Aviso!: Esse post é continuação deste
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Andei mergulhando um pouco mais nessa história de e-readers, e embora continue acreditando nas diferenças fundamentais entre o ingresso da música e o do texto nessa nova era digital, preciso rever algumas ideias que tinha sobre o mercado editorial.
Um fato me havia, então, escapado. Um fato que faz toda a diferença:
(1) Tecnologia pela tecnologia – O e-book tem realmente a vantagem de que sua compra e seu recebimento no leitor digital são coisas praticamente simultâneas, não há espera nem possibilidade de atraso por greve dos Correios, por exemplo. Bem, posso estar enganado, mas se você for a uma livraria e comprar um livro, a entrega do produto também é praticamente simultânea. Aliás, tirando o momento em que o caixa faz a leitura do código de barras, o livro nem sai da mão de seu futuro proprietário. Então, na realidade, essa vantagem do e-book não é sobre o livro, mas sobre o livro comprado via Internet. No Brasil, as principais livrarias na grande rede possuem um prazo de entrega de 2 a 5 dias úteis, normalmente; nada absurdo. Mas esse prazo pode se estender a seis ou oito semanas no caso de encomenda de um título importado menos óbvio ou muito técnico, segmentado. Esse livro importado, numa versão e-book, chegaria imediatamente à tela de seu e-reader, e sem pagamento de frete. Se levarmos em conta que essas grandes e tradicionais livrarias possuem um mínimo de know-how para manutenção de seus estoques totais (já que o site representa todas as filiais), não acredito que pedidos de livros importados que requeiram esse tipo de encomenda mais demorada representem um grande volume de vendas. Então, na verdade, o que está em jogo aqui é o consumo pela sedução tecnológica, pois sob esse ponto de vista, não há vantagem prática que justifique o abandono de um meio pelo outro – em larga escala –, apenas aquela velha máxima de McLuhan, “o meio é a mensagem”. O novo meio é a mensagem da vez.
(1.1) Mas há outra forma de se analisar esse mesmo exemplo: você prefere o e-book porque sim, porra, e ponto final. Exigir de alguém que se justifique por ter trocado o livro pelo e-book é absurdo. Como vimos no post anterior: para cada tempo há uma tecnologia; e para cada tecnologia, uma percepção.
Segundo reportagem do último Jornal da Globo (15/04), 600 mil e-books foram vendidos depois do lançamento do iPad, há pouco mais de uma semana, e-books que são cópias exatas de livros impressos (digitalização que chamei de, no mínimo, inútil), um número impressionante que obviamente não tem nenhuma relação com um repentino crescimento do gosto pela leitura. Compra-se o e-book porque se quer ver o iPad funcionando, para que se teste suas possibilidades, não apenas no manuseio da obra, mas em todo o percurso de sua aquisição – porque o aparelho é um computador, não apenas um leitor digital. Acho difícil imaginar alguém comprando um iPad e pensando, “puxa, finalmente vou poder ter aquele e-book que sempre quis…”, fazendo as vendas estourarem.
A questão do preço do e-book tampouco é tão importante, quanto imaginei, para sua popularização repentina. Vi na mesma reportagem que os preços praticados nos Estados Unidos (de 5.99 a 7.99, em média) é exatamente o mesmo dos paperbacks, aqueles livros de bolso feitos com papel reciclado. Levando em consideração que as editoras americanas sempre lançam as principais obras de seu catálogo também nessa versão paperback, novamente temos que o preço não justificaria, em larga escala, a troca dos meios.
O preço do livro ao e-book não cai muito porque, na verdade, a parte gráfica e material do livro representa algo em torno de 5% do custo de produção. A editora continua precisando de gente para conferir os títulos, manter largura de banda em vez de transporte, e continua a ter que pagar direitos ao escritor, fazer eventos, divulgar a obra, manter escritórios, e ainda tem que pagar pelo seguro do arquivo (Digital Rights Management – DRM), exigido pelos fabricantes dos e-readers, etc. Trocando em miúdos – ou em bits –, alhos por bugalhos.
Se o livro vai ser vendido por quase o mesmo preço à livraria, vai custar quase o mesmo também para o consumidor final, pois as lojas vendem e cobram frete por fora, no fim do pedido, então não importa se o livro vai ser baixado ou se vai ser despachado, o preço do produto é quase o mesmo. A Cidade Ilhada, do Miltom Hatoum, por exemplo, sai por R$ 33 no papel, por R$ 24,50 em arquivo, ou por R$ 15 usado, em ótimo estado, num sebo via Estante Virtual. Leite Derramado, do Chico Buarque, sai por R$ 39 no papel, R$ 29 em arquivo, ou por R$ 16 usado, em ótimo estado, num sebo via Estante Virtual.
O que vale não é o preço nem a comodidade nem a economia de espaço físico. Isso é bobagem insustentável durante qualquer argumentação um pouco mais cuidadosa.
O que vale é apenas a tecnologia.
















