Sou fã de road movies, do trânsito que eles evocam e que nos define, pois só nos resta a estrada e ela nunca chega aonde queremos porque querer é apenas lançar uma pedra para além dessa vista curta e ter uma direção e partir… irremediavelmente. Caros F… Amigos (Cari Fottutissimi Amici, 1994), do mestre Mário Monicelli, é meu favorito no gênero. Coloca em trânsito tanto a Itália quanto o cinema: no plano narrativo, um país no meio do caminho entre a fome numa guerra absurda chegando ao fim e um carregamento ilusório de batatas do Canadá a ser distribuído na relojoaria; no plano da linguagem, uma cinematografia entre o chão de De Sica e as nuvens de Fellini.

Pois é da realidade de extrema miséria e desilusão, da visão desbotada no pó de um mundo em ruínas, que Monicelli retira sua matéria onírica, a partir de uma ingenuidade e de um otimismo quase descabidos não fossem, fatalmente, a única saída possível para que as vidas de seus personagens continuem. Essa é a verdadeira fuga, o verdadeiro trânsito, o trânsito que prescinde de um destino exatamente porque o que se deseja é apenas continuar andando, essa é a fantasia que nos desloca e que nos aliena. É a estrada que nos resta.

Então um velho ex-boxeador, apelidado de Senhor Dez (Sor Dieci) porque sempre era levado a nocaute em suas lutas, resolve juntar uma trupe de largados dessa vida para promover pequenos campeonatos itinerantes de boxe pelas feiras de Florença, aproveitando-se do fato de que todos estavam em busca de diversão com o fim da guerra. Ao contrário do que acontecia antes, agora nada mais parece capaz de derrubar Dieci, o Dieci Quixote para quem tudo é uma experiência extraordinária, o Dieci que representa a leveza pregada por outro italiano, o Calvino, em suas propostas para o novo milênio. Sor Dieci está tão absorvido pela fantasia que num dado momento imita um galo, batendo os braços flexionados como asas e cacarejando, como forma de atrair uma galinha que eles tentavam pegar para fazer de almoço, e tudo faz parecer que isso seria a coisa mais normal do mundo a se fazer.

Não se trata, pois, de um tratamento visual que evoque o fantástico; longe disso, é a realidade que é absurda e insuportavelmente distorcida. A fantasia não vem em carro alegórico, mas nas sutilezas do cotidiano, num veludo quase translúcido envolvendo tudo e é preciso estar numa perspectiva exata de convergência de todos os dissabores e das amarguras e de todos os pães amassados dessa vida para que de repente se abra o olho e se comece a vê-lo. A leveza, ou fantasia, está no otimismo invencível de Dieci, na mulher do tiro ao alvo que dá em troca de berinjelas, no homem que perdeu a mulher e as botas e vai de bicicleta em busca de alguma delas, calçando folhas de figo que precisam ser umedecidas de tempos em tempos.

A fantasia está no boxe pela estrada no fim do filme; não no fim da estrada.

Meus dez discos favoritos de todos os tempos. Não consegui estabelecer uma ordem entre eles, a não ser o primeiro lugar, que vai indiscutivelmente para o Goo, do Sonic Youth. Todos os demais estão em segundo.

Obs.: Favor não plastificar a página.

Goo – Sonic Youth.

Meu primeiro contato com o Sonic Youth veio com o álbum Dirty, mais precisamente com “100%” na MTV. Os três acordes não eram punk; o gorro e a camisa xadrez não eram grunge; a sujeira e o peso não eram agressividade, mas uma névoa de tristeza sem causa que aos poucos nos tomava. Depois fui atrás de tudo o mais da banda. Tinha ido morar com uma tia em Nova Jersey, aos 15 anos, o que facilitou – e muito – essa busca, numa época sem internet e peer to peer. Goo se entranhou em tudo o que via, ouvia e tocava. Tunic era cinza e galhos pretos em lupas de gelo. Caminhava pelos corredores da escola com Kool Thing, e o burburinho e gritos soltos e portas de armário se fechando ainda parecem parte da música. Dirty Boots esperava o ônibus amarelo numa esquina, mochila num dos ombros, boné do Pantera. E Disappearer apagava a luz até de manhã.

John Coltrane – A Love Supreme


Comprei o CD. Depois baixei-o em mp3.  Depois comprei o vinil. Minha música preferida de Coltrane não está nesse disco, mas A Love Supreme é um tipo de experiência musical mais urgente, primitiva e irracional por que todos deveriam passar pelo menos uma vez nessa vida. Com idas e vindas de oitavas, frases recorrentes, ritmo hipnótico e o tempo desfragmentado que o modalismo evoca, o disco parece ser um exercício de subversão do tempo-espaço. Coltrane parece querer ocupar todos os lugares ao mesmo tempo, o que quer dizer transformar todos os lugares num lugar apenas, todos os tempos num tempo apenas. Uma essência, um grão, a onipresença que acreditamos divina.

Broken Social Scene – Broken Social Scene


Demorei muito a escutar Broken Social Scene. Acho que nada produzido neste século chega perto desse disco. É uma outra noção de música: às vezes parece que a canção nunca começa, uma sensação de que algo grande está para acontecer, mas vem o silêncio e você descobre que justamente aquela espera, aquela INCONCLUSÃO, era o grande acontecimento; às vezes parece que várias canções vão brotando de cada aresta melódica e que os músicos vão sendo tragados por esse movimento sem saber realmente para onde estão indo, mas sem medo de se perder. São tantos detalhes, tantas texturas e sobreposições que essa ideia que o disco passa de acaso e de instinto na construção das canções são um dos mais belos mistérios para os ouvidos na história recente da música.

Tom Waits – The Heart of Saturday Night


Não é para ser ouvido no calor. Sua venda é proibida em Manaus. Neon no horizonte, sarjetas, bourbon, piano nos dedos, cigarro na boca, edifícios de pedra, voz rouca como símbolo de invernos e de ressacas. Pode ter sido feito em Los Angeles, mas esse blues pertence a Nova Iorque. Não se pode suar nesse universo, a não ser se for comendo aquela garçonete do Munson Diner, a quem dedicaste alguns versos durante um longo café às quatro e meia.

Além do mais, o disco ainda tem a segunda frase mais blueseira de todos os tempos: “Two dead ends and you still got to choose” (Fumblin‘ With The Blues). A primeira pertence a B.B. King: “Nobody loves me like my mother… and she could be jiving too”.

The Pharcyde – Bizarre Ride II


Não consigo ouvir o refrão de Soul Flower e continuar parado. Muito humor, batidas chapadas, um pezinho no jazz, outro no soul, outro (?) na jaca. Animou muita festa de branquelos americanos em Paris no fim dos anos 90, ao lado de Digable Planets, A Tribe Called Quest, People Under The Stairs, Da Coup, The Roots, Pete Rock & C.L. Smooth e outros grupos alternativos de rap. Pedras marroquinas, longos cachimbos, garrafas de vinho barato e um pacote úmido de West Virginia completavam a noite.

Dinosaur Jr. – You‘re Living All Over Me


J Mascis era O cara na minha adolescência: guitarrista, letrista e compositor da Dinosaur Jr, banda que fazia a molecada correr atrás de CDs piratas, gravações de shows, cartazes e tudo o mais. Lembro de ficar economizando uma grana para torrar numa feira só de artigos relacionados com música que passava de vez em quando por Nova Jersey. Vários estandes se espalhavam por um imenso gramado, onde sobreviventes de woodstock, nerds e demais outsiders vendiam toda espécie de memorabília musical, além de discos e mais discos, edições especiais, cds piratas de shows, etc. Comprávamos tudo o que encontrávamos do Dinosaur Jr.

Little Fury Things e In a Jar, duas de minhas preferidas, estão neste disco.

Led Zeppelin – Led Zeppelin III


Minha mãe tinha uma loja de sapatos e uma cliente compulsiva que tinha uma loja (bem ruinzinha) de discos. Certa vez, para pagar uma dívida de sandálias e cintos, ela disse a minha mãe para passar por lá e levar o que quisesse. Minha mãe me levou para ajudar. Na época ouvia quase que exclusivamente AC/DC. Queria largar Iron Maiden, estava proibido de pegar o LP do King Diamond de volta depois que minha mãe o confiscara, cansada de meus pesadelos com Abigail. Então lá estavam eles, a trinca. Led Zeppelin I, II e III. Peguei todos, fiquei mais com o III. Since I‘ve Been Loving You e Tangerine estavam lá, e um mundo totalmente novo.

Novos Baianos – Novos Baianos F.C.


A Tropicalia pode ter dado a ideia, mas quem conseguiu transformar a guitarra num instrumento legitimamente brasileiro foi Pepeu Gomes e turma. Não é samba, não é rock, não é jazz, é alguma coisa no meio testando as beiradas. Pra mim, esses hippies doidões foram os grandes gênios da música brasileira.

Pago pau pra Pepeu.

Oscar Peterson – Night Train


Foi o disco que me levou ao jazz. Acho que o trio de piano, baixo e bateria é a formação ideal por meio da qual se pode adentrar por esse mundo de melodias e harmonias complexas e menos óbvias do jazz, sem que se sofra um grande choque. Dentro dessa formação, esse disco bem blueseiro de Oscar Peterson faz esse trânsito de maneira mais agradável ainda.

Wilco – Sky Blue Sky


Esse é o disco que eu gostaria de ter feito. A cada solo de guitarra, a cada linha de piano, a cada harmônica vocal, a cada pausa, tenho a plena consciência de quem sou, da pele que me fronteiriza, da distância de meu horizonte. A cada segundo reconheço os meus limites.

Escutar Sky Blue Sky é exercitar a sensação do Sublime, que não é a coisa, como muitos pensam, mas algo que porventura se sente diante da coisa  (o disco não pode ser sublime, mas pode gerar em mim a sensação do sublime). Quando ficamos, por exemplo, diante de uma bela e enorme obra arquitetônica e sentimos um engrandecimento orgulhoso pelo “tamanho” da beleza que o homem é capaz de produzir, ao mesmo tempo em que nos vemos tão pequenos diante daquilo, tão insignificantes aos seus pés, experimentamos essa sensação de que falo. Esse paradoxo de ser grande e ínfimo ao mesmo tempo.

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15 de Janeiro. 20h. Ingresso comprado.

Aqui em baixo:

Junior Mance tocou com Charlie Parker, Dizzie Gillespie, Cannonball Adderley e Coleman Hawkins antes de começar a montar seus próprios grupos, a partir da década de 60.

No vídeo lá de cima (ignorem o clipe), ele mostra sua versão de uma música que, para mim, é uma das mais belas composições da história da humanidade.

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Passando pelo centro de Juiz de Fora, vi um sebo vendendo seu acervo por peso. “Livro a Kilo!”, dizia o anúncio. Dependendo da estante, os preços variavam de nove a vinte reais por quilo de livro. Sem querer, achei uma edição de 1924 de um guia turístico de Paris, “Paris et ses Environs – Les Guides Bleus”, devidamente arrematado por R$ 18.

Há uma introdução com aspirações meio literárias, resgatando os primórdios do gênero, que remontam ao livro “Tableau de Paris”, uma obra em 12 volumes. Um guia turístico em DOZE VOLUMES! Por curiosidade, fui atrás do tal livro e o encontrei para baixar. Mas onde quero chegar com toda essa história?

Bem, na página 71 do primeiro volume, encontrei um capítulo dedicado aos “Portadores de Água”, pessoas que retiram água do rio para vender aos moradores da capital francesa, que até então possuía um sistema de distribuição de água muito deficiente. Bem, são 20 mil desses profissionais circulando o dia inteiro pela cidade – para atender à toda a demanda – vendendo uma água que, segundo o autor do guia, relaxa o estômago. Quando o rio está com “problemas”, entretanto, ele pede que o turista acrescente uma colherinha de um bom vinagre branco em cada balde, para evitar possíveis diarreias.

Paris. Ano? 1781 (sim, o tal do Tableau foi editado e publicado em MIL, SETECENTOS E OITENTA E UM).

Manaus, a Paris dos Trópicos, igualzinha. Mas… em que ano estamos?

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O que devo pensar quando a rede balança sozinha, tufos de renda dedilhados e mudos nesse grande e inútil piano para o vento do oeste, ou para qualquer vento dessa grama fresca o zumbido não me alcança. Um velocípede rosa e seu pássaro no guidão, a coluna de tijolos polidos, quando acenderem as luzes de natal e for essa noite o que devo pensar?

Essa figura, esse mundo, essa paisagem que invento porque descubro, que crio porque entendo. Esse mundo está aí, como diria Cortázar, “da mesma forma como a água existe no oxigênio e no hidrogênio ou, ainda, como podemos encontrar nas páginas 78, 457, 3, 271, 688, 75 e 456 do Dicionário da Academia Espanhola tudo o que é necessário para escrever um certo undecassílabo de Garcilaso”.

O que devo pensar quando esses gritos e ralhos e coachos de bichos que não vejo se ocupam do vão da rede, das curvas e das tramas, e os arbustos de longe se desfazem numa revoada estrondosa de pássaros?

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Morar no Rio de Janeiro. Estudar Charlie Parker e Julio Cortázar. O espaço e o tempo dentro de uma valise de cronópio e do oco de um saxofone. Onde fico, duas oitavas faróis em cada beira de atlântico. Dois anos subindo e descendo a serra. o metrô. o bloco f. a página 214. três amores, vinte caixas, uma última olhada antes de fechar as janelas.

A qualquer momento terão decidido o portão. E sobrará aquele parafuso na sala.

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Wilco – Side With The Seeds (do imperdível disco Sky Blue Sky)

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A_GENTE_CAPA

A_GENTE_CONTRACAPA

Está aí o novo EP do Carroça. Clique aqui para baixá-lo na íntegra, com capa, contracapa e encarte com letras. Para ouvir as músicas em streaming, utilize os tocadores abaixo:

01 A Gente

02 Bird

03 Eclipse

04 Wes

05 Goma

06 Poeira

07 Açúcar

nota de esclarecimento: o Controle Gabiru Discos é um selo independente e imaginário, como grande parte dos meus amigos e das coisas que acho que fiz ou que comi.

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Não conhecia o pintor Pierre Soulage, mas ao ler uma pequena entrevista concedida a Philippe Dagen, no Le Monde (no. 3181), por conta de uma exposição em cartaz no Centre Pompidou até março, fui procurar seus trabalhos pela Internet.

Me interessei porque o cara vai direto ao ponto, sem as afetações e viagens características do povo ultramoderno e arrogante do mundinho das artes. Entrevistas com artistas normalmente são uma porcaria, especialmente em jornais impressos, primeiro porque não há muito espaço na página e segundo porque artistas raramente conseguem ser sintéticos quando o assunto são eles mesmos.

Traduzi dois trechos a seguir:

Enfocando as obras de 1946-1947, os curadores da exposição tornaram a singularidade desses trabalhos ainda mais evidente. Você poderia explicar essa singularidade hoje em dia?

Simplesmente, comecei a pintar por mim mesmo, com o que mais gostava, com a cor e os ritmos de que gostava, com a disposição das formas que me interessavam. É verdade que eu estava um tanto isolado; na França, fora Picabia, Pevsner, Hartung e Roberta Gonzales, não havia muito mais que interessasse ao que eu estava fazendo. Naquele momento, em 1946, a maior parte dos pintores experimentavam a pintura de suas emoções, uma forma de expressionismo. Eles queriam que houvesse um sentido para suas telas. Mas o sentido não é dado definitivamente: ele se faz e se desfaz… lembro-me de uma visita ao Louvre, naquele tempo. Uma obra mesopotâmica me fez parar; e me perguntei o por quê.

Que relação eu tinha com o homem que fez aquilo? Nenhuma. O que ela significava para os seus contemporâneos, em relação à cultura, religião ou ordem social de então? Não sabia. O sentido que ela possuía naquela época me é irrecuperável, e isso na verdade não tem importância. Então, o que acontece? Aquela escultura de basalto negro era uma coisa, e não um signo. Aquela escultura ia muito mais longe que um signo e mobilizava em mim, algo meu. Ela não era, portanto, redutível a um sentido ou a palavras. Uma obra… não são palavras: se queremos palavras, escrevemos, não pintamos. A pintura não está lá para dizer.

Nem para ser dita…

Não. Certo dia, Nathalie Sarraute me escreveu, numa carta, que as palavras não podem penetrar numa pintura. Concordo com ela. No mais, se a pintura for uma questão de sentido, quando esse sentido passar podemos jogá-la no lixo, não? Como um telegrama lido…

(…)

soulage

O senhor pendurou telas negras numa sala sem muita luminosidade…

Para mostrar que é preciso ver com os olhos, não com o que temos na cabeça. Para preparar os visitantes ao que eles verão em seguida. Para que eles sintam, como eu, que a luz é de uma riqueza inimaginável. A luz se fragmenta, se cadencia, se modifica. É incrível o que podemos fazer com ela, sempre surgem novas possibilidades.

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O Olho de Quem acaba de lançar uma grande campanha de utilidade privada:

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Fale Umas Verdades e seja processado pelo Fenômeno Xavier

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Fenômeno Xavier não existe, mas ainda assim é uma piada. E como todo personagem inventado que vira uma piada, tem o ego imenso e faz faculdade de direito.

Fenômeno Xavier jamais disse uma palavra, mas gosta dos chavões anacrônicos de autos processuais, que exibirá como vocabulário, orgulhoso, no dia em que finalmente chegar a esse mundo por meio de novas tecnologias cosmogônicas ou de um rabo de cometa.

Fenômeno Xavier, rábula barrigudo, caminha sobre o bulbo de um microfone de lá pra cá, daqui pra ali, em seu universo sozinho, aquele seu planeta de lá, onde ele é grande e o mundo é pequeno.

Fenômeno Xavier não existe. Mas diz a lenda que se mencionares o nome dele cinco vezes diante da tela de um computador com conexão à Internet, ele aparece e te processa.

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Num voo com 150 passageiros, na era do politicamente correto, não é exagero dizer que por volta de 100 pessoas podem exigir atendimento preferencial. Entre gente com problema de locomoção, velhos, operados, gestantes e pais com crianças de colo, não sobra muito espaço para essa pobre minoria relegada dos adultos com idade entre 18 e 50 que andam sozinhos e com desenvoltura, às vezes até mascando um chiclete com invejável displicência .

Os guichês de check-in da TAM, no Eduardo Gomes, são um ótimo exemplo disso. São sempre dois atendentes para dois voos com horários próximos. Se considerarmos que o procedimento de checar documentos e despachar bagagens leva quase 10 minutos, é razoável pensar que isso é tempo suficiente para o surgimento de pelo menos mais duas pessoas com atendimento preferencial garantido por lei. Mas isso não é tudo: normalmente os preferenciais andam em bandos, acompanhados por familiares e/ou amigos, que por sua vez também ganham o direito ao atendimento rápido por extensão de benefícios. O resultado é uma grande vingança contra os mascadores displicentes de chiclete: vocês podem andar sozinhos e com desenvoltura, mas suas filas jamais sairão do lugar.

Viajei um tanto desde Outubro, por conta de uns projetos, e pude presenciar alguns fatos inusitados nessas filas de check-in, mas o que mais me chamou a atenção foi uma briga exatamente na fila de atendimento preferencial. Esses tempos modernos sem Os Trapalhões na televisão geraram um inchaço insustentável das grandes conquistas sociais, o que desembocou num outro tipo de problema. Antes a pergunta era “quem tem preferência”. Hoje, como quase todos têm preferência, a pergunta é “quem tem mais preferência”.

Num dado momento, o primeiro da fila de atendimento preferencial era apenas um velho comum, apenas meio careca e meio trêmulo, ansioso por sua vez após o longo check-in da extensa comitiva da mãe, tias e primos de um garotinho com graves deformações nos membros inferiores e um óculos fora de moda no rosto. Antes que ele pudesse chegar ao guichê, entretanto, uma senhora avançou pelo lado com mais cara de sofrimento e ganhou a vez, sensibilizando o funcionário da TAM. O velho comum, visivelmente irritado – porque começou a tremer mais –, foi tomar satisfações com a velha comum, afinal de contas ele estava há mais tempo na fila – e talvez até mesmo há mais tempo nesse mundo. Não teve jeito: como ambos eram apenas velhos comuns, esse critério de preferência zerou o jogo, e o desempate veio com a recente cirurgia num dos seios da senhora, que lhe garantiu a vez.

Fiquei pensando que talvez surgisse uma outra velha comum também com uma recente cirurgia num dos seios, e que o desempate estaria, então, na função da cirurgia: a extirpação de um tumor benigno, por exemplo, teria preferência diante de uma implantação de silicone; mas perderia para a retirada total de um seio vítima de câncer.

Cada tempo tem as dúvidas que merece.

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