Em Manaus as coisas funcionam assim: o que pode e o que não pode dependem de quem faz, não do que é feito. Sem participação de nenhuma esfera governamental, de nenhum político a espera de foto ou microfone, de nenhuma companhia telefônica, sem leque de papelão da Skol, sem estande colorido de Ice, o Grito Rock de Manaus não pode.

Roqueiros não são ninguém. Rappers não são ninguém. Duas mil pessoas debaixo de um viaduto comemorando, no mínimo do mínimo, a ânsia de ser jovem numa noite quente, não são ninguém. Não são ninguém porque não votam juntos e de mãos dadas rumo a essa vida besta, meu deus.

Quem não vota em massa e organizadamente não existe.

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O texto a seguir foi retirado do blog O Malfazejo, e republicado na íntegra:

Durante toda a semana passada, a cidade de Manaus assistiu a um dos mais agressivos ataques, por parte de um veículo de imprensa, à honra de uma pessoa comum, sem a possibilidade de defesa, sem o direito ao contraditório, sem a obediência aos princípios mais elementares do mais amador dos jornalismos. A rádio CBN de Manaus, afiliada do Sistema Globo, abriu campanha raivosa contra a médica Bianca Abinader, servidora concursada da Prefeitura de Manaus que dá expediente diário, há quase 3 anos, numa das unidades do programa Médico da Família.

Um repórter da rádio estacionou o carro da emissora a dois quarteirões do posto de saúde, aguardou que a médica deixasse o local, e invadiu a “casinha” (como são conhecidas as unidades do programa), perguntando “É aqui que trabalha a Dra. Bianca Abinader?”. O relato fiel do que ocorreu está neste texto. No dia seguinte, durante o programa CBN Manaus, o único produzido localmente pela emissora, aproximadamente às 8h15, o âncora da rádio, Ronaldo Tiradentes, veiculou a matéria, acusando a médica de faltar frequentemente ao trabalho, não atender os pacientes do posto, utilizar indevidamente sites de internet e de literalmente “contaminar a classe médica”.

Foram cerca de 5 minutos de “reportagem” e todo o resto da semana, até a quinta (7), de comentários agressivos contra Bianca, sem que a acusada tivesse sido ouvida. Pelo contrário, na visita ao posto, a emissora fez todo o esforço para esconder a identidade de seu repórter e a sua própria identidade. Procurar a médica acusada não estava nos planos da emissora, nunca esteve. Estava claro, pra pouquíssimas pessoas (o público usuário de internet de Manaus) que a missão da rádio era destruir a honra da médica.

Mas mentira tem perna curta. Todas as acusações foram derrubadas por documentos oficiaisapresentados pela médica, assinados por seus superiores. A rádio a acusava de faltar demais ao trabalho, não atender pacientes e de, veja só, interromper atendimentos para usar o Twitter. Bianca provou, com documentos assinados pela Prefeitura de Manaus, que não tem nenhuma falta injustificada, em 3 anos de trabalho.

Provou também que o ponto de partida da “reportagem”, sua saída do posto às 11h30 (meia hora antes do horário de almoço), era uma mentira. No horário em que o repórter descaracterizado da CBN interrogava funcionários da casinha, Bianca estava na presença de sua superior, apresentado relatórios de atendimento — portanto trabalhando.

Nenhuma das provas apresentadas pela médica em sua defesa foi exibida pela CBN. Arrancada de surpresa de sua vida diária e acusada publicamente de “contaminar” a classe médica local e de ser “gazeteira”, em nenhum momento a mortal Bianca foi procurada pela rádio, que todos os dias consegue entrevistar os dois homens mais importantes do Amazonas — institucionalmente falando, é bom dizer –, Eduardo Braga e seu vice, Omar Aziz, ambos em indisfarçada campanha eleitoral.

Ronaldo, que diz praticar jornalismo há 30 anos, ainda não aprendeu a profissão — eis aí um bom argumento para os defensores do diploma, afinal, Ronaldo nunca sentou num banco de faculdade de comunicação. Quando se produz uma reportagem tão grave, com acusações sobre a honra de alguém, procurar o acusado é obrigação do jornalista, e não o contrário.

Com Ronaldo parece ser o contrário:

  • Quando a esposa do deputado federal Sabino Castelo Branco, Vera Lúcia (ela própria deputada estadual) o acusou de espancamento em praça pública, a CBN Manaus conseguiu encontrar Sabino pra se defender. Vera Lúcia não foi procurada.
  • Quando o irmão de Omar Aziz invadiu a Universidade Federal do Amazonas e espancou um professor durante uma aula, a CBN Manaus abriu seus microfones para Omar se defender das acusações de pedofilia. Gilson Monteiro, o professor espancado em sala de aula, nunca foi procurado pela CBN.
  • Quando Carlos Souza, vice-prefeito de Manaus, foi acusado de pavimentar sua carreira política num programa de TV policialesco suspeitamente mantido com dinheiro público e do crime organizado, a CBN entrevistou Carlos Souza, e não os parentes das vítimas do programa Canal Livre.
  • Quando a Polícia Federal desbaratou uma quadrilha que roubou cerca de R$ 70 milhões em licitações no município de Coari, a CBN entrevistou, seguidas vezes, os acusados, que também respondem pelos crimes de pedofilia, homicídio, coação a testemunhas, formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, entre outros.

Com tanto talento e disposição para encontrar políticos de prestígio enrolados em crimes cabeludos, qual foi a dificuldade da CBN, então, para ouvir Bianca Abinader antes de levar a reportagem ao ar? Aqui pergunto: Há alguma chance de uma rádio que manda repórteres ‘descaracterizados’, saindo de carros estacionados a duas quadras do local da reportagem, esperando de campana a personagem principal de sua matéria sair do local, estar procurando a versão dessa personagem?

Uma lição básica de jornalismo como ouvir os dois lados da notícia deve ser o que difere, por exemplo, um Ronaldo Tiradentes de um Marcos Losekann, correspondente internacional da TV Globo. Antes de publicar no Jornal Nacional a reportagem em que contou a história do deputado acusado de falsificar seu diploma de segundo grau, Losekann procurou o acusado do crime pela Polícia Federal: Ronaldo Tiradentes. Afinal, o acusado precisava ser ouvido. E o que Ronaldo disse a Losekann? Que o delegado da PF, responsável pela investigação que caçava várias outras pessoas, estava querendo se promover às suas custas.

Tuiteiro durante 18 horas

Dias antes do ataque a Bianca, ainda em dezembro de 2009, o jornalista Ronaldo Tiradentes criou seu próprio perfil na rede Twitter. Seguia os passos de boa parte da cidade, e chegava saudando a nova ‘ferramenta democrática’. No rádio, no ar, brincava com seu parceiro de programa, Marcos Santos, dizendo esperar sugestões dos ouvintes para o seu perfil. “RonaldoTiradentes” era muito longo, e o radialista queria mudar isso.

Não deu tempo. No dia seguinte, depois de menos de 10 mensagens publicadas, Ronaldo abandonou a rede. Dizia haver muitos imbecis no Twitter, e que o ambiente ali estava muito pesado. O que se viu nos dias seguintes foi uma enxurrada de piadas sobre o ocorrido, algo parecido com o que ocorreu com a apresentadora Xuxa Meneghel.

Mas o que teria feito o ambiente ficar tão pesado para um jornalista com 30 anos de experiência nas costas? É simples: Essencialmente falando, Ronaldo não é jornalista. Um jornalista lidá bem com a contradição, e para quem já o assistiu no vídeo da agressão à secretária, fica fácil perceber que Ronaldo não tem a isenção mínima requerida para o exercício da profissão, tampouco o temperamento esperado para um âncora de nada menos que a rádio CBN, reconhecida pela qualidade de sua programação e pelo profissionalismo de sua equipe.

Assim que Ronaldo chegou ao Twitter, um blogueiro da cidade lhe recepcionou com alguns tweets direcionados, fazendo-lhe perguntas que já fizera em seu blog, mas que nunca tinham sido respondidas. A primeira pergunta foi sobre uma suposta perseguição a outra usuária de internet em Manaus, Carolina Coelho, fisioterapeuta que trabalha numa multinacional instalada na cidade. A pergunta era simples: “É verdade que você pediu a uma multinacional para demitir a funcionária Carolina Coelho? Por quê?”

Parece roteiro de filme de suspense adolescente, mas é verdade: Ronaldo Tiradentes, em pessoa, mandou carta — com o timbre e a marca da rede CBN — à diretoria da empresa onde Carolina trabalha, denunciando a moça por, anotem aí, “utilizar equipamentos da empresa para insultar a REDE DE RÁDIO E TELEVISÃO TIRADENTES LTDA.” E quais foram os insultos da moça à empresa? Está tudo registrado, ela se ocupou de cobrar as respostas do jornalista às perguntas feitas pelo blogueiro.

O próprio blogueiro, Ismael Benigno Neto, que assina nome e sobrenome, há 5 anos, no blog O Malfazejo, está sendo processado por Ronaldo Tiradentes por calúnia, injúria e difamação. Ronaldo, quem diria, utilizando equipamentos de sua empresa de rádio e tevê para fins pessoais, percorreu diversos fóruns da cidade de Manaus e protocolou o mesmo processo várias vezes, acusando Ismael de atacar a honra de sua família ao expor documentos oficiais (diários oficiais do Estado e do Município) que mostram empresas e parentes seus sendo beneficiados com cargos e contratos do poder público. É bom repetir, está tudo nos diários oficiais.

A 'ficha corrida' de Ismael Benigno, com 9 processos, todos de Ronaldo Tiradentes

Um desses contratos, entre a Prefeitura de Coari e a empresa AMZ Produções, previa o pagamento de R$ 4,3 milhões pelo aluguel de trios elétricos para a Prefeitura da terra do gás natural e do petróleo amazonense. Em 2007, Coari foi sacudida pela Operação Vorax, da Polícia Federal, que desbaratou uma quadrilha liderada pelo prefeito, Adail Pinheiro, e seus secretários. A AMZ pertence a Robson Tiradentes, irmão de Ronaldo. A licitação que daria à AMZ os tais R$ 4,3 milhões, pelo aluguel de trios elétricos no período de 5 meses, foi denunciada por outro blogueiro de Manaus, o jornalista Raimundo Holanda.

Coincidência das coincidências, mesmo sem citar o nome do proprietário da AMZ, Raimundo Holandadenunciou Ronaldo Tiradentes à polícia por ameaça de morte, meses antes, quando o radialista soube que o blogueiro vinha ligando para funcionários da empresa de rádio, colhendo informações sobre seus negócios. Com o nome da empresa AMZ em mãos, o blogueiro Ismael Benigno deu uma ‘googlada’ e chegou ao seu proprietário, Robson. Foi expor isso em seu blog, e uma caçamba de processos lhe caiu sobre a cabeça.

Agosto de 2008: O blogueiro Raimundo Holanda denuncia Ronaldo por ameaça de morte

Como se não bastasse a angústia de ver seu nome virar ‘ficha suja’ da noite pro dia, indo de nenhum processo para quase uma dezena, Ismael ainda precisou conviver, dentro de casa, com o medo de ser agredido. É que dias antes de xerocopiar seu processo diversas vezes e protocolá-lo como se fossem vários, Ronaldo escreveu um ‘post’ em seu blog, intitulado “Minha resposta ao blogueiro salafrário“. No texto, publicado também sob a marca CBN, Ronaldo deixava claro o que pretendia:

Não vou falar o nome dele. É tudo que ele quer. Ele morre de vontade de ser citado aqui para sair do porão e do esgoto onde mora e de onde exala sua catinga em forma de palavras ofensivas à honra alheia. Está habituado a atacar as pessoas de bem. Ingressei hoje com 14 ações na Justiça contra esse verme. Sete (07) representações criminais e sete (07) ações por danos morais. Vou preparar pelo menos outras 20. Vou dar a ele um pouco de trabalho, para que ele saia do ócio (bem remunerado).

carta inteira pode ser lida aqui, e nela o jornalista de 30 anos de estrada vai além:

(…) ele ataca tanta gente de bem que está morrendo de medo de levar uma boa surra (…) Salafrário, para que você fique morrendo de medo das pessoas de bem que você ataca, vou divulgar o seu endereço que está citado em todas as ações (que não estão em segredo de justiça) que ingressei na justiça contra você. O endereço é o seguinte: RUA 7, CASA 1, QUADRA 11, JARDIM DE VERSALHES – AJURICABA 2. É este o endereço que o oficial de justiça vai procurar o salafra. Aguarde.

Assinado: Ronaldo Tiradentes.

O endereço particular do blogueiro Ismael Benigno está exposto ao mundo inteiro desde o dia 28 de outubro de 2009, no site da CBN. Ismael mora com a esposa e um filho de 3 anos, e no dia seguinte precisou, com chave de fenda à mão, retirar da frente de sua casa a placa com o número do imóvel. 58 comentários foram publicados ao texto, invariavelmente atacando Ismael. Alguns, como o leitor “Policial militar”, dizem “Não sei quem é esse otário. JÁ To COM RAIVA DELE.” Eis alguns outros exemplos dos comentários direcionados ao blogueiro Ismael, publicados no site da CBN Manaus:

  • “pode ficar certo que esse rapaz que ataca os Poderes contituídos com seus comentários fantasmas não ficará sem a reprimenda.” – “Promotor de Justitia”, 28 de outubro, 20h50.
  • “Diga o nome desse ser desprezível. Quero saber quem é para dar uns bons (editado) na cara dele”. – “Leitor do Além”, 29 de outubro, 8h51.
  • “Não sei quem é esse otário. JÁ To COM RAIVA DELE.” – “Policial Militar”, 29 de outubro, 15h57.
  • “Dá-lhe peia, nesse arretado !!”.- “Justiça”, 29 de outubro, 15h54.
  • “Bote quente nesse (editado) Soube que ele gosta muito é de (editado)”. – “Roger”, 29 de outubro, 20h38.
  • “MANDA ESSE (editado) PRO INFERNO”. – “Marcelo Tayah”, 30 de outubro, 2h38.
  • “meta nele, sem dó Ronaldo. Ele é um desocupado, dê trabalho prá responder as ações e cadeia , prá ele dormir com Adail e Walace. Ele será a CARNE NOVA do xadrez. vai virar noiva no xilindró.” – ‘Príncipe das Trevas”, 30 de outubro, 10h14.
  • “Eu bem que avisei pra ele que vinha chumbo grosso” – “Mosca”, 30 de outubro, 13h40.
  • “BOTE QUENTE NESSE (editado)! ELE VAI VIRAR A NOIVA DO IPAT” – “Eu”, 30 de outubro, 18h56.
  • “Já tem leitor deste blog (…) que deseja aplicar uma boa surra no blogueiro.” – “João Filho”, 1 de novembro, 15h41.
  • “(…) VAI SUMIR DO MAPA” – “De longe”, 1 de novembro, 6h15.

No que em Manaus parece ser extrema ousadia de um provável suicida, Ismael assina seu blog, e durante os últimos anos tem escrito sobre os escândalos de corrupção e as malandragens dos políticos locais. Ciente de que fala para milhares de leitores e ouvintes, gente de todo tipo, Ronaldo vem expondo há 58 dias a família do blogueiro. Nem os apelos do próprio Ismael, pedindo a retirada de sua família da situação, foram suficientes para que Ronaldo desfizesse a agressão, que segue até hoje, 13 de janeiro.

Agressões e ameaças

No último dia 2 de dezembro, ainda em seu blog, Ismael Benigno expôs mais uma presepada de Ronaldo Tiradentes, a cara da Rádio CBN em Manaus. Após um cruzamento simples de dados de seus leitores, provou que um leitor chamado “OFICIAL DE JUSTIÇA”, que vinha lhe ameaçando diariamente, era o próprio Ronaldo. O radialista usava o próprio computador, um equipamento da empresa CBN Manaus, para intimidar o blogueiro. Abaixo, alguns dos comentários partidos do computador pessoal de Ronaldo Tiradentes, todos protegidos pelo anonimato:

  • “Patife, Você aprenderá agora a brincar com a honra alheia. Te prepara. O jogo está apenas começando. Até breve.” – “RT” – 14/Out – 22h20.
  • “Ô bobalhão, cadê a decisão que você menciona. Publique-a. Mentira pega mesmo. Passa através do saco. Essa decisão é tão verdadeira quanto aqueles reservatórios de agua e 38 km de tubulação que seu sogro inventou. Contrate um advogado melhor e espere as próximas 48 horas. Você vai precisar de bons advogados e tempo suficiente para se defender. Até lá vista!” – “RT” – 25/Out – 9h17
  • “E ai boquirroto, Tens diploma de curso superior, serás o verdadeiro colega do Adail, do Wallace e do Rafael. Terás muito tempo para ficar contando IPs, fazendo cruzamento de IPs. Já contabilizei 65 ações. Já tenho 14 intimações, virão mais 3 por semana. O jornal EM TEMPO DE ELEIÇÕES também está preparando uma tonelada. A rádio de Iranduba, aquela que se vende, também tá vindo ai com 23 ações. Acabou seu sossego. Prepare-se para as audiências diárias. Contrate a boa equipe de São Paulo. Quero ver você faltar uma audiência, vou lhe buscar debaixo de vara com o camburão. Se vc me encher mais o saco, vou arruamr advogado de graça prá todo mundo que você atacou. Serão 300 ações até o fim do ano. Durma em em paz, aliás, vá contar os IPs, aproveite para contar os anos de cadeia que você vai ter, seu FILHO DUMA PUTA. Se não publicar, já sei aonde vou publicar. A brincadeira só está começando” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 29/Out – 22h48
  • “QUE FIQUE REGISTRADO” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 29/Out – 22h58
  • “ESQUECI DE TE AVISAR: AS DEMAIS AÇÕES NÃO APARECERAM NO SITE DO TRIBUNAL PORQUE ELAS ESTÃO SENDO DIGITALIZADAS. DEMORA UM POUCO. FALTA GENTE SUFICIENTE PARA ESCANEAR TANTOS PROCESSOS. AGORA SIM. VÁ DURMAR, QUER DIZER, VÁ CONTAR IPs E FAZER POSTS COM CODINOMES. CHAME A CAROLINA E O ROMMEL, TÁ?” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 29/Out – 23h03
  • “VAGABUNDO, VC FICA VISITANDO O BLOG ALHEIO E NÃO SE ASSUME. ESCREVA AQUI, SEJA MACHO. ONTEM TEVE FESTA NO JUDICIÁRIO. CHEGOU A VEZ DA CAÇA!!!! KKKKKKKKKKKKKKK SEGURA PEAO… ESTOU CRUZANDO IPs. VOCÊ É O CAMPEÃO DE ACESSOS NO BLOG DO TEU ÍDOLO. O ADAIL E O WALLACE ESTÃO TE ESPERANDO PARA COMER UMA CALDERADA DE TAMBAQUI. BREVE” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 31/Out – 12h43
  • “TEVE FESTA NO JUDICIÁRIO. AGORA É A VEZ DA CAÇA. ISMAEL ESTÁ CONVIDADO PARA COMER UMA CALDERADA DE TAMBAQUI COM ADAIL E WALLACE. VAI VIRAR A NOIVA DO PEDAÇO. HUUUMMMMM QUE DELÍCIA. ESTAMOS TODOS ATRASADOS…….. QUER DIZER, ESTÁVAMOS….. CADÊ A SOLIDARIEDADE DO GECA, MR, ROGER WATERS, CAROLINA LEBRE, E OUTROS ISMAELS………..VAI TER FESTA NO IPAT//……….” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 31/Out – 12h50
  • “VAI TER FESTA NO IPAT. HEI …HEIIII HEII…..ISAMEL É O NOSSO REI, DIGO, RAINHA…. VAI COMER UMA CALDEIRADA COM ADAIL E WALLACE. VAI CONHECER O MANICÃO. VAI VIRAR NOIVA. TRAS A CAROLINA, A MOCRÉIA.” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 31/Out – 12h53
  • “A Carolina já tomou banho hoje?? Dizem que ela fede prá dedel. Gorda, suada tem mau hálito e ainda tem uma vasta cabeleira debaixo do suvaco. Ai que nojo!!! Carol, passe uma gillete nessa suvaqueira fedorenta.” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 2/Nov – 20h52

Deve ser aborrecido para os leitores desse blog, acostumado a temas mais elevados e de interesse nacional, ler o relato do que ocorre no distante Amazonas. Mas há um componente que merece ser levado em consideração: não estamos falando de uma rádio pirata, e sim da CBN. Não estamos falando de uma briga de vizinhos de condomínio, e sim da escancarada perseguição da CBN Manaus a pessoas que questionam seus métodos jornalísticos e, noutra dessas coincidências absurdas, entraram no rol de mais de 500 manauaras que se opuseram publicamente à taxa do lixo, recriada pela Prefeitura de Manaus e aprovada pelos vereadores no apagar das luzes de 2009, sem discussões, audiências ou campanhas de informação à sociedade.

A fisioterapeuta Carolina Coelho, o administrador e blogueiro Ismael Benigo e a médica Bianca Abinader cometeram um erro em comum: se opuseram à cobrança da taxa de lixo e participaram de uma movimentação, nascida no Twitter, para expor os nomes dos vereadores que a aprovaram em outdoors da cidade. Um abaixo assinado eletrônico foi criado, e mais de 500 pessoas já o assinaram. Uma cota foi organizada via Twitter, e o dinheiro para os outdoors foi levantado. Agora a suprema coincidência: quem eram os coordenadores da campanha pelos outdoors?

Sim, Ismael Benigno, Carolina Coelho e Bianca Abinader.

As placas só não foram às ruas porque, na última hora, todas as empresas de outdoor procuradas negaram o serviço, alegando pressões políticas. Um projeto da Prefeitura deverá ser votado ainda neste começo de 2010, e caso aprovado, vai ferir de morte estas empresas, pois prevê a retirada de outdoors da cidade, algo parecido com a lei paulistana que previa a diminuição da poluição visual da cidade. Os vereadores que teriam seus nomes expostos nos outdoors são da base aliada de Amazonino Mendes, e são os mesmos que deverão aprovar a limpeza visual de Manaus.

Então o grupão dos 500 manauaras arrumou outro veículo para fazer seu protesto, e os outdoors viraram anúncios de jornal, veiculados na última sexta-feira (8). Novas ações estão sendo programadas pelo grupo. Bianca, naturalmente, retirou-se da ‘campanha’ pela divulgação dos votos do lixo. Mas outros se puseram à disposição para continuar a ação. Hoje o movimento “Manaus de Olho” já planeja ações de rua, campanhas de internet, recebe colaborações de qualquer pessoa interessada em ajudar e incomoda, e muito, os homens e mulheres públicos que não querem ver seus atos tornados públicos.

O que haveria, então, por trás dos ataques pessoais de Ronaldo Tiradentes a Carolina, Bianca e Ismael?

É difícil saber com exatidão. Ronaldo é conhecido na cidade pela truculência a agressividade com que lidá com opiniões divergentes. O vídeo exibido no blog de Luis Nassif não deixa margem para interpretações. Ao entrar no Twitter e sair horas depois, sem responder as perguntas dos ouvintes, Ronaldo teve seu orgulho ferido. Ao ver gente comum lhe pressionando para responder perguntas incômodas, Ronaldo achou-se atacado em sua honra.

Mas tudo isso é intangível, vago demais. Portanto vamos a dados mais concretos.

Desbancando os grandes

Planilhas internas da Secretaria Municipal de Comunicação da Prefeitura de Manaus, vazadas de dentro da administração, trazem os pagamentos feitos pela secretaria aos diversos órgãos de imprensa da cidade em 2009. São dados detalhados, que mostram que a CBN Manaus e a Tiradentes FM (outra rádio do grupo de Ronaldo) levaram, juntas, quase R$ 700 mil do orçamento da Prefeitura para a área de Comunicação.

Não é pouco para um relatório que registra pagamentos totais de R$ 8,5 milhões. Grosso modo, pode-se dizer que Ronaldo, sozinho, ficou com quase 10% da verba de comunicação da Prefeitura de Manaus em 2009. Do dinheiro dividido entre as 10 principais rádios da cidade, Ronaldo ficou com quase metade.

O quadro abaixo foi produzido a partir dos relatórios recebidos pelo blog, e mostra quanto cada um dos principais veículos de imprensa recebeu da SEMCOM em 2009. Estão listados as rádios, as emissoras de TV, os jornais impressos e os amigos do prefeito:

quadros semcom

Ronaldo Tiradentes poderia reeditar a alcunha do jogador gorducho de futebol, e ser chamado com justiça de “Ronaldo Fenômeno”. Em 2009, com sua infante CBN Manaus e sua musical Tiradentes FM, botou toda a mídia local pra trás, recebendo quase R$ 700 mil e comendo quase metade (46%) de tudo o que as rádios de Manaus levaram no ano. Nem mesmo as emissoras de TV foram páreo para as ondas do rádio de Ronaldo Fenômeno. Apenas a gigante e global TV Amazonas conseguiu impedir que o radialista fosse o homem mais bem pago pela Prefeitura na mídia manauara.

Mesmo amigos do peito do prefeito Amazonino Mendes, o publicitário Durango Duarte (da Perspectiva, empresa de pesquisas eleitorais) e Antônio Pizzonia, não receberam tanto dinheiro. Mas não podem reclamar, especialmente Durango, que durante os primeiros meses da gestão de Amazonino comandou até reuniões de secretariado sem ter qualquer vínculo formal com a Prefeitura. Durango dizia à imprensa, em 2009, que despachava na Prefeitura apenas por amizade, pra ajudar o prefeito.

A amizade desinteressada de Durango custou aos cofres da Prefeitura R$ 635 mil. Segundo os relatórios da SEMCOM, a Perspectiva recebeu, apenas pelo serviço “DIAGNÓSTICO 3 MESES”, R$ 84.500,00 — o resto foi tudo pesquisa, não se sabe de quê. Ou seja, o amigo de Amazonino parece ter recebido quase R$ 100 mil para ajudar o prefeito a denunciar a falência da Prefeitura, com diagnósticos sobre finanças, dívidas, propondo cortes na folha de pagamento, acusando a administração anterior de mentir sobre as contas etc. O resultado do tal “DIAGNÓSTICO 3 MESES” foi uma auditoria do TCE amazonense, solicitada pelo próprio Amazonino, que concluiu que todo o discurso do prefeito recém-empossado, amparado pelos números de Durango, eram uma mentira.

As prefeituras amigas e a AMZ Produções

No último dia de 2009, o Diário Oficial do Município trouxe mais boas notícias para Ronaldo e sua família. A AMZ Produções, a mesma que levou os R$ 4,3 milhões da Prefeitura de Coari pelo aluguel de trios elétricos durante cinco meses, venceu pregão 076/2009 da Prefeitura de Amazonino, e vai fornecer serviços de ’sonorização e iluminação’, que somados chegam a mais R$ 3,5 milhões.

É possível que a AMZ não tenha recebido os R$ 4 milhões de Coari, pois o prefeito Rodrigo Alves, amigo pessoal de Robson Tiradentes, foi cassado em 2009 por crime eleitoral. Rodrigo era o vice de Adail Pinheiro, o suposto chefe da quadrilha das licitações derrubada pela PF, e tornou-se prefeito após o segundo mandato de Adail. Por diversas vezes, ao longo de 2009, Rodrigo teve os microfones da CBN Manaus à sua disposição, exatamente para se defender da acusação de participar do esquema, que envolvia corrupção, assassinatos e pedofilia.

Foi também o blogueiro Ismael Benigno quem encontrou, lendo os diários oficiais do estado, a nomeação da filha de Ronaldo para um importante cargo no governo Eduardo Braga. Sanmya Tiradentes é dentista recém-formada, mas já responde pela Coordenação do Programa de Saúde Bucal do Amazonas, viajando pelos inóspitos municípios do interior por força de seu trabalho. Um dos processos criminais a que Ismael responde se deve à publicação de um diálogo entre Ronaldo e Haroldo Portela, secretário da Prefeitura de Coari, captado pela operação Vorax da PF. Na conversa, Ronaldo negocia a interrupção de suas críticas a Adail supostamente em troca de um emprego na Prefeitura de Coari. O emprego era para sua filha, Sanmya.

Sobre a publicação do diálogo, Ronaldo, em seu próprio blog, dedicou as seguintes palavras ao blogueiro Ismael:

Que bom que agora vc botou sua cara cínica e suja prá fora. Eu sabia que vc tava por trás das sacanagens. Inclusive aquelas do seu bloguinho de merda. Brinquei contigo até te puxar prá dentro. Vc mordeu minha isca. Vc é apenas um pequeno idiota. Não se meta comigo. Vc lembra do ditado. “Pimenta no cú do outro é refresco”. Família ????? Quem é vc prá falar de família. Vc não respeita a minha nem a de ninguém. Saiba que vc responderá na justiça por todas as ofensas gratuitas que fez à mim e à minha família. E vou sugerir que os outros façam o mesmo. Vou suspender temporariamente seu endereço, em homenagem ao seu filho, o qual não deveria respeitar, pois você não respeitou a minha filha, moleque! Vou te dar um tempo de 24 horas: Apague tudo que vc escreveu sobre minha filha e minha família e peça desculpa pública, senão virei aqui publicar as 18 ações que tenho contra vc. Em todas as ações constam seu endereço e do resto da família no Eldorado. Vamos, corra, o relógio está contando……

Outro dado curioso na súbita movimentação da CBN Manaus em torno da médica Bianca é que Sanmya, a filha de Ronaldo, parece não precisar da influência do pai para provar sua competência. Como não bastasse ganhar um cargo importante no governo de Eduardo Braga, a quem Ronaldo chamou de corrupto durante alguns meses e que hoje entrevista quase diariamente, Sanmya foi aprovada em concurso público da Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA). Caso Sanmya já tenha sido convocada para assumir seu posto de dentista na Suframa, cabe aos mais curiosos perguntar onde a moça dá expediente regularmente. Com dois cargos públicos em dois órgãos tão distintos, é de se imaginar se em algum lugar do Amazonas não há pacientes com dor de dente, sem atendimento.

Mas estamos falando da filha de Ronaldo Tiradentes, defensor da sofrida população de baixa renda da periferia de Manaus e inimigo mortal de servidores públicos que se ausentam do trabalho. Um jornalista destes, com essa veia comunitária, não deixaria que sua filha largasse um trabalho tão importante de lado.

O jornalista, a médica e o Twitter

Ronaldo saiu do Twitter porque não quis responder perguntas simples, daquelas feitas por jornalistas com 30 anos de experiência: Você conhece o dono da empresa AMZ? Você processou Marcos Losekann por ter publicado, no livro O Ronco da Pororoca, o diálogo em que você lhe deu a receita do seu sucesso? Você realmente enviou carta e depois ligou para a diretoria de uma multinacional, para pedir ‘ao menos uma prensa’ na fisioterapeuta Carolina Coelho?

Ronaldo não respondeu. Incomodado pelas perguntas, desferiu mensagens ameaçadoras contra o blogueiro Ismael Benigno, lhe chamando de ‘vagabundo’ e ‘imbecil’. Depois disso, deletou sua conta no Twitter e submergiu. Só voltou à tona dias depois, já atrás do microfone e do blog da CBN, protegido pelo isolamento acústico de seu estúdio, onde as perguntas não podiam lhe incomodar. Foi dali que partiu a ordem, na segunda-feira (4), para que o carro de reportagem da rádio CBN estacionasse a duas quadras do posto de saúde de Bianca Abinader. Dali em diante, e a médica passou a ser conhecida, na cidade inteira, pela má profissional que não é.

Ronaldo ainda tentou fazer colar a história de que a perseguição a Bianca era parte de uma série de reportagens sobre a saúde estadual. Não colou, entre outros motivos porque a audiência de sua rádio, alardeada como inteligente e formadora de opinião, realmente é assim. Ronaldo fez uma série de 2 (duas) reportagens, a de Bianca, em que a médica foi procurada pelo nome, e outra, em outro bairro, em que o repórter mal sabia o que fazer no ar. Depois da indignação de seus ouvintes, Ronaldo engavetou sua ’série de reportagens’.

Estava claro, a reportagem era apenas uma, com nome e sobrenome: Bianca Abinader, uma das três pessoas que, dias antes, organizavam um protesto contra um projeto da Prefeitura de Manaus. A mesma prefeitura que, em 2009, pagou quase R$ 1 milhão às rádios de Ronaldo Tiradentes. A mesma prefeitura que, no dia 30 de dezembro de 2009, deu à AMZ Produções um contrato de R$ 3,5 milhões.

As mães e filhos da Casinha de Saúde

Depois do ocorrido, Bianca, entrando no nono mês de gravidez, pediu licença médica de três dias. Precisou de atendimento médico, tomou calmantes para superar o abalo emocional, se afastou dos tweets bem humorados da internet. É possível que tenha pedido a antecipação de sua licença maternidade. Se isso ocorreu, é provável que a comunidade do Campo Dourado II, na humilde zona Norte de Manaus, finalmente esteja sem sua ‘médica da família’, depois de três anos.

Se a comunidade agora está sem médico, caberia a Ronaldo Tiradentes visitar a Prefeitura de Manaus e cobrar a substituição da médica que abateu publicamente, com a força de sua concessão pública de rádio. A CBN Manaus, com sua sanha por defender a saúde pública, voltou ao Campo Dourado pra saber se há outro médico atendendo a população? Ou a vontade de defender os mais humildes acabou com a derrubada da médica grávida?

Ficam também perguntas simples aos leitores do blog do Luis Nassif: que outro âncora, ou mesmo repórter da CBN, em todo o país, já esteve envolvido em tanta confusão quanto Ronaldo Tiradentes? Que outro jornalista da CBN carrega tantos processos nas costas? Que outro repórter da CBN tem ligações pessoais tão umbilicais com o poder público, a ponto de receber dinheiro tanto através de suas empresas em licitações, quanto através de verba pública de comunicação? Que outro jornalista da CBN é suspeito de ter ordenado um atentado a um jornalista em 1996, e foi acusado por outro de ameaça de morte em 2008?

Talvez já seja tarde para a direção da CBN perceber o que fez com sua marca no Amazonas. Quanto a todas as confusões e suspeitas em que está envolvido, ainda que tenham sido criadas por ele próprio, Ronaldo tem o direito que não deu a suas vítimas, o de se explicar e se defender. Se prefere ficar calado, e em vez disso utilizar a marca CBN para seus negócios pessoais, o problema é seu. E claro, da própria CBN.

Não à toa, em Manaus já há adesivos nos carros, com o slogan “CBN, a rádio que troca notícia”.

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Meus dez discos favoritos de todos os tempos. Não consegui estabelecer uma ordem entre eles, a não ser o primeiro lugar, que vai indiscutivelmente para o Goo, do Sonic Youth. Todos os demais estão em segundo.

Obs.: Favor não plastificar a página.

Goo – Sonic Youth.

Meu primeiro contato com o Sonic Youth veio com o álbum Dirty, mais precisamente com “100%” na MTV. Os três acordes não eram punk; o gorro e a camisa xadrez não eram grunge; a sujeira e o peso não eram agressividade, mas uma névoa de tristeza sem causa que aos poucos nos tomava. Depois fui atrás de tudo o mais da banda. Tinha ido morar com uma tia em Nova Jersey, aos 15 anos, o que facilitou – e muito – essa busca, numa época sem internet e peer to peer. Goo se entranhou em tudo o que via, ouvia e tocava. Tunic era cinza e galhos pretos em lupas de gelo. Caminhava pelos corredores da escola com Kool Thing, e o burburinho e gritos soltos e portas de armário se fechando ainda parecem parte da música. Dirty Boots esperava o ônibus amarelo numa esquina, mochila num dos ombros, boné do Pantera. E Disappearer apagava a luz até de manhã.

John Coltrane – A Love Supreme


Comprei o CD. Depois baixei-o em mp3.  Depois comprei o vinil. Minha música preferida de Coltrane não está nesse disco, mas A Love Supreme é um tipo de experiência musical mais urgente, primitiva e irracional por que todos deveriam passar pelo menos uma vez nessa vida. Com idas e vindas de oitavas, frases recorrentes, ritmo hipnótico e o tempo desfragmentado que o modalismo evoca, o disco parece ser um exercício de subversão do tempo-espaço. Coltrane parece querer ocupar todos os lugares ao mesmo tempo, o que quer dizer transformar todos os lugares num lugar apenas, todos os tempos num tempo apenas. Uma essência, um grão, a onipresença que acreditamos divina.

Broken Social Scene – Broken Social Scene


Demorei muito a escutar Broken Social Scene. Acho que nada produzido neste século chega perto desse disco. É uma outra noção de música: às vezes parece que a canção nunca começa, uma sensação de que algo grande está para acontecer, mas vem o silêncio e você descobre que justamente aquela espera, aquela INCONCLUSÃO, era o grande acontecimento; às vezes parece que várias canções vão brotando de cada aresta melódica e que os músicos vão sendo tragados por esse movimento sem saber realmente para onde estão indo, mas sem medo de se perder. São tantos detalhes, tantas texturas e sobreposições que essa ideia que o disco passa de acaso e de instinto na construção das canções são um dos mais belos mistérios para os ouvidos na história recente da música.

Tom Waits – The Heart of Saturday Night


Não é para ser ouvido no calor. Sua venda é proibida em Manaus. Neon no horizonte, sarjetas, bourbon, piano nos dedos, cigarro na boca, edifícios de pedra, voz rouca como símbolo de invernos e de ressacas. Pode ter sido feito em Los Angeles, mas esse blues pertence a Nova Iorque. Não se pode suar nesse universo, a não ser se for comendo aquela garçonete do Munson Diner, a quem dedicaste alguns versos durante um longo café às quatro e meia.

Além do mais, o disco ainda tem a segunda frase mais blueseira de todos os tempos: “Two dead ends and you still got to choose” (Fumblin‘ With The Blues). A primeira pertence a B.B. King: “Nobody loves me like my mother… and she could be jiving too”.

The Pharcyde – Bizarre Ride II


Não consigo ouvir o refrão de Soul Flower e continuar parado. Muito humor, batidas chapadas, um pezinho no jazz, outro no soul, outro (?) na jaca. Animou muita festa de branquelos americanos em Paris no fim dos anos 90, ao lado de Digable Planets, A Tribe Called Quest, People Under The Stairs, Da Coup, The Roots, Pete Rock & C.L. Smooth e outros grupos alternativos de rap. Pedras marroquinas, longos cachimbos, garrafas de vinho barato e um pacote úmido de West Virginia completavam a noite.

Dinosaur Jr. – You‘re Living All Over Me


J Mascis era O cara na minha adolescência: guitarrista, letrista e compositor da Dinosaur Jr, banda que fazia a molecada correr atrás de CDs piratas, gravações de shows, cartazes e tudo o mais. Lembro de ficar economizando uma grana para torrar numa feira só de artigos relacionados com música que passava de vez em quando por Nova Jersey. Vários estandes se espalhavam por um imenso gramado, onde sobreviventes de woodstock, nerds e demais outsiders vendiam toda espécie de memorabília musical, além de discos e mais discos, edições especiais, cds piratas de shows, etc. Comprávamos tudo o que encontrávamos do Dinosaur Jr.

Little Fury Things e In a Jar, duas de minhas preferidas, estão neste disco.

Led Zeppelin – Led Zeppelin III


Minha mãe tinha uma loja de sapatos e uma cliente compulsiva que tinha uma loja (bem ruinzinha) de discos. Certa vez, para pagar uma dívida de sandálias e cintos, ela disse a minha mãe para passar por lá e levar o que quisesse. Minha mãe me levou para ajudar. Na época ouvia quase que exclusivamente AC/DC. Queria largar Iron Maiden, estava proibido de pegar o LP do King Diamond de volta depois que minha mãe o confiscara, cansada de meus pesadelos com Abigail. Então lá estavam eles, a trinca. Led Zeppelin I, II e III. Peguei todos, fiquei mais com o III. Since I‘ve Been Loving You e Tangerine estavam lá, e um mundo totalmente novo.

Novos Baianos – Novos Baianos F.C.


A Tropicalia pode ter dado a ideia, mas quem conseguiu transformar a guitarra num instrumento legitimamente brasileiro foi Pepeu Gomes e turma. Não é samba, não é rock, não é jazz, é alguma coisa no meio testando as beiradas. Pra mim, esses hippies doidões foram os grandes gênios da música brasileira.

Pago pau pra Pepeu.

Oscar Peterson – Night Train


Foi o disco que me levou ao jazz. Acho que o trio de piano, baixo e bateria é a formação ideal por meio da qual se pode adentrar por esse mundo de melodias e harmonias complexas e menos óbvias do jazz, sem que se sofra um grande choque. Dentro dessa formação, esse disco bem blueseiro de Oscar Peterson faz esse trânsito de maneira mais agradável ainda.

Wilco – Sky Blue Sky


Esse é o disco que eu gostaria de ter feito. A cada solo de guitarra, a cada linha de piano, a cada harmônica vocal, a cada pausa, tenho a plena consciência de quem sou, da pele que me fronteiriza, da distância de meu horizonte. A cada segundo reconheço os meus limites.

Escutar Sky Blue Sky é exercitar a sensação do Sublime, que não é a coisa, como muitos pensam, mas algo que porventura se sente diante da coisa  (o disco não pode ser sublime, mas pode gerar em mim a sensação do sublime). Quando ficamos, por exemplo, diante de uma bela e enorme obra arquitetônica e sentimos um engrandecimento orgulhoso pelo “tamanho” da beleza que o homem é capaz de produzir, ao mesmo tempo em que nos vemos tão pequenos diante daquilo, tão insignificantes aos seus pés, experimentamos essa sensação de que falo. Esse paradoxo de ser grande e ínfimo ao mesmo tempo.

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15 de Janeiro. 20h. Ingresso comprado.

Aqui em baixo:

Junior Mance tocou com Charlie Parker, Dizzie Gillespie, Cannonball Adderley e Coleman Hawkins antes de começar a montar seus próprios grupos, a partir da década de 60.

No vídeo lá de cima (ignorem o clipe), ele mostra sua versão de uma música que, para mim, é uma das mais belas composições da história da humanidade.

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Passando pelo centro de Juiz de Fora, vi um sebo vendendo seu acervo por peso. “Livro a Kilo!”, dizia o anúncio. Dependendo da estante, os preços variavam de nove a vinte reais por quilo de livro. Sem querer, achei uma edição de 1924 de um guia turístico de Paris, “Paris et ses Environs – Les Guides Bleus”, devidamente arrematado por R$ 18.

Há uma introdução com aspirações meio literárias, resgatando os primórdios do gênero, que remontam ao livro “Tableau de Paris”, uma obra em 12 volumes. Um guia turístico em DOZE VOLUMES! Por curiosidade, fui atrás do tal livro e o encontrei para baixar. Mas onde quero chegar com toda essa história?

Bem, na página 71 do primeiro volume, encontrei um capítulo dedicado aos “Portadores de Água”, pessoas que retiram água do rio para vender aos moradores da capital francesa, que até então possuía um sistema de distribuição de água muito deficiente. Bem, são 20 mil desses profissionais circulando o dia inteiro pela cidade – para atender à toda a demanda – vendendo uma água que, segundo o autor do guia, relaxa o estômago. Quando o rio está com “problemas”, entretanto, ele pede que o turista acrescente uma colherinha de um bom vinagre branco em cada balde, para evitar possíveis diarreias.

Paris. Ano? 1781 (sim, o tal do Tableau foi editado e publicado em MIL, SETECENTOS E OITENTA E UM).

Manaus, a Paris dos Trópicos, igualzinha. Mas… em que ano estamos?

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O que devo pensar quando a rede balança sozinha, tufos de renda dedilhados e mudos nesse grande e inútil piano para o vento do oeste, ou para qualquer vento dessa grama fresca o zumbido não me alcança. Um velocípede rosa e seu pássaro no guidão, a coluna de tijolos polidos, quando acenderem as luzes de natal e for essa noite o que devo pensar?

Essa figura, esse mundo, essa paisagem que invento porque descubro, que crio porque entendo. Esse mundo está aí, como diria Cortázar, “da mesma forma como a água existe no oxigênio e no hidrogênio ou, ainda, como podemos encontrar nas páginas 78, 457, 3, 271, 688, 75 e 456 do Dicionário da Academia Espanhola tudo o que é necessário para escrever um certo undecassílabo de Garcilaso”.

O que devo pensar quando esses gritos e ralhos e coachos de bichos que não vejo se ocupam do vão da rede, das curvas e das tramas, e os arbustos de longe se desfazem numa revoada estrondosa de pássaros?

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Morar no Rio de Janeiro. Estudar Charlie Parker e Julio Cortázar. O espaço e o tempo dentro de uma valise de cronópio e do oco de um saxofone. Onde fico, duas oitavas faróis em cada beira de atlântico. Dois anos subindo e descendo a serra. o metrô. o bloco f. a página 214. três amores, vinte caixas, uma última olhada antes de fechar as janelas.

A qualquer momento terão decidido o portão. E sobrará aquele parafuso na sala.

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Wilco – Side With The Seeds (do imperdível disco Sky Blue Sky)

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A_GENTE_CAPA

A_GENTE_CONTRACAPA

Está aí o novo EP do Carroça. Clique aqui para baixá-lo na íntegra, com capa, contracapa e encarte com letras. Para ouvir as músicas em streaming, utilize os tocadores abaixo:

01 A Gente

02 Bird

03 Eclipse

04 Wes

05 Goma

06 Poeira

07 Açúcar

nota de esclarecimento: o Controle Gabiru Discos é um selo independente e imaginário, como grande parte dos meus amigos e das coisas que acho que fiz ou que comi.

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Não conhecia o pintor Pierre Soulage, mas ao ler uma pequena entrevista concedida a Philippe Dagen, no Le Monde (no. 3181), por conta de uma exposição em cartaz no Centre Pompidou até março, fui procurar seus trabalhos pela Internet.

Me interessei porque o cara vai direto ao ponto, sem as afetações e viagens características do povo ultramoderno e arrogante do mundinho das artes. Entrevistas com artistas normalmente são uma porcaria, especialmente em jornais impressos, primeiro porque não há muito espaço na página e segundo porque artistas raramente conseguem ser sintéticos quando o assunto são eles mesmos.

Traduzi dois trechos a seguir:

Enfocando as obras de 1946-1947, os curadores da exposição tornaram a singularidade desses trabalhos ainda mais evidente. Você poderia explicar essa singularidade hoje em dia?

Simplesmente, comecei a pintar por mim mesmo, com o que mais gostava, com a cor e os ritmos de que gostava, com a disposição das formas que me interessavam. É verdade que eu estava um tanto isolado; na França, fora Picabia, Pevsner, Hartung e Roberta Gonzales, não havia muito mais que interessasse ao que eu estava fazendo. Naquele momento, em 1946, a maior parte dos pintores experimentavam a pintura de suas emoções, uma forma de expressionismo. Eles queriam que houvesse um sentido para suas telas. Mas o sentido não é dado definitivamente: ele se faz e se desfaz… lembro-me de uma visita ao Louvre, naquele tempo. Uma obra mesopotâmica me fez parar; e me perguntei o por quê.

Que relação eu tinha com o homem que fez aquilo? Nenhuma. O que ela significava para os seus contemporâneos, em relação à cultura, religião ou ordem social de então? Não sabia. O sentido que ela possuía naquela época me é irrecuperável, e isso na verdade não tem importância. Então, o que acontece? Aquela escultura de basalto negro era uma coisa, e não um signo. Aquela escultura ia muito mais longe que um signo e mobilizava em mim, algo meu. Ela não era, portanto, redutível a um sentido ou a palavras. Uma obra… não são palavras: se queremos palavras, escrevemos, não pintamos. A pintura não está lá para dizer.

Nem para ser dita…

Não. Certo dia, Nathalie Sarraute me escreveu, numa carta, que as palavras não podem penetrar numa pintura. Concordo com ela. No mais, se a pintura for uma questão de sentido, quando esse sentido passar podemos jogá-la no lixo, não? Como um telegrama lido…

(…)

soulage

O senhor pendurou telas negras numa sala sem muita luminosidade…

Para mostrar que é preciso ver com os olhos, não com o que temos na cabeça. Para preparar os visitantes ao que eles verão em seguida. Para que eles sintam, como eu, que a luz é de uma riqueza inimaginável. A luz se fragmenta, se cadencia, se modifica. É incrível o que podemos fazer com ela, sempre surgem novas possibilidades.

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O Olho de Quem acaba de lançar uma grande campanha de utilidade privada:

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Fale Umas Verdades e seja processado pelo Fenômeno Xavier

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Fenômeno Xavier não existe, mas ainda assim é uma piada. E como todo personagem inventado que vira uma piada, tem o ego imenso e faz faculdade de direito.

Fenômeno Xavier jamais disse uma palavra, mas gosta dos chavões anacrônicos de autos processuais, que exibirá como vocabulário, orgulhoso, no dia em que finalmente chegar a esse mundo por meio de novas tecnologias cosmogônicas ou de um rabo de cometa.

Fenômeno Xavier, rábula barrigudo, caminha sobre o bulbo de um microfone de lá pra cá, daqui pra ali, em seu universo sozinho, aquele seu planeta de lá, onde ele é grande e o mundo é pequeno.

Fenômeno Xavier não existe. Mas diz a lenda que se mencionares o nome dele cinco vezes diante da tela de um computador com conexão à Internet, ele aparece e te processa.

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