeno Xavier, rábula barrigudo, caminha sobre o bulbo de um microfone de lá pra cá, daqui pra ali, em seu universo sozinho, aquele seu planeta de lá, onde ele é grande e o mundo é pequeno.

Fenômeno Xavier não existe. Mas diz a lenda que se mencionares o nome dele cinco vezes diante da tela de um computador com conexão à Internet, ele aparece e te processa.

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